Neste segundo vídeo do projeto de leitura conjunta dos clássicos, o canal Universo Antares prossegue com a análise da obra épica de Homero, focando agora nos desdobramentos estratégicos e políticos que movimentam o início do conflito em Troia. A continuação examina os planos divinos de Zeus, a audaciosa tática de Agamenon para testar o moral de suas tropas e a famosa e detalhada contagem dos exércitos gregos e troianos.
No final do primeiro canto da *Ilíada*, Zeus ficou em cima do muro sobre o pedido de Tétis para favorecer Aquiles, mas agora, no canto dois, ele está super inquieto e ansioso pensando no que pode fazer para ajudar Aquiles e prejudicar os aqueus, os gregos que estão sob o comando de Agamenon. Vale lembrar que a *Ilíada* é sobre Ílion, que é um dos nomes de fundação da cidade de Troia — por isso o nome *Ilíada*, um livro sobre a guerra de Troia, embora gire em torno da ira e da cólera de Aquiles. Para resolver o problema de como prejudicar os gregos, Zeus resolve enviar um sonho enganoso a Agamenon. O narrador descreve o sonho como uma espécie de ser, um demônio, que vai até Agamenon e diz que, se ele for atacar os troianos naquele exato momento, vai dar tudo certo.
Agamenon acorda cheio de si, com ganância nos olhos, convoca o conselho e diz que quer fazer um teste. Ele conta o sonho aos comandantes e sábios, afirmando estar muito confiante, mas que deseja testar o ânimo e a índole do exército. Isso fica mais claro nos discursos que fazem à medida que o texto avança. O texto cita uma grande ferramenta histórica e mitológica que está com Agamenon: um cetro que pertencia muito anteriormente a Zeus. Esse cetro foi feito por alguém, entregue a Zeus, que o passou para outro, e assim por diante, até chegar à mão de Agamenon. Essa ferramenta é importante pelo simbolismo da governança; pertencer a Zeus traça uma linhagem de reis não pela genealogia exata, mas por essa autorização divina, o que confere a Agamenon um poder político e bélico maior do que o de todos os outros. Outra ferramenta que apareceu anteriormente e retorna aqui é a égide de Zeus, um grande escudo usado para enfrentar os titãs, que trazia o rosto da Medusa.
A ideia de Agamenon é fazer um discurso alarmante e desmotivador para o povo, dizendo o oposto do que o sonho indicou. Ele mente, afirmando que Zeus o fez sonhar com a derrota deles e mandou que fossem embora para não serem destruídos. Ele usa desculpas convincentes, dizendo que os barcos estão ferrados, que as famílias devem estar com saudades e que já saquearam bastante coisa, sendo melhor voltar do que arriscar tudo, já que Zeus não estaria com eles. Na verdade, Zeus não estava mesmo com ele, mas havia mandado o sonho dizendo o contrário para ver o que daria, combinando isso com os conselheiros para que depois tentassem reanimar o povo. O problema é que a deusa Hera fica sabendo desse discurso e, lembrando que estava do lado tanto de Aquiles quanto de Agamenon, intervém mandando Atena falar com Odisseu para tentar fazê-los mudar de ideia.
Enquanto isso, a tropa realmente se desanima com o discurso de Agamenon. É aí que surge Tersites, um cara maluco de quem ninguém gosta, odiado tanto por Agamenon quanto por Aquiles. Ele não tem travas na língua, fala o que pensa, não tem medo de morrer e nem é comandante, mas aproveita a situação para jogar na cara de Agamenon que ele não comanda direito e só pensa nele mesmo. Odisseu o cala, fica do lado de Agamenon e diz que Tersites nunca deveria falar assim das pessoas mais poderosas. Odisseu avisa que, se ele fizer isso de novo, vai tirar sua roupa, fazê-lo andar pelado, apanhar e voltar nu para a embarcação. Dito isso, Odisseu usa o seu próprio cetro — pois ele também era rei — para dar umas pancadas em Tersites, que fica com as costas marcadas, cai no chão e chora.
Os personagens secundários que assistem a isso riem, e percebemos que, mesmo depois de todas as críticas, Agamenon ainda gozava de prestígio como um bom governante, assim como Ulisses tinha muita reputação. Ulisses então discursa e lembra de uma visão que tiveram tempo antes, em que águias atacavam uma serpente e esta dava uma surra nas águias. Ele interpreta isso como um presságio de que deveriam continuar lutando por mais um tempo, pois certamente sairiam vitoriosos, havendo inclusive uma profecia de que a vitória só viria no décimo ano de batalha — descobrindo-se ali que já estão guerreando há dez anos.
Outro personagem que discursa é Nestor, um senhor idoso e sábio, bem-quisto por Agamenon, que concorda com Ulisses e tenta incentivar o povo a continuar na batalha. Quando Nestor termina seu discurso inflamado, o pessoal fica todo animado. Agamenon pega a palavra de novo, elogia o discurso de Nestor e usa isso como desculpa para fingir que está considerando voltar atrás e continuar a batalha, mesmo que Zeus esteja contra eles, reatando possivelmente com Aquiles no futuro. Ele ainda ameaça de morte aqueles que quiserem desistir, testando quem tem honra para ser chamado de guerreiro aqueu.
A galera se convence a continuar e faz sacrifícios, sendo o maior deles realizado pelo próprio Agamenon, embora Zeus continue indiferente. É aí que temos uma noção maior do tamanho do exército, descrito como um enxame, com uma descrição ampla de povos que falavam línguas diferentes e eram governados por comandantes distintos em alianças malucas. Atena acompanha os reis servindo-se da égide de Zeus, o que demonstra uma forte proteção divina.
Nesse trecho, o rapsodo — o narrador que canta e conta essa história lendária inspirado pelas musas — retorna para lembrar que as musas são as deusas do conhecimento verdadeiro e da inspiração para os artistas e bardos. O narrador diz que as musas lembraram de todos os comandantes das embarcações, as naus, iniciando um trecho tedioso que se assemelha às listas de genealogia da Bíblia. Essa lista não serve apenas para dar veracidade à história, mas também para mostrar a origem divina da linhagem dos povos gregos. Entre os personagens mencionados está Ajax, o segundo guerreiro mais poderoso entre eles, que funciona como um substituto de Aquiles e usa um escudo gigante em formato de torre, lembrando a descrição de Hércules (ou Héracles, no nome grego).
No finalzinho do canto dois, o foco da história muda para os troianos. A deusa mensageira Íris vai falar com Heitor, disfarçada de um vigia troiano. Ela sugere que Heitor faça alianças com outras cidades e povos que falam línguas diferentes para tentar enfraquecer o ataque iminente dos aqueus, cujos exércitos estão avançando. Contudo, Heitor percebe que não é o sentinela real falando com ele e dispersa os troianos, não querendo saber daquela sugestão. É mais ou menos por aqui que o canto dois se encerra.