No meu último vídeo, conversei sobre como alguns autores amadores, alguns autores iniciantes, gostam de tentar impressionar os seus futuros leitores com algumas firulas, com palavreado rebuscado, com uso de segunda pessoa na fala dos personagens e até forçando algumas situações para poderem usar a mesóclise. Isso quando não trocam a desinência verbal só para parecer mais bonito, como, por exemplo, usando o mais-que-perfeito.
E, depois que publiquei o vídeo, um amigo me respondeu lá no Substack, e eu estou fazendo este vídeo aqui para respondê-lo de volta. Espero que fique tudo bem.
Meu nome é Lucas Rosalém. Neste canal, a gente fala sobre teoria literária e escrita criativa — às vezes de uma forma mais complexa, mais profunda, mais teórica, mas às vezes de forma muito prática, que é o que eu pretendo fazer daqui para frente. Eu sou o autor do universo Antares, um universo ficcional colaborativo. A gente tem um grupo de escrita no Telegram para o qual convido você a participar. Eu sou autor de várias histórias que você pode ler lá no nosso site, e algumas delas vou deixar aqui embaixo para caso você queira conferir se eu escrevo mesmo ou se eu sou um fanfarrão do YouTube.
Mas agora vamos para o vídeo. Quero começar respondendo às objeções do meu amigo. A primeira delas, acho que é uma confusão que ele faz sobre verossimilhança. Vou ler aqui algumas coisas que escrevi para postar lá no Substack. O link vai estar aqui embaixo também, caso você queira dar uma olhada. Então, algumas coisas eu vou ler e outras eu vou só comentar.
O primeiro argumento desse meu amigo é que, em um mundo ficcional que se passe, por exemplo, numa época onde o português corrente use vulgarmente a mesóclise, usá-la até mesmo nas falas de uma criança seria verossímil. Então, veja qual é o argumento aqui: se você construir um universo ficcional onde até para as crianças o uso da mesóclise seja uma coisa totalmente comum, seria, portanto, verossímil que as crianças da sua história falassem com mesóclise.
E realmente isso parece fazer muito sentido, mas só até você considerar o que realmente quer dizer verossimilhança. Só lembrando aqui que a gente está falando de literatura especificamente, tá? Eu entendo que muitas vezes alguns autores importantes, inclusive, escreveram coisas de forma a causar algum estranhamento no leitor. E talvez alguns iniciantes tentem fazer isso também. Eu já devo dizer que não sou avesso à ideia dos formalistas russos, por exemplo, de que um dos aspectos de um texto literário era o que eles chamavam justamente de estranhamento. Só que o estranhamento, do ponto de vista dos formalistas russos, tem que ser bem compreendido.
Mas primeiro vamos pensar aqui sobre construção de universo ficcional. Tem um outro autor que preciso citar mais uma vez, que é o Vladimir Propp, que escreveu um livro muito famoso chamado *A Morfologia do Conto Maravilhoso*, depois de ter analisado a estrutura de um monte de contos russos. Nesse livro, ele demonstra para gente, por A mais B, que a lógica do conto popular não é a lógica do mundo real. Que lógica é essa, então, que acontece no mundo ficcional dos contos? É uma lógica estrutural. Como assim? É uma lógica que vai obedecer às regras da própria progressão da sua narrativa e do encadeamento das cenas que você está propondo ali. Como é que uma coisa chega até a outra? Como é que uma cena justifica a outra? É essa relação de causa e efeito que você coloca na sua história.
Então, veja: o que torna uma narrativa coerente não é a simulação fiel do mundo real, mas a consistência que você tem com as suas próprias regras internas no livro, conforme percebidas pelo leitor. Porque você pode até obedecer a todas as suas regras internas, mas não tem como obrigar o seu leitor a entender tudo o que você está fazendo. Não é à toa que muitos filmes vão ser super-verossímeis para algumas pessoas e pouco verossímeis para outras. Então, a verossimilhança, de alguma forma, ainda é subjetiva; não tem como fugir disso. Ou seja, a verossimilhança não existe no texto em si: ela existe na experiência do leitor que processa o texto.
E é por isso que, nesse sentido, o mundo real não importa. O que aconteceu de fato no mundo real não é o que precisa acontecer na sua trama para ela fazer todo sentido para o leitor. Deu para entender? Ou seja, verossimilhança não é veracidade, não é a verdade factual: é a aparência de realidade. A verossimilhança é o falso crível.
Então, agora vamos voltar para o nosso exemplo. O mundo medieval… mundo medieval, não, o mundo ficcional coerente para o leitor brasileiro contemporâneo, verossímil, vai ser aquele que produz no leitor a sensação de distância e estranhamento para mostrar que se trata de um ambiente diferente do contemporâneo. Ou seja, você não pode só soltar lá o palavreado e esperar que o leitor goste daquilo simplesmente ou consiga imergir no universo onde todo mundo fala difícil só porque o texto se passa antigamente.
Por exemplo, quando você assiste a filmes de Velho Oeste, como é a linguagem? É daquela época ou é contemporânea? É contemporânea. São alguns pequenos traços da linguagem antiga que essas literaturas ou esses filmes antigos vão trazer para podermos fazer essas correlações. Mas, se a linguagem toda do material da obra for antiga, você simplesmente não vai conseguir entender. Então, temos aqui o mesmo motivo pelo qual escrevemos em português para pessoas que falam português, e não em espanhol só porque nossa história se passa na Espanha, certo? Deu para entender?
E, por isso, preciso citar outro autor de quem gosto para caramba, que é o Greimas. Eu falo Greimas, não sei se é Greimas, não sei se se lê de outro jeito completamente aleatório, mas é um autor que escreveu um livro muito importante chamado *Semântica Estrutural*. Acho que é esse o nome do livro, porque, nele, ele vai mais longe do que eu estou falando ainda: ele vai dizer também que o sentido não é uma propriedade do texto, mas o resultado de uma operação que o leitor realiza sobre ele. Eu não estou dizendo que o leitor entende o que quiser do texto, muito pelo contrário: ele entende o que pode, o que consegue.
Deixe-me dar um exemplo muito simples para você. Se você tem um amigo ou um irmão com quem conversa às vezes com muitas referências só entre vocês dois, com um palavreado próprio, com uma linguagem que não precisa de muitos rodeios porque um já entende facilmente o que o outro está dizendo, imagina se essa conversa cai na mão de uma outra pessoa que está tentando te entender ou tentando entender o assunto, a conversa que você teve com o seu irmão ou amigo. A pessoa que não tem as mesmas referências, não tem as experiências que você teve, nunca viu você conversando com essa pessoa e não está acostumada com a terminologia que você usa, vai entender todas as nuances das coisas que você está falando com ele? É claro que não. Ela está vendo as mesmas palavras, o mesmo texto, mas, como o autor não escreveu para aquele leitor, o leitor simplesmente não pode, não tem ferramentas suficientes para entender todas as nuances que estavam na cabeça do escritor.
Então, veja: o bom escritor é aquele que consegue considerar essas deficiências, essas limitações, conseguindo o resultado que esperava, que era dar uma boa experiência para o seu leitor. Isso acontece com muita exatidão quando qualquer pessoa lê Machado de Assis, inclusive nos momentos em que ela não entende o que o Machado de Assis está falando, por causa das referências que são realmente, às vezes, para não entender. Eu expliquei isso no meu vídeo sobre narratário. Veja lá o vídeo, não fique boiando aí, veja o meu vídeo sobre narratário — ele vai estar aqui na descrição também.
Mas, voltando aqui para o assunto: se o seu texto está ambientado em um momento histórico, mesmo que seja de fantasia, em que as pessoas realmente conversam de uma forma muito difícil, inclusive as crianças, isso não é o suficiente. Isso talvez nem importe, porque o mais importante não é você conseguir uma justificativa para falar bonito no seu texto. O que um bom escritor deseja é que a linguagem que ele vai usar dentro daquele contexto que está construindo cause o efeito que ele pretendia no leitor, inclusive com relação ao mundo que está construindo, aquele mundo que o leitor está percebendo. E isso sim é verossimilhança.
Antes de encerrar o vídeo, ainda quero acrescentar mais uma questão sobre verossimilhança, porque esse assunto aqui vai durar por mais uns três ou quatro vídeos ainda. Mas preciso trazer aqui a opinião do Aristóteles, porque foi o cara que estabeleceu que a tarefa do artista não é a exatidão referencial, mas a persuasão mimética. Estou falando aqui de verossimilhança, tá? O que isso quer dizer? Aristóteles, na sua *Poética*, explica o seguinte: que uma impossibilidade convincente é preferível a uma possibilidade inconvincente. Deu para entender?
Por exemplo, no cenário em que você construiu sua narrativa, na sua história — passou uma mosca gigante aqui —, se você construir uma cena que é plenamente plausível, mas não conseguir convencer o leitor daquilo, você não fez o seu trabalho. Por outro lado, se você construir uma cena que tecnicamente, ou melhor, fisicamente, biologicamente, tanto faz, seja totalmente implausível, mas conseguir construí-la de uma forma convincente para o leitor, isso é verossimilhança, e é isso que importa. Até porque a literatura não é o mundo real. Se você quiser o mundo real, vai escrever um livro de história.
Bom, e como isso se aplica ao nosso problema aqui? Lembra qual era o nosso cenário hipotético? Era o de um ambiente em que até as crianças normalmente falariam usando o português arcaico, inclusive com mesóclise e tudo. Só que o que a gente tem que ter em mente é o seguinte: independentemente do cenário, uma criança deve soar na narrativa como uma criança. Você vai conseguir fazer o leitor perceber isso? Para que uma criança use mesóclise naturalmente, para que soe natural, você vai ter que deixar total e obviamente evidente que, por algum motivo, aquela é a forma infantil de falar. Só que, olha, ainda assim o risco que você tem é simplesmente não ser convincente.
Esse meu amigo, no texto, argumentou que inclusive há países hoje que falam de uma forma que a gente consideraria arcaica. Então, escrever com certas variantes do português que para o brasileiro soam arcaicas não seria exatamente inverossímil. Mas, olha: não seria inverossímil para quem? Se você escrever um texto lá em Portugal colocando tudo em segunda pessoa, para eles vai ser ok. Para a gente, não é. A não ser que você escreva para sulistas; eu conheço um monte de gente do Rio Grande do Sul que só fala usando a segunda pessoa. Então, veja: se há ou não outros países fora o Brasil, ou até regiões do Brasil, que usam coisas que em outras partes poderiam ser arcaicas, ou se existiu uma época no Brasil onde o arcaísmo, o português arcaico, era a forma comum de se falar, isso não faz qualquer diferença para a sua história, porque o nosso leitor não é daquela época — o nosso leitor é de agora. Ele fala português contemporâneo. Beleza?
Se você quer fazer uma obra super-requintada, com português super-requintado, que simule um português arcaico, uma obra escrita naquela época, você pode fazer isso. A literatura permite qualquer coisa. Você, inclusive, pode não escrever… olha só que legal: você pode escrever cheio de erros de português, você pode escrever só frases que as pessoas não vão entender. E é justamente disso que eu estou falando. Isso é uma boa escrita? Por que raios você acharia que isso seria uma boa escrita e que você seria um bom escritor? Talvez até hoje você possa ser um bom escritor daquela época, o que para as pessoas de hoje não tem importância nenhuma.
E, mais uma vez, você pode até falar o seguinte: "Não, mas tem pessoas daquela época lá que fizeram livros e ainda gozam de prestígio hoje, por exemplo, James Joyce, Shakespeare, o próprio Machado de Assis." E isso é verdade. Só que eu já mencionei isso aqui neste vídeo, já citei o nome do Machado de Assis, e no outro vídeo eu já tinha citado também esses casos, que são casos de autores que sabiam exatamente o que estavam fazendo. Eles tinham um domínio muito bom da linguagem. Se você tiver condições de fazer isso, se você já tiver passado desse nível de achar que o floreio é o que faz esses textos ficarem bons, você vai conseguir verificar que sempre, em todos os casos desses autores famosos, a linguagem usada por eles é parte estrutural da cadeia de elementos que estão servindo para construir o impacto no leitor.
Se você não pensar dessa forma na sua linguagem, você está escrevendo como um amador. Eu já falei isso no outro vídeo. Copiar a forma sem copiar a estrutura que dá o peso à forma, é óbvio que não vai garantir para você o mesmo efeito que você viu nos textos deles. E disso, meu amigo, ninguém tem dúvida quando lê um texto de amador.
Se você gostou deste vídeo, deixe aqui um comentário. Se quiser xingar, fique à vontade também. Mas, por este vídeo, é isso. Até a próxima.