Geralmente essas acusações não levam em muita coisa em conta. É como se Aristóteles estivesse preferindo falar de novelas da Globo do que de novelas da Record, por exemplo. Então, a distinção entre o que é verossímil e o que não é seria essa comparação, ainda que as novelas da Record sejam uma porcaria. Mas não é isso que define a verossimilhança; não é o fato de ter magia ou elementos fantásticos. A verossimilhança surge à medida que você convence o leitor do cenário que está construindo, o worldbuilding. É isso que faz com que as coisas sejam críveis.
Para a literatura ficcional, você sempre tem o elemento óbvio da suspensão de descrença. Há várias coisas descritas na poética em que ele leva isso em conta: essa harmonização entre o quanto você vai dosar de profundidade ou de rigor no seu worldbuilding — como o seu universo construído funciona — e como você vai dosar isso com a ideia de suspensão de descrença. É uma harmonia fina que você tem que fazer. Aristóteles não chega a entrar muito nesse assunto, não bate em cima, mas vai comendo pelas beiradas. Você consegue construir uma aula, por exemplo, só sobre isso na Poética.
Na Grécia antiga, os elementos fantásticos não eram exatamente fantásticos para os gregos; eram fatos críveis. A partir de quando? Na época de Aristóteles, já se falava: "Isso aqui é arte, isso aqui é uma metáfora, a gente não acha que o mundo veio desse negócio, não, velho". Na época de Platão e de Sócrates, o teatro já estava em decadência. Na época de Ésquilo, eles já estavam meio assim: "Tem as coisas aqui que são só para mostrar mais ou menos".
A época de Ésquilo já é a secularização, a queda da federação de clãs. Atenas já mudou, já virou a democracia ateniense, que tem um rei e tem a nobreza, além de um papel fundamental da democracia de coordenar a maior parte das coisas. O rei fica mais para a questão bélica, para guerras e problemas como peste, e começa a ter um poder maior sobre a democracia, pelo menos em teoria. A partir do início da democracia grega, os mitos gregos já ficam mais para lá do que para cá; o pessoal pensa: "Ah, tá bom, tem os deuses, eles acreditam nos deuses, enfim, ok". Quando você quer amor, é Vênus; faz sacrifício a Vênus. Quando você quer paz na tua família, faz sacrifício para a moça lá. Quando você quer que seu neném nasça direitinho, faz para Hera, que é a deusa da vida. Quando você quer vencer na guerra, tu faz sacrifício para Ares ou para Atenas. Quando você quer chuva na sua plantação, faz para Zeus. E quando você quer uma pesca muito boa, faz para Posseidon. Era assim: virou um negócio do tipo "preciso disso, o que eu faço? Faço um sacrifício para o seu Deus e consigo o que quero". Mas as origens dos deuses, a maior parte das pessoas não conhecia a lenda inteira de cor.
Imagino que o próprio povo judeu já devia ter algumas desconfianças na época pós-moisés, na época mais próxima do Antigo Testamento. Eles já deviam ter algum cinismo. Os gregos também tinham. É engraçado quando a gente começou a ler os diálogos de Platão — qual foi o primeiro? O *Alcibíades* primeiro, eu acho. É lá que Sócrates é chamado de descendente de Dédalo, porque achavam que os artesãos eram todos descendentes dele.
É difícil saber quanto da mitologia grega era realmente levada a sério como acontecimento histórico, como a história de Dédalo, que construiu um labirinto tão grande que nem ele conseguia sair, e os deuses o trancaram lá. Para fugir, ele usou cera e penas de pássaro para construir duas asas, uma para ele e outra para o filho, e voaram para fora. A moral disso seria ouvir os conselhos dos pais, porque eles têm sabedoria, e não gastar o que veste com prodigalidade. Ícaro recebeu a oportunidade de se libertar, mas o pai avisou: "Não suba até os céus, porque vai queimar tuas asas, nem desça muito para o mar, porque vai umedecer e você vai cair". O que acontece? Ele sobe muito, queima, cai no mar e morre. Os gregos podiam ter usado isso muito bem.
Até Esopo, que criou as fábulas e um gênero literário, colocava animais falantes. Ninguém achava que os animais falavam de verdade; eles pensavam: "Tem uma moral, tem uma historinha para criança, show de bola". As lendas em torno da biografia de Esopo já eram vistas com certo distanciamento.
Apesar de não sabermos o quanto eles criam nessas coisas, ainda havia quem insistisse em lastrear sua própria ancestralidade nelas. Há comentários de Platão falando da mitologia grega como alegorias. Além disso, havia toda uma pegada pedagógica do uso de Homero desde aquela época; a educação aristocrática dos nobres atenienses se encontrava toda nos poemas homéricos, que eram a base, onde tudo começava e terminava, embora houvesse todo um meio de dialogias e teorizações.
Para o povão, eram fundamentais os textos de Hesíodo: a *Teogonia*, *Os Trabalhos e os Dias* e *O Escudo*. Esses textos ensinavam a cuidar do gado e a lidar com a esposa — por exemplo, a não escolher uma esposa que faça muito barraco, porque ela trará vergonha em público e em casa, e as crianças crescerão com o exemplo de um pai fraco diante de uma esposa maluca. Também ensinavam preceitos religiosos e agrícolas: plante assim, porque senão a deusa da primavera Perséfone não vai ajudar. Hesíodo, inclusive, é tido por um autor de uma história do pensamento econômico pré-Adam Smith como um dos primeiros economistas, não autodenominados, mas por falar sobre questões econômicas e a maneira de cuidar da economia doméstica.
De qualquer forma, obrigado pela pergunta, Lisboa. Você é escritor, e vamos fazer uma live com ele nas próximas semanas.