Quando ele vai lá para a assembleia e convoca o povo para falar o que está acontecendo, ele se joga no chão e chora. Ele não sabe como se comportar direito e eles ficam com dó dele, mas é uma dó meio constrangedor. Tanto é que logo logo um homem se opõe a ele, porque aquilo ali é um papelão de criança, ele não sabe como se comportar e é completamente imaturo. Então, ele está nessa jornada de amadurecimento que ele não sabe nem como funciona. Ele meio que já não tem mais esperança, mas daqui a pouco diz que queria que o pai dele estivesse vivo e, no primeiro indício de que isso é verdade — que é Atena falando ali disfarçada para ele —, ele já vai atrás dela. Então é assim que começa. A gente vê que o tema da identidade é bem importante logo de cara por causa de Telêmaco, desse drama dele. Mas, em vários momentos da história, vamos ver que o autor está brincando com esse negócio da identidade, principalmente com a de Odisseu. Porque, se com Telêmaco isso é muito mais dramático, com Odisseu as coisas são bem mais curiosas e criativas.
A identidade dele entra na brincadeira nas grandes aventuras. Só para vocês terem uma ideia, ele chega na terra dos lotófagos. O que é um lotófago? Eles inventaram essa palavra só para isso, pelo jeito. É uma galera que comia uma planta, uma flor de lótus. Mas o símbolo aqui não é o mesmo dos japoneses, é outra parada, não tem nada a ver, não dá para fazer intertexto aqui nem tentar descobrir a simbologia com base nisso. Essa aqui era uma planta que funcionava basicamente assim: o cara comia, começava a ficar viciado naquilo, esquecia as outras coisas, esquecia quem ele era, não se importava mais com nada e queria ficar só ali comendo a lótus até morrer. Ele chega na terra dos lotófagos, que é essa galera jogada lá, como se fossem pessoas viciadas em craque. E a droguinha é um tema recorrente aqui. Vou ver se lembro depois, mais para frente, de outras droguinhas que aparecem.
O que é importante aqui com relação à identidade? É que, quando Ulisses e toda a sua galera chegam nessa terra, alguns homens começam a comer o lótus e você não consegue pegá-los e obrigá-los a voltar. Eles ficam viciados, perdem a memória e perdem completamente a identidade. Então, muitas vezes, o perigo ao qual Ulisses é exposto vai brincar com a identidade dele, com a memória dele, com quem ele é, com ele esquecendo o passado e tendo a jornada interrompida. A jornada para o herói é muito importante nos mitos, e Odisseu sabe disso; ele tem que completar a sua jornada.
Outro exemplo é na Circe. O que acontece lá na Circe? Ela é uma semideusa, uma ninfa — não, ela é uma deusa, uma deusa (a ninfa é uma deusa) — e ela mexe com magia. Eu ainda não entendi direito a relação dos deuses gregos com a magia, é um assunto que estou estudando devagarinho, porque não é tão fácil como parece. Não são todos os deuses que fazem magia, é quase nenhum deles. E a Circe faz magia, o que é diferente. Os poderes são quase iguais, mas aqui é com magia. Com a Circe, é o seguinte: quando os homens chegam lá, ela dá um negócio para eles comerem, encosta uma vara na cabeça deles e eles viram porcos. A mente deles continua funcionando, mas não conseguem mais se comunicar nem fazer mais nada; viram o gado dela, os porcos dela. Isso quase acontece com Odisseu, que quase perde a identidade de novo, não fosse Hermes que aparece ali.
A Circe é mais um desafio que coloca em risco a memória de Odisseu — ou a memória das outras pessoas com relação a ele —, porque ele ia virar um porco, a jornada dele ia ser interrompida de novo e a identidade dele ia colapsar outra vez.
Outra coisa acontece com Calipso, uma ninfa, uma deusa ainda mais poderosa, onde ele fica preso. Ela é outra que se apaixona por ele; a Circe se apaixona, mas a Calipso fica muito apaixonada e o aprisiona de certa forma. Ele começa a esquecer, e ela tenta de todo jeito fazê-lo abandonar quem ele é, ou seja, abandonar a identidade dele, inclusive a troco de transformá-lo em um imortal. Olha só que coisa. E ele não quer isso, ele tem uma força de vontade muito doida que vou trabalhar mais para frente. Essa recusa da imortalidade mostra que ele não quer ficar lá; todos os dias ele vai para a praia e chora para caramba porque está com saudade de casa. Então, ele não quer ser um imortal, ele quer ser o Ulisses dos mil ardis. Curiosamente, ele não consegue encontrar nenhum ardil ali para enganar a Calipso, mas é mais um perigo ao qual ele foi exposto e que coloca a identidade dele em risco.