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In Media Res – ONDE COMEÇAR SUA HISTÓRIA? ••• Feat. Lisbôa

In Media Res: Como Começar Sua História no Meio da Ação

Escolher onde e como iniciar uma história é uma das decisões mais cruciais para prender a atenção do leitor, variando desde introduções expositivas tradicionais até aberturas abruptas no meio da ação. A conversa a seguir explora as nuances dessas diferentes abordagens narrativas, contrapondo o clássico *in media res* a estruturas mais lineares e medievais.

Entendido uma coisa que eu queria comentar e que tinha acabado esquecendo, lembrei agora do nada: eu entendi que começar no meio da ação, o *in media res* clássico como usamos normalmente, começa no meio do drama. Mas esse outro que mencionamos começou no meio do suspense, e isso é radicalmente diferente. Uma coisa é começar com o personagem dizendo, por exemplo: "Ah, mas eu tenho que ir embora porque estou apaixonado". Pronto, você já sabe tudo o que está acontecendo logo na primeira estrofe; você já sabe qual é a peça, qual é a parada. É como em Romeu e Julieta, quando entram os criados dizendo que os Capuletos são um bando de vagabundos e que vão acabar com eles. Os caras entram assim e pronto, você já sabe o que é, não há nada oculto para descobrir.

Agora, quando você começa no meio do suspense, é diferente — talvez *in media res* seja um termo que funcione, mas seria uma versão nova, talvez moderna. Não sei se "moderna" é a melhor palavra, pois pode ser que antes já houvesse algo assim, mas vamos colocar aqui como um clássico moderno. É começar no meio do suspense para instigar o público: você não sabe o que está acontecendo, e eu vou te mostrar aos poucos. Eu prefiro pontuar essa diferença para que as pessoas não achem que qualquer história serve. Quase toda história é assim? Bem, há muitas histórias que começam na página um de forma bem linear, tipo: "E aí Frederico pegou o seu balde e levou para casa", e pronto. É todo um idílio bonitinho até que chega alguém, destrói tudo, mata a família dele, e aí ele vai querer se vingar ou ter que matar o cara que quer dominar o mundo.

Enfim, há algumas histórias da tradição medieval que começam assim porque tentam imitar a maneira como funcionam os livros bíblicos, que começam bem no começo mesmo, como o Gênesis. Eles gostam de começar no comecinho, não vou dizer que todos fazem isso, mas muitos livros bíblicos começam ali, bem onde as coisas estão acontecendo, no nascimento do personagem ou algo assim.

Mas essa recuperação moderna de começar no meio do suspense é diferente do que os antigos, os gregos e romanos, faziam. Até onde consigo pensar aqui, acho que é algo meio moderno mesmo. Se formamos parar para pensar pelo menos no pai do suspense, Edgar Allan Poe, ele era meio tradicional nessas coisas. As obras dele envolvem mais a apresentação do personagem para depois ter o clímax e tal. Poe gostava mesmo de contar as coisas do início ao fim — não do início do universo, claro —, mas ele começava apresentando: "Ah, tinha o tal do príncipe Próspero e estava havendo uma peste. O que ele fez? Deu uma festa e deixou todas as pessoas que estavam doentes de fora". Começa bem no iniciozinho da situação.

Mas isso é assunto para uma análise que podemos usar num vídeo futuro; vale apenas comentar que esse caso do Poe não é necessariamente porque ele era tradicional, mas porque o gênero dele exige construção. Não é fácil plantar as coisas de qualquer jeito. Quando você lê aquelas dicas de escrita que ele dá sobre o conto O Corvo, percebe a tensão que ele quer criar, o ambiente, o tom… essas coisas precisam ser construídas devagarinho. Se você não conseguir colocar isso dentro da cabeça de quem está lendo, não vai alcançar o efeito desejado.

Por isso digo que é um negócio um pouco mais moderno, porque até mesmo um autor que não é tão contemporâneo ainda vinha de uma vertente anterior. No sentido histórico, não há nada mais moderno do que os românticos. Edgar Allan Poe pertence ao romantismo da cabeça, o romantismo intelectual. E, mesmo sendo moderno, ele ainda recai em estruturas mais tradicionais, à moda medieval.

É interessante notar — saindo um pouquinho do assunto do conto, mas sem problema — que os românticos trouxeram muito da tradição medieval de volta. Temos, por exemplo, Victor Hugo em Os Miseráveis, aquele livro gigantesco (embora existam versões menores, o original é enorme, com umas 1500 páginas). Eu li os primeiros dez capítulos e ele começa bem do comecinho mesmo. Cada personagem principal que ele vai apresentar ganha uma introdução própria no início; ele vai contando a história de cada um até certo ponto. Depois passa para outro personagem e faz a mesma coisa, conta bastante, vai para outro e repete o processo. Só mais para frente, quando tudo já está bem plantado, é que ele começa a desenvolver, a deixar as coisas florescerem e a cortar os galhos e as flores que precisam morrer na história.

Essa estrutura que mencionei, típica da tradição medieval, foi recuperada pelos românticos. Temos Edgar Allan Poe, Victor Hugo e outros que retomam essas histórias que começam pelo começo, por onde normalmente na Idade Média elas começariam.