Uma dica de escrita que pode parecer o seguinte: pense que o Kafka faz algo muito específico que não é A Metamorfosis, é outra coisa. Vamos dizer, por exemplo, que esse rapaz fez alguma cagada. Esqueça a metamorfose. O enredo não seria ele virar um inseto, seria ele fazer alguma cagada. Só que aí ele coloca essa metamorfose e, quando vai descrever as coisas, ele já tem uma ideia tão específica na cabeça que não conta o que é. Assim, ele consegue narrar as cenas possíveis com muita fluidez, adaptando tudo para esse caso específico.
Dá para entender? É como se o Kafka não estivesse inventando tudo ali na hora, como seria se o garoto tivesse virado um inseto e a família fosse interagir com ele. Não é isso que ele está mostrando para gente, mas ele sabe o que escrever. Inclusive, o jeito que a coisa é descrita faz com que ninguém questione por que ele virou aquilo, ninguém fica assustado com o fato de ele ter virado uma barata ou um inseto. Eles ficam assustados com o fato de ele ser uma barata, mas não porque aquilo aconteceu, não ficam tipo: "Caramba, como será que isso aconteceu, meu Deus?". Eles ficam curiosos, olham para ele como se ele fosse culpado: "O que você fez? O que você está fazendo?". É como se o tivessem pego fazendo alguma coisa. É por isso que ele fica tentando encontrar uma desculpa para ele mesmo, pensando que não vai dar certo, e parece que ele não tem noção da situação. É estranho como ele não tem noção da situação em que está; é como se não fosse tão terrível quanto realmente é. É uma parada que não tem volta, ele virou um inseto, mas não se comporta assim, e a família dele também não. É claro que, quando olham para ele, veem um inseto, mas parece que o que aconteceu foi outra coisa, parece que ele fez alguma cagada.
Você vê as reações: é quase como se ele tivesse culpa naquilo. Imagem que ele tivesse cagado nas calças mesmo, literalmente feito uma cagada nele mesmo, e aí ele ficasse assim: "Ai meu Deus, eu tenho que me limpar aqui, porque o cara já vai abrir a porta. Espera aí só um pouquinho, já vou me arrumar aqui, calma". Mas o que você vai fazer, cara? Você virou um inseto, meu, você não está só cagado! Mas ele continua agindo como se houvesse alguma coisa ali que já dá para arrumar. Parece que o Kafka tem isso na cabeça, ele pensou em alguma situação que pode acontecer no mundo real, mas transforma isso nessa fantasia de o cara virar um inseto. E aí ele começa a transformar essas cenas possíveis nessas cenas mais bizarras do inseto. Eu tenho essa sensação.
Pegando o Kafka, ele escreveu essa história do início ao fim em cerca de 20 dias: de 7 de outubro de 1912 até 17 de novembro de 1912. Foi publicada em 1915. Ele disse que não estava satisfeito com o fim, mas publicou assim mesmo. Chegou até 1924 e também não mudou nada; o livro continuou sendo publicado, ganhou prêmio e ele não alterou absolutamente nada.
E assim, a grande inspiração literária de Kafka era Flaubert, autor de Madame Bovary, Salambo, Três Contos e Dicionário de Ideias Prontas, que é um livro muito bom. O Flaubert tem aquele culto do artista, sabendo que o artista trabalha muito, tenta muito, e trabalha tanto com o inconsciente quanto com o consciente. Então, a obra dele tem que ser genial conscientemente e, ao mesmo tempo, o artista tem que ser capaz de colocar coisas que não vão quebrar a parte que ele faz de forma consciente, mas que estão para além da compreensão dele. Ele sabe que não vai ter aquilo sob seu domínio total. É como se ele estivesse escrevendo também para si mesmo, como se, depois de terminar e ler a obra muito tempo depois, ele dissesse: "Caraca, isso aqui… me parece que é isso aqui, eu nem sabia, botei isso aqui mas não sabia".
E o Kafka copia Flaubert no estilo de escrita e até nos procedimentos. A rotina do Kafka — aquelas cartas que ele mandava para uma menina que ele gostava, que era amante dele — era quase a mesma do Flaubert, só que misturada com exercícios pelado. Ele realmente fazia exercícios nu com a janela aberta à noite, tinha essa mania, e mandava cartas dizendo: "Ah, vou tirar isso aqui da min…", quer dizer, ele fazia exercício nu com a janela aberta e depois escrevia das duas às seis da manhã. O Flaubert tinha aquela coisa de ficar horas escrevendo, e o Kafka dormia duas horas e escrevia seis horas direto durante a madrugada.
Então, não sei se ele estava pensando nisso conscientemente. Eu até entendo se chamarem isso de dica de escrita ou técnica — acho que é válido —, mas não sei se ele tinha tempo para pensar direito nisso. Eu acho que ele apenas teve a tanto que, na primeira carta que ele mandou no dia 7 mesmo, ele falou: "Eu comecei a escrever uma história que está me perturbando, mas eu não sei sobre o que é". Ele manda a carta para a menina dizendo que começou a escrever uma história sem saber do que se tratava, mas que estava lhe perturbando e ele precisava escrever. Ele parecia um cara que tinha uma visão muito diferente do mundo, sabia como expressá-la e tinha uma cultura literária muito boa. Duvido que ele tenha usado essa técnica conscientemente, embora eu concorde que funcione. Funciona, só que você não conta para ninguém, você não coloca isso na história. A técnica fica só para o artista, você não conta nunca para ninguém. Talvez o Kafka tenha feito exatamente isso: não contou para ninguém.