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Victor Hugo – Crítica Social e Pena de Morte

Victor Hugo: Crítica Social e a Pena de Morte

A discussão explora a crítica social presente na obra de Victor Hugo, com foco especial na pena de morte e nas condições que levam os marginalizados ao crime, utilizando como base a novela *O Último Dia de um Condenado*.

Sabia que esta história acontece, mano? Se você levar em conta que o Victor Hugo bebe na fonte do Beccaria para escrever, é um pouco difícil para ele, porque o Beccaria desce o sarrafo na igreja. Sim, mas aí que está, velho. O que eu digo é que o Vítor é um grande escritor; ele nunca vai sacrificar o que ele acha que é verdade e o que ele acha que é belo na arte por favoritismo, mesmo na política. O Victor Hugo era socialista, mas ele não deixou de criticar socialistas, tanto moderados quanto radicais.

Isso é uma parada — só um *disclaimer* aqui. Uma coisa que eu acho interessante, e partindo do Victor Hugo, mas indo para mais gente, né? Vocês já perceberam que as melhores críticas, eu não sei você, mas as melhores críticas que eu já encontrei a um grupo vêm desse grupo mesmo? Eu nunca vi melhor crítica a judeu do que no Primeiro Testamento. Nunca vi, velho! Eu nunca vi melhor crítica a cristão do que as cartas, acho que as cartas de Paulo, né? Eu nunca vi. A melhor crítica que eu li aos protestantes foi do Herman Bavinck, que era protestante. Sim, as melhores críticas que eu já vi contra católicos vêm de católicos — embora também de protestantes, mas eu já vi de católicos, de muitos poetas católicos.

O primeiro livro que eu li na vida, não sei se vocês sabem, foi o *Manifesto Comunista*. Foi o primeiro que eu li do início ao fim; antes disso eu não tinha lido nada do início ao fim. E eu fiquei surpreso, eu falei: "Cara, o livro inteiro ele batendo em comunista". Eu pensei: "Como assim, velho?". Porque ele passa a maior parte do tempo do livro batendo nos comunistas, dizendo: "Não, eles não são comunistas de verdade, nós somos", saca? E aí eu achei inacreditável, cara. Eu falei: "Caraca, velho", e eu lembro que eu usei isso por muito tempo contra comunista. Eu usava as críticas do Marx contra comunistas. Usei por muito tempo, saca? Foi muito bom isso aí. Só um cremarca que eu quis, que eu lembrei agora, falei: "Caraca, velho, pensando bem, né? Vamos voltar lá pro começo onde a gente estava".

Tem uma personagem curiosa que aparece rapidinho lá, quando ele está sendo transferido, que é uma velha que fala: "Eu gosto mais de ver isso do que os forçados". Você lembra? Ela fala assim, quando ele está sendo transferido e ela sabe que ele é um condenado. Ele passa e ela fala: "Ah, eu gosto mais de ver isso do que os forçados". Gosto de ver condenação, de ver execução. É uma execução, e ela prefere a execução aos forçados.

Mas isso é durante a execução dele. O padre ele encontra muito antes do dia de ser executado. Eu sei, mas é porque aparecem o meirinho e outras coisas. Tem os três encontros, tem o padre. Mas essa parte que você falou é antes; a parte do padre é bem depois. Quer dizer, ele foi assistir o pessoal morrer, mas não era a morte dele; ele foi assistir o pessoal ser enforcado, mas não era ele. Sim, ele foi assistir também porque era um evento. Como todo mundo, os presos e as pessoas iam ver a condenação, o julgamento de alguém que ia ser executado. E aí tem essa velha que fala: "Ah, eu prefiro isso".

Verdade. Aí logo depois tem as crianças que ficam subindo ali querendo ver, tem o pessoal que vai pegar a vista, tem um cara paquerando uma mulher casada que está atrás dele. Pô, é realmente um evento de família, virou um espetáculo. Aí aparece na cena o outro condenado, que você tinha citado antes. Ele tem aquele jeito de falar só com gíria, a gíria do argot mesmo. E eu achei legal que ele chama a guilhotina de "monte da saudade". Ele diz: "Quando a minha Sorbonne daqui a pouco vai fazer companhia para a tua troncha". É muito bom! E ele chama o padre de corvo, de abutre, que fica dando círculos em volta. Em francês acho que é abutre mesmo, e abutre ia ficar mais legal, porque ele fica ali comendo carniça.

Esse cara tem uma história terrível. Ele era um forçado, cumpriu a sentença dele e foi pra rua, só que ele tem uma vida péssima, não consegue fazer as coisas e vira um malandro. Calma aí, vamos dar alguns detalhes importantes aqui. Esse cara passou 15 anos como forçado porque teve um problema na família, ficou órfão e aprendeu pequenininho a roubar para viver. Ele não virou ladrão porque quis, mas porque era isso ou morrer de fome. Lá pelos seus 20 e poucos anos, ele é preso, vira um forçado, vai para a galera remando, p da vida.

Ele cumpre 15 anos, sai e é liberado, mas tem que ir a cada oito dias prestar contas e falar que está em tal cidade. Ele só pode ficar em locais específicos, há cidades para as quais ele não pode ir, e tem que usar uma faixa no ombro para sinalizar que é um ex-forçado, ex-presidiário, ex-galeriano. Essa faixa no ombro impede que ele seja contratado em qualquer lugar — não por lei, mas porque ninguém quer contratar um ex-presidiário. Ele diz que deram a ele 70 francos, que na época davam para viver alguns meses. Ele viveu quase um ano com aquilo, economizando muito, alugando alguma coisa e comendo, mas o dinheiro acaba, né?

E aí ele não conseguia emprego e foi pro crime. Depois ele descobriu a polícia corrupta, foi pego por policiais e virou matador de aluguel. Era isso ou ser preso e executado; os policiais chantageavam dizendo que iam pagar para ele matar ou iam prendê-lo. E ele aceitou, dizendo: "Eu nem me arrependo disso, porque ou eu mato os outros ou eu morro". Literalmente a escolha dele era essa: matar ou morrer.

Até que um dia ele foi pego por outros policiais e jogado na cela, dizendo que daqui a seis semanas a Sorbonne dele faria companhia para a troncha. E o que ele faz com o protagonista, com o narrador? Ele fala do casaco… Deixa eu falar uma coisa antes: parece que só tem gente boa entre os condenados à morte, né? O Victor Hugo realmente quer mostrar um argumento mais teórico contra a pena de morte, sem fazer uma parada piegas ou puramente sentimental. É por isso que ele só mostra figuras "gente fina", como esse cara que tem uma hora em que diz: "Ter roubado um lenço ou matado um homem era para mim a mesma coisa, porque senão eu não comia, senão me matavam. Não era questão de comer, era matar para sobreviver, porque iam me condenar de qualquer jeito se eu não fizesse aquilo". Ele estava realmente sem saída.