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Feérico Luar no Copacabana Palace [Alexandre Soares Silva] – Lisbôa

Feérico Luar no Copacabana Palace: Análise do Livro

Ambientado em um Rio de Janeiro dos anos 20 fantasioso e caricatural, o livro *Férico Luar no Copacabana Palace*, de Alexandre Soares Silva, acompanha as desventuras de Lilico, um herdeiro milionário e *bon-vivant* que tenta entrar para o prestigioso Clube dos Femeiros.

O livro se chama *Férico Luar no Copacabana Palace*, e esse título acaba não sendo muito grandioso para a obra, porque o acontecimento que o originou está logo no começo do livro. Ele conta a história de uma figura muito curiosa: um rapaz chamado Lilico, herdeiro de uma tradicional marca de café. É interessante a forma como o autor apresenta esse tipo de coisa, e enfim, o Lilico está no Copacabana Palace, perto da inauguração deste hotel muito querido da cidade do Rio de Janeiro, comentando sobre a vida dele, falando um pouco sobre seus gostos e sobre o que ele é. A gente descobre que ele é um *bon-vivant*, por assim dizer; um rapaz gordo — não tem como evitar isso —, que adora comer, passar o tempo livre lendo boas revistas e, claro, admirando mulheres.

Nessa noite de férico luar no Palace, ele recebe a visita de um primo, o Lalo. No dia seguinte, Lalo apresenta Lilico a um dos maiores objetos de sua admiração na vida: o Clube dos Femeiros, um clube basicamente de mulherengos onde se reúnem os maiores galanteadores do país, ali no centro do Rio de Janeiro. Lilico fica fascinado com aquele lugar, porque lia muito a respeito em uma revista que acompanhou sua infância, cujo colunista era membro desse clube e fazia comentários muito bons sobre a vida. Lilico diz que admirava esse escritor e sempre quis conhecer o Clube dos Femeiros. Quando descobre que seu primo faz parte, é óbvio o que vem à mente de Lilico logo de cara: quero fazer parte desse clube.

Só que há um problema: para entrar nesse clube, você tem que conquistar uma grande beldade e, não só isso, apresentar uma prova da sua conquista para o chefão de lá. Como Lilico poderia fazer isso, logo ele, que era um *bon-vivant* mas não tinha talento algum para as mulheres? Ele era completamente fraco contra o sexo frágil. Por sorte, no momento em que isso acontece, Lula Billings, uma famosa atriz de Hollywood, está na cidade para gravar um filme e está solteira. Então, Lilico vai lá e, junto com seu primo, começa a bolar planos para poder entrar no clube e, claro, conseguir uma prova disso também. Este é o pano de fundo da história, e a partir desse ponto ela vai se desenrolar de forma cada vez mais rocambolesca. As coisas vão acontecendo de maneira muito natural, mas situações muito bizarras se sucedem, até porque este livro é uma comédia. Não é um grande drama, não é uma obra de gênero estrito; é uma enorme comédia. A partir desse chamado, desse desejo de Lilico, a história vai se enrolando cada vez mais, e essa mistura acaba combinando muito bem com um tom bem-humorado, escrachado, cômico e caricaturesco que está presente desde o começo.

Essas são as palavras mais importantes para descrever este livro: rocambolesco, caricaturesco e cômico — acho que essas três coisas meio que se confundem. Primeiro, o aspecto rocambolesco: temos uma narrativa que vai concatenando diversas aventuras que aumentam de dimensão, mas sem perder o dinamismo. O livro começa com Lilico querendo entrar no Clube dos Femeiros; por causa disso, ele acaba se envolvendo com uma atriz de Hollywood. A dimensão aumenta. Depois, ele vai atrás de outra pessoa, que estava noiva do Ministro da Fazenda. Para conquistar essa pessoa, Lilico ainda assume um papel de celebridade dentro desse universo único criado pelo autor.

O aspecto caricaturesco está em ver um Rio de Janeiro dos anos 20 que nunca existiu. O Rio de Janeiro apresentado ali é povoado por figuras únicas e situações muito estranhas e bizarras, mas ao mesmo tempo é belíssimo. As poucas descrições de locais constroem uma imagem muito bela de onde eles estão passando e andando. É um Rio de Janeiro em que dá vontade de viver, que não se parece com o que vemos nas notícias hoje em dia nem com o que existia de fato nos anos 20.

O livro é cômico porque é narrado pelo próprio Lilico, um rapaz herdeiro que cresceu sem grandes ambições na vida, mas que tem suas vontades. Ele sabe de suas limitações e está muito confortável no lugar onde está; então, para que se esforçar ou se importar com mais? Além disso, pelo fato de o livro se situar numa época antiga e ter um narrador pertencente à elite — lembrando que, como herdeiro de uma tradicional marca de café nos anos 20, ele era milionário —, a linguagem acaba sendo exagerada. Ele usa diversas palavras que não existem, parecendo aquelas pessoas que se esforçam para demonstrar inteligência usando termos difíceis no dia a dia. Lilico é mais ou menos essa pessoa, só que ele inventa muita coisa: há muitos adjetivos criados a partir de substantivos que não existem, mas que trazem uma comicidade presente desde a primeira página.

Além de tudo isso, Lilico é um rapaz muito inocente. Essa inocência e ingenuidade criam situações complicadas que crescem de dimensão, virando algo de perder o fôlego. Em um determinado momento, forma-se um triângulo amoroso. Óbvio que Lilico não sabe lidar com isso, ao contrário de seu primo, que faz parte do Clube dos Femeiros e cujas habilidades de conquista são evidentes. Isso gera uma situação cômica, com Lilico bem no centro como narrador, sem saber lidar com o que está vivendo, enquanto a narrativa cresce em torno disso.

O começo do livro é um pouquinho mais arrastado — não no sentido de ser chato, mas porque as coisas ainda não atingiram uma dimensão tão grande para você ser engolido pela narrativa. É mais do meio para o final que as coisas crescem, e aí você não consegue parar de ler. No comecinho dá para fazer pausas, mas do meio para o final tem que ler de uma vez só.

Outro aspecto caricaturesco que esqueci de mencionar é que, como a história se passa nos anos 20 — época da Semana de Arte Moderna —, o autor traz figuras de destaque daquela época do país de maneira caricatural. É mais ou menos o que um filme como o do Tarantino faz, trazendo figuras históricas para dentro da trama de forma que você ri delas. O livro tem um toque de crítica à Semana de Arte Moderna, ao modernismo e a esses aspectos do Brasil histórico.

Além disso, há alguns personagens que chamam a atenção e aparecem de maneira oculta. Lilico tem uma grande influência daquele autor da revista que falava sobre a vida e era membro dos Femeiros. Há também a figura do Lobo Guará, um ladrão que, dentro desse universo particular criado por Alexandre Soares Silva, é uma figura mitológica. Ele é um dos ladrões clássicos, e as pessoas que são furtadas por ele se sentem honradas por ter participado daquilo.

Existe uma inventividade muito grande por trás dessas construções, a criação de um universo muito único. O autor faz esse *world building* de maneira muito natural, e o interessante é que não está distante da nossa realidade: é um outro Rio de Janeiro, um *elseworld* paralelo ao nosso. Isso exige muita criatividade, e é isso que me espanta e me chama a atenção nesse livro. Eu não li outras obras de Alexandre Soares Silva, mas se forem parecidas com *Férico Luar no Copacabana Palace*, com certeza vou gostar, pois aprecio esse tipo de inventividade presente em autores como David Foster Wallace ou Thomas Pynchon.

A presença dessas duas figuras — o colunista e o Lobo Guará — abre janelas para detalhes geniais que o leitor consegue pescar no finalzinho, mesmo que o inocente Lilico não perceba. É por ser esse cara meio crianço e bobão que a gente acaba gostando do personagem. É divertido acompanhar o seu desenvolvimento na história, que atinge momentos realmente geniais. É um livro tão bom que me faz até perdoar a capa feita por inteligência artificial — que é bonita, mas fica o recado para a editora, que tem lançado livros muito bons (meu último review foi de um livro da Mesa Editora), para chamarem o Ran, o artista aqui do canal, para fazer um trabalho excelente.