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Shakespeare e a Redenção em Verona

Shakespeare e a Redenção em Verona: Análise Literária

A análise da tragédia de Shakespeare revela paralelos profundos entre a dinâmica familiar de *Romeu e Julieta* e conceitos teológicos de transformação e redenção através da morte.

É uma carne pura, como a de Adão e Eva, mas melhor. Como o Lucas explicou, Adão e Eva podiam não pecar, enquanto nós não podemos deixar de pecar, e os corpos novos nem sequer podem pecar. É tipo um super Adão e Eva; você nem consegue mais pecar. O que estou fazendo aqui é um paralelo apenas para tentar ilustrar, não estou dizendo que é análogo, mas justamente que da morte surge algo, a morte vira vida, e é uma vida permanente. Porque esses novos corpos que Yahweh vai dar são corpos que vão durar, que não serão jamais corrompidos pelo pecado, corpos imunes ao pecado.

Algo parecido — não exatamente nesse nível sobrenatural, mas algo parecido — ocorre com os Capuletos e os Montéquios, porque agora eles estão unidos para sempre, duradouramente. É uma peça que contém tanto uma tragédia quanto uma comédia, no sentido de que ela termina bem — comédia no sentido do Dante, da *Divina Comédia*, em que a comédia termina bem. Por quê? Porque é como se houvesse duas peças acontecendo ali. Lembra que no início não tem nem o Romeu nem a Julieta? Depois aparece o Romeu, em seguida aparece a Julieta, e fica Romeu, Julieta, Romeu, Julieta, até que morre Romeu e Julieta. E aí as últimas cenas voltam a ser Montéquio e Capuleto. Ou seja, começa com Montéquio e Capuleto, vira Romeu e Julieta durante todo o tempo, e depois volta a ser Montéquio e Capuleto.

Aí é que está: a peça dos Montéquios e Capuletos termina bem. Claro, há um luto, eles perderam, pois a última filha dos Capuletos e o último filho dos Montéquios morreram. Só que o restante dos Capuletos vai viver em paz dali para frente, vai honrar os dois filhos um do outro e viver em paz direto. É semelhante — não é análogo, mas é semelhante — a essa parada aí. Isso eu peguei para ilustrar a partir da Bíblia, o fato de que da morte surgiu vida, inacreditavelmente.

Isso é justamente o que o frade fala na primeira cena em que ele aparece, no ato 3, cena 1: a natureza tem meios estranhos de agir, pega coisas que eram para ser vícios e faz delas virtudes, e pega virtudes e faz delas vícios. A natureza resolve as coisas com meios grotescos e faz coisas bonitas a partir da perdição de outras. Como que os céus e a natureza conseguiram resolver uma briga em todas as famílias matando, através do suicídio, os filhos de cada uma? Se a natureza for de fato uma força desse cosmo shakespeareano — se levarmos as crenças dos personagens como algo real e diegético, que compõe a realidade daquele mundo ficcional —, podemos dizer que a natureza resolveu aquilo ali. Os céus, através da natureza, ou a natureza obedecendo aos desígnios dos céus, resolveram o que estava acontecendo. Resolveram de uma maneira terrível e trágica, mas conseguiram produzir de uma tragédia uma comédia.

"Olhe para o coração, porque a paixão é uma infecção temporária. Olhem que o casamento é para sempre, até que a morte os liberte ou separe." Ou seja, *Romeu e Julieta* fala da ordem, como muita coisa em Shakespeare, mas não é porque fala da ordem que ela seja sobre isso. Na verdade, *Romeu e Julieta* nem sequer fala da ordem política. A peça não fala da ordem política; ela *figura* a ordem política. A ordem política é: tem um príncipe chamado Príncipe, que é o cara que manda nessa cidade. É isso. O máximo de explicação é essa. Tem esse cara que manda na cidade, ninguém está desafiando ele, e ele não se sente desafiado por ninguém. Esse é o máximo da ordem política que você tem em *Romeu e Julieta*.

Em outras obras de Shakespeare, você vai ver a ordem política tratada a fundo: em *Macbeth*, em *Ricardo II*, em *Henrique IV* (partes 1 e 2), em *Henrique V*, em *Rei Lear*, em uma pancada de peças. Mas você não vai ter isso em *Romeu e Julieta*.

Terminamos aqui a discussão principal. O conteúdo da live acabou, e o que teremos agora é um extra. Preciso realmente de vocês para decidirmos os próximos livros das próximas semanas. No próximo sábado, no sábado seguinte e no último sábado do mês, faremos um *react* que eu e o Lucas vamos decidir, mas está bem próximo de ser a *Divina Comédia*, realmente bem próximo disso.