A transmissão do canal "Os Contos da Galera" reuniu os criadores para mais uma sessão de análise dos textos enviados pelos participantes, dedicando esta edição a narrativas de horror. O primeiro conto discutido, de autoria de Lisboa, acompanha Nico, um jovem rapper em ascensão cujo cotidiano é subitamente invadido por uma sequência implacável de infortúnios e agouros que começam de forma banal — como passar por debaixo de uma escada —, mas rapidamente escalam para desastres profissionais e emocionais. O enredo acompanha a dúvida do protagonista sobre a natureza desses eventos, oscilando entre o ceticismo racional, a busca por ajuda espiritual e a certeza sufocante de uma perseguição sobrenatural, culminando em um surto violento em que ele agride a namorada e incendeia o apartamento.
Enquanto a mesa debateu se a obra exigia uma leitura puramente psicológica de um colapso mental ou se operava sob uma maldição real, a análise estilística apontou a linguagem crua, direta e coloquial do texto como um ponto forte para refletir o universo do protagonista, embora tenham sido apontadas falhas pontuais de concordância, repetições e construções sintáticas longas que poderiam se beneficiar de uma revisão mais enxuta.
Em contraste com a brevidade do primeiro texto, a segunda obra analisada foi um conto denso e de fôlego longo escrito por Raian, ambientado no porto do Rio de Janeiro em 1963. A narrativa adota um estilo epistolar e um pastiche confesso da literatura de H.P. Lovecraft, acompanhando um metalúrgico idoso internado em uma ala psiquiátrica que relata seu encontro fatídico com uma sombra sem rosto nas docas. Convidado para uma viagem marítima que o expõe a horrores cósmicos inomináveis, geometrias não euclidianas e visões que destroem a sanidade humana, o narrador tenta justificar sua lucidez em meio a descrições carregadas de formalismo e verborragia arcaica.
Enquanto a mesa divergiu sobre o ritmo da narrativa — com elogios à fidelidade atmosférica ao horror cósmico e críticas ao excesso de repetições, discursos autorreferenciais do narrador e digressões que tornavam a leitura extenuante —, o debate ressaltou as dificuldades e os méritos de emular estilos clássicos, destacando como o distanciamento temporal e a releitura crítica ajudam a expor tanto as forças quanto as fragilidades estruturais de uma obra literária.