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A Dicotomia entre o Rótulo Romântico e o Realismo Psicológico na Estrutura de Personagens Tolstoiana

O Ivan Ilitch da Raquel Toledo - Parte 2 • Panda

A leitura de A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, frequentemente evoca reflexões profundas sobre a fragilidade humana e a artificialidade das convenções sociais. Ao examinar a trajetória do protagonista, é inevitável deparar-se com a figura de Guérassim, o camponês que contrasta fortemente com o círculo burguês e estéril que cerca o juiz moribundo. Guérassim personifica a simplicidade e a conexão genuína com a vida, aceitando a morte e a degradação física de Ivan Ilitch sem o horror egoísta ou a falsa polidez que caracterizam os colegas e parentes da alta sociedade russa. Contudo, uma análise rigorosa do texto tolstoiano exige que se evite romantizar o campesinato russo como um todo, separando a idealização literária da densa realidade retratada pelo autor.

A figura do mujique — o camponês russo tradicional —, embora revestida por Tolstói de uma sabedoria prática e de uma pureza de sentimentos que remetem a uma pureza primordial, não representa a totalidade do mundo rural na obra. A própria narrativa apresenta outros servos e camponeses que desempenham funções na casa de Ivan Ilitch, como o criado Piotr, que realizam suas tarefas de má vontade e compartilham da mesma dissimulação e insensibilidade encontradas na classe burguesa. Reduzir o campesinato a um bloco monolítico de virtude pura é ignorar o realismo complexo de Tolstói, que não constrói contos de fadas pastorais, mas sim um painel multifacetado onde a maldade, a falsidade e a indiferença infiltram-se em todas as camadas sociais.

Essa sabedoria de Guérassim e a própria dinâmica de compaixão que surge no leito de morte não brotam de um vácuo espontâneo da natureza campestre, mas encontram raízes profundas na ética cristã. Os preceitos de amor ao próximo e de solidariedade diante do sofrimento alheio, expressos de forma simples pelo servo, dialogam diretamente com a moralidade dos Evangelhos. Tolstói, profundamente marcado por sua crise espiritual e por sua releitura dos ensinamentos de Cristo, infiltra essa cosmovisão em suas criações literárias. O que parece ser apenas o resultado de uma sabedoria popular instintiva carrega, na verdade, o peso de uma tradição espiritual milenar que contrasta violentamente com o vazio existencial do mundo moderno e burocrático.

A crítica tecida na novela atinge o ápice ao expor a solidão no círculo mais íntimo. A tragédia de Ivan Ilitch não reside apenas no fato de estar morrendo, mas em perceber que aqueles que o rodeiam — esposa, filha, amigos de escritório — são incapazes de estabelecer um vínculo emocional verdadeiro. As relações são mediadas pela conveniência, pelo medo do escândalo e pela rigidez de uma etiqueta social que silencia o afeto genuíno. Mesmo quando há dor ou relances de comiseração, estes são sufocados por um desejo implacável de manter as aparências. O sofrimento do protagonista torna-se um incômodo a ser administrado, uma interrupção incoveniente no fluxo da vida burguesa que prefere fingir que a morte não existe.

Por fim, a transfiguração final de Ivan Ilitch, que culmina na eliminação do medo da morte e na percepção da luz, encerra a obra com uma ambivalência fascinante. Se por um lado a cena pode ser lida sob a chave estritamente mística e cristã da salvação e da rendição espiritual, por outro, ela dialoga com as reações físicas extremas do corpo em colapso, onde a dilatação das pupilas e o alívio da dor crônica criam uma ilusão de clareza e paz. Tolstói, no entanto, recusa-se a entregar respostas fáceis, mantendo a tensão entre a dura realidade biológica da extinção e a necessidade desesperada de sentido metafísico. A grande literatura, afinal, não oferece consolos fáceis, mas obriga o leitor a encarar o abismo da própria existência sem os filtros da hipocrisia cotidiana.

📚 A Dicotomia entre o Realismo e o Idílio Campesino na Estrutura Moral de Tolstói