A verossimilhança nas obras de ficção divide-se, basicamente, em duas frentes: a coerência com o mundo real e a coerência com o próprio mundo ficcional.
Quando você coloca uma personagem feminina em um filme e ela, sem nenhum poder especial, tecnologia ou vantagem técnica — entendendo "técnica" como qualquer recurso, seja magia ou tecnologia —, consegue derrotar um homem na porrada, você corta a verossimilhança com o mundo real. Não é porque o filme tem magia, mas justamente porque não tem; como não há nada disso para justificar o feito, a conexão com a realidade é rompida. Isso não significa necessariamente que o filme seja ruim, pois há obras excelentes assim, mas a semelhança com o Real foi embora naquele aspecto específico.
Por outro lado, quando a história estabelece regras ou relações estritas que funcionam de maneira rígida, cujos limites não se flexionam — permitindo no máximo encontrar brechas, mas sem alterar a rigidez fundamental dessas fronteiras —, temos uma coerência ficcional, que também é uma forma de verossimilhança. Naturalmente, existem obras que apresentam uma coerência gigantesca tanto no espaço ficcional quanto no real. Um exemplo muito bom e recente disso está em *Mad Max: Furiosa*. No início do filme, a Magnífica está fugindo com a Furiosa de moto da gangue do Dementus. Ela percebe que as duas não vão conseguir escapar a tempo, até porque a moto dos perseguidores é incrivelmente rápida e dura o filme inteiro intacta.
A Magnífica manda a Furiosa acelerar rumo ao vale e fica para trás com um rifle e muita munição, posicionando-se em um rochedo com uma fissura estreita para ter vantagem estratégica. Ela vai atirando e surpreendendo os inimigos com golpes rápidos e brutais em pontos fracos — como uma pancada forte de rifle no pescoço —, mostrando que, mesmo que o oponente seja homem e mais forte, um ataque surpresa desse tipo causa dano real. No entanto, como ela precisa recarregar a arma manualmente, o tempo não é suficiente para deter todos. Eles a cercam, dão um golpe na coxa dela, ela cai e é capturada. É uma cena coerente tanto com a nossa realidade quanto com a lógica daquele universo.
Em contraste, pense na Viúva Negra em um corredor, correndo e derrotando vários capangas. Você fica com a impressão de que ela tem uma perna de aço, pois aplica chutes potentes em braços de homens gigantes e continua em pé sem problemas, o que quebra a imersão. Já em *Vingadores: Ultimato*, a luta dela com o Gavião Arqueiro pela Pedra da Alma funciona muito bem. Ela tenta lutar, mas ele tem muito mais força física, densidade muscular, velocidade e resistência. Ela só consegue equilibrar a disputa porque recorre a um Taser e a vários apetrechos; mesmo assim, é jogada para longe e precisa usar o equipamento repetidamente porque ele é fisicamente superior. É uma cena muito mais coerente com o mundo real.
A verossimilhança também aparece em sistemas mágicos e regras de universo. Em *Piratas do Caribe: No Fim do Mundo*, por exemplo, a tripulação precisa fazer um ritual para virar o barco de cabeça para baixo no pôr do sol e atravessar para o Limbo. Quando retornam, ficam debaixo d'água e se molham inteiros. Mais adiante, ao apontarem armas uns para os outros para negociar, alguém puxa o gatilho e sai apenas um jato de água, porque a pólvora molhou. Não é um elemento mágico em si, mas é uma demonstração primorosa de coerência com o mundo real aplicada a um contexto fantástico.
Outro excelente exemplo de coerência ficcional rígida pode ser encontrado em *Code Geass*. O protagonista, Lelouch, ganha o poder de dar uma ordem absoluta a uma pessoa, olhando-a nos olhos, mas apenas uma vez por indivíduo. No meio do anime, durante uma tentativa de paz entre japoneses e britânicos, ele está conversando descontraidamente com a princesa Euphemia e, de brincadeira e sem a máscara, dá a ela uma ordem em tom de comando: "matar todos os japoneses". Imediatamente o olho dela brilha e ela aceita a ordem.
Nesse momento, entra em jogo tanto a coerência ficcional quanto a factual. Desde o início, o anime estabelece que Lelouch é um rapaz franzino, mais baixo, ruim em esportes e com péssimo condicionamento físico, enquanto Euphemia é mais alta, tem pernas mais longas e boa forma física. Quando ela sai correndo para cumprir a ordem e ele vai atrás desesperado para detê-la, ele rapidamente perde o ar, o coração dispara e ele não consegue acompanhá-la. Ela chega ao local e inicia um massacre com os soldados. É uma situação perfeitamente coerente: as regras do poder funcionam de forma estrita, e as características físicas dos personagens — construídas desde o início — pesam de maneira realista nas consequências da cena.
A verossimilhança, portanto, manifesta-se dessas duas maneiras principais: na conexão com a realidade factual ou na rigidez da coerência ficcional, muitas vezes funcionando como uma mistura de ambas. É um conceito essencial que sustenta a credibilidade de uma narrativa crítica, seja ela realista ou fantástica.