Menu fechado

ODISSEIA: O que Odisseu encontrou no Inferno?

Odisseia: O que Odisseu encontrou no Inferno?

Neste trecho de análise da Odisseia de Homero, discutimos o episódio em que o herói Odisseu desce ao submundo (Hades) para consultar o adivinho Tirésias em busca de orientação para sua jornada. A descida aos mortos revela camadas profundas sobre a condição humana, encontros marcantes com figuras do passado e curiosidades mitológicas sobre os deuses e os arquétipos clássicos.

A orientação dada por Circe para que Odisseu desça ao Hades e se consulte com o adivinho Tirésias — um personagem já falecido — serve como a única resolução possível para que ele possa seguir sua jornada. Essa descida ao submundo substitui, de certa forma, o simbolismo excessivo presente em toda a mitologia e, principalmente, no arquétipo do herói, que envolve a morte e a ressurreição do personagem. No entanto, há aqui um simbolismo próprio: a necessidade de ir ao pior dos lugares, o mundo dos mortos, para falar com quem já partiu e, assim, encontrar a sabedoria dos mortos para continuar a caminhar.

O submundo, ainda que seja um espaço de escuridão, morte e tormento — este último com uma relação um pouco mais próxima da visão cristã do inferno —, é exatamente o local onde Ulisses encontra a sabedoria de que precisa. Há uma grande complexidade nesse trecho, até porque não é apenas com Tirésias que ele fala. No Hades, Ulisses encontra pessoas importantes, como Aquiles, Agamemnon (que ele não sabia ter morrido) e a própria mãe (cuja morte ele também desconhecia). Cada um desses encontros gera conversas fascinantes e *insights* sobre a condição humana, abordando temas como honra, fama e a natureza efêmera da vida — discussões que mais tarde influenciaram vários autores, como Sêneca.

Outro ponto central é o próprio Tirésias, um adivinho cego. Vale notar que uma das possíveis origens etimológicas para o nome Homero é justamente "cego", o que sugere que Tirésias possa ser uma espécie de alter ego do próprio autor, embora seja um detalhe intrigante que convida a um aprofundamento maior.

Além disso, refletindo sobre outros momentos da obra, a relação de Odisseu com Calipso não se resume a uma paixão avassaladora por ela. Calipso é uma deusa lindíssima — e é exatamente daí que surge a expressão de que uma mulher é "uma deusa", pois ela possui uma beleza absurda. Odisseu reconhece isso e a bajula para não irritá-la, já que ela é uma divindade e a mortal Penélope não se compara em termos de beleza. Contudo, assim que sai da gruta e fica na areia, ele passa o tempo todo chorando, olhando para o mar e suspirando por casa.

As deusas na mitologia são invariavelmente retratadas como belíssimas. Tanto é que, quando surge um deus fisicamente fora dos padrões, isso precisa ser explicitamente mencionado, como no caso de Hefesto. Na Ilíada, um dos epítetos de Hefesto é justamente o deus feio, ou aquele que manca. A feiura de Hefesto é uma marca incomum entre os deuses olímpicos, que se distinguem justamente pela perfeição estética.