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Por que escitor AMADOR não tem linguagem intencional?

Por que o Escritor Amador Não Tem Linguagem Intencional?

A escolha vocabular na literatura de ficção nunca é um ato neutro ou desprovido de impacto. Para o escritor comprometido com sua obra, cada palavra selecionada integra a construção de uma voz narrativa e a sustentação de um universo fictício coerente. No entanto, um erro recorrente entre autores amadores é a confusão entre erudição e qualidade literária. Na ânsia de causar uma impressão refinada ou de imitar clássicos, muitos recorrem a arcaísmos, hipérbatos ou construções sintáticas truncadas que, em vez de enriquecer a história, erguem um abismo entre o texto e o leitor. A linguagem passa a competir com a própria narrativa, sufocando a história em favor de uma vaidade formal que não se justifica no plano da verossimilhança.

A justificativa comum para o uso de variantes distantes do português contemporâneo costuma ser a tentativa de criar um ambiente único ou retratar épocas e mundos distantes. Contudo, grandes mestres da literatura provam que a imersão do leitor não depende do rebuscamento arbitrário. J.R.R. Tolkien, por exemplo, variou drasticamente o tom de suas obras — da simplicidade infantil de *O Hobbit* ao tom quase bíblico de *O Silmarillion* —, mas sempre o fez utilizando a variante inglesa corrente de sua época e adequando o registro ao propósito de cada texto. Da mesma forma, Ariano Suassuna, em *O Auto da Compadecida*, retratou personagens sertanejos e sem instrução formal sem utilizar uma linguagem deturpada ou repleta de erros intencionais. Suassuna preservou a norma culta do português, mas capturou o espírito e a sonoridade da linguagem popular por meio do cenário, da sintaxe e do contexto. A autenticidade veio da construção narrativa, e não de truques ortográficos ou lexicais.

Quando o uso de arcaísmos ou registros atípicos é defendido sob o pretexto de romper convenções, frequentemente incorre-se em anacronismos e leituras equivocadas de autores consagrados. O uso da segunda pessoa nos primeiros contos de Clarice Lispector, por exemplo, por vezes é citado de forma ingênua como uma suposta transgressão estilística deliberada para retratar o Brasil. Ocorre que Clarice escreveu tais textos na década de 1940, sob forte influência do modernismo português e de autores como Eça de Queiroz. Naquele momento, tal escolha não buscava afastar o leitor ou criar um mundo exótico, mas sim responder às convenções e influências intelectuais de sua própria formação — tanto que, ao amadurecer sua voz, a autora abandonou esses recursos formais. Usar a fase inicial de um grande nome para chancelar escolhas arbitrárias no presente revela a falta de percepção sobre o que é intencionalidade estilística e o que é simples mimetismo de época.

Essa dependência de um verniz arcaizante é o que a ensaísta e escritora Úrsula K. Le Guin denominou de "linguagem de fantasia de segunda mão". Trata-se de uma estratégia em que o autor substitui o trabalho real de caracterização por floreios medievais superficiais, tentando mascarar lacunas na construção de mundo ou na voz dos personagens. Como analisa Wayne C. Booth em sua teoria sobre a ficção, a relação entre o leitor e o narrador funda-se em um pacto de confiança estabelecido pela coerência interna do texto. Quando o escritor altera o tom ou introduz variantes linguísticas sem um propósito narrativo sólido, acreditando que a mera dosagem de palavras difíceis trará sofisticação, ele quebra a expectativa do leitor e compromete a verossimilhança da obra.

O resultado final de uma escrita guiada pela afetação não é a criação de uma atmosfera rica, mas o surgimento de um narrador não confiável involuntário. Ao contrário do recurso deliberado em que o autor constrói a não confiabilidade como peça articulada da trama, aqui a desconexão ocorre por imperícia. Uma linguagem que o leitor associe à afetação do autor ou a uma artificialidade gratuita posiciona o narrador e a narrativa como não confiáveis — não por uma intenção artística, mas pela incapacidade do escritor em dominar os efeitos de suas próprias escolhas. A verdadeira maturidade literária, portanto, reside em reconhecer que a linguagem deve servir à história, mantendo a coerência que aproxima o leitor do universo ficcional, em vez de aprisioná-lo em malabarismos formais estéreis.