Escavações em Nuzu

Descobertas arqueológicas na cidade de Nuzu, dos horeus, no nordeste da Mesopotâmia, também têm uma importante relação com as condições que existiam na era patriarcal. Embora uma grande quantidade das tábuas que foram desenterradas ainda necessite ser divulgada e estudada, as partes que já foram interpretadas mostraram o substancial valor histórico das sagas patriarcais, indicando, de uma maneira indireta, a maneira como estas narrativas estão em consonância com o cenário do período, conforme representado em tábuas e inscrições cuneiformes. Os horeus eram o grupo étnico dominante no Oriente Médio durante o segundo milênio a.C, e como tal estavam próximos, em tempo e lugar, dos patriarcas bíblicos. Tábuas de argila recuperadas de arquivos nas ruínas de Nuzu, por Chiera e outros, preservaram um registro excelente do cenário social e cultural do período, revolucionando o conhecimento anterior do período patriarcal e esclarecendo alguns dos problemas relacionados com a vida de Abraão e de seus sucessores.

Embora alguns dos textos sejam de natureza legal, a maior parte consiste de documentos privativos, tratando principalmente de assuntos pessoais. Por esta razão, muitos deles se relacionavam de uma ou outra maneira, com a adoção, que era uma das instituições sociais em Nuzu. Como a lei proibia a venda direta de terra, tinha se tornado um costume que tais transações fossem íeitas sob uma aparência de adoção. Escravos eram frequentemente adotados com este mesmo propósito, e parece que um mesmo indivíduo podia ser adotado por mais de um casal. No entanto, as adoções genuínas eram também comuns em Nuzu, especialmente no caso de casais sem filhos, que frequentemente recorriam a esta prática para obter um filho. Em retribuição à herança assim concedida, esperava-se que o filho adotado desempenhasse os deveres filiais normais. Mas se os pais adotivos tivessem um filho seu, depois da adoção, o filho adotado era obrigado, por lei, a ceder ao filho natural o direito da herança. Estas circunstâncias formam o fundamento da adoção, por Abraão, de seu escravo, Eliézer, como seu suposto herdeiro (Gn 15.2 e versículos seguintes), um procedimento que aparentemente foi realizado em conformidade com o costume local predominante. O fato de que esta não seria uma situação permanente, no entanto, foi revelado por Deus, quando Ele prometeu a Abraão que seu escravo, afinal, não seria seu herdeiro, uma vez que lhe nasceria um filho para herdar as suas propriedades, e dar continuidade ao seu nome, à sua descendência.

As tábuas de Nuzu indicam que a instituição do casamento era considerada como um meio de procriação, e não um artifício para o companheirismo humano. O contrato de casamento dispunha que, se a esposa não tivesse filhos, por qualquer razão, era obrigada a dar uma criada a seu esposo, de modo que pudessem nascer crianças no círculo familiar. Desta maneira, um documento de casamento diz o seguinte:

Se Gilimninu (a esposa) não tiver filhos, Gilimninu deverá tomar uma mulher de N/Lullu-land (de onde se obtinham as melhores escravas) como esposa para Shennima (o esposo).

Em conformidade com este costume, Sara deu Agar, uma escrava egípcia, a Abraão (Gn 16.2), e, duas gerações mais tarde, Raquel deu Bila a Jacó (Gn 30.3,4). Segundo a lei de Nuzu, qualquer criança que resultasse de tal união deveria permanecer na família e a sua expulsão era estritamente proibida. Este fator explica a apreensão que Abraão sentiu (Gn 21.11), quando Sara decidiu expulsar Agar e Ismael, depois que este tinha zombado de Isaque, o filho pequeno de Abraão e Sara, no dia de seu desmame. Apesar cia dispensação Divina que justificava a aquiescência de Abraão na questão (Gn 21.1, e versículos seguintes), teria sido legalmente possível justificar a ação de Sara por uma apelação à seção 25 do código sumério de Lipit-Ishtar (1850-1840 a.C), que dispunha o princípio de que o ato da expulsão era compensado pela liberdade resultante que os expulsos obtinham. De acordo com os costumes em Nuzu, o “direito de primogenitura”, ou título à posição de primogênito, era negociável entre os membros da família, e em um caso os privilégios foram transferidos a uma pessoa que tinha sido adotada como irmão. Outra tábua falava de um homem chamado Tupkitilla, que dispunha, de comum acordo, de seu direito de primogenitura:

Naquele dia, eles dividirão o bosque… Tupkitilla o dará a Kurpazah como a sua parte na herança. E Kurpuzah terá de levar três ovelhas a Tupkitilla, em troca de sua parte na herança.

Uma vez que estas transações eram bastante comuns em Nuzu, não haveria nada particularmente incomum no fato de que Jacó se aproveitasse de seu irmão faminto para obter seu direito de primogenitura (Gn 25.31 e versículos seguintes). O relacionamento que existia entre Jacó e Labão tem uma correspondência, até certo ponto, com um texto de Nuzu, que fala de um homem que adotou um filho, dando-lhe sua filha como esposa, e nomeando a ele, e à sua descendência, como seus herdeiros. Foi acrescentada a condição usual a respeito do nascimento de um filho natural aos pais adotivos, mas neste exemplo o filho adotivo teve uma parte igual à do filho natural na herança. Os termos da adoção também estabeleciam que o filho adotivo estivesse proibido de ter um casamento adicional, sob pena de perder seus direitos à propriedade. Além disso, se os pais adotivos tivessem filhos posteriores à adoção, os filhos do filho adotivo não poderiam reivindicar a propriedade.

A narrativa do livro de Gênesis (29.6 e versículos seguintes) não dá nenhum indício de que Labão tivesse qualquer filho quando Jacó entrou em sua família, mostrando que Jacó foi aceito como um filho adotivo, e não como um genro. Este fato é ainda mais fundamentado pela maneira como Labão proclamou seus direitos patriarcais (Gn 31.43). Embora, sob circunstâncias normais, as mulheres casadas fossem propriedades de seus maridos, Raquel e Leia não tiveram permissão de deixar a casa paterna porque ainda pertenciam a Labão, uma situação que pode ser explicada considerando Jacó, esposo de ambas, como filho adotivo. Desta maneira, era lícito que Labão punisse os três conspiradores pela sua culpa, por fugirem da sua autoridade. Porém, em vez disto, ele se contentou em fazer um acordo com Jacó, em que o advertiu, de acordo com os costumes da época, a não ter outros contratos maritais (Gn 31.50).

Onde era necessário que a herança fosse dividida, a Lei de Nuzu reconhecia como líder da família, aquele que tivesse possessão dos ídolos da casa. Estes ídolos eram, evidentemente, as imagens, ou “terafins” que Raquel roubou (Gn 31.19), e uma boa quantidade de estátuas similares foram recuperadas em Nuzu. Como, aparentemente, estes ídolos estavam associados com certos direitos de liderança ou herança, o seu roubo era uma questão séria, porque Labão tinha tido filhos (Gn 31.1) depois da sua aparente adoção de Jacó, de modo que a eles pertenciam, segundo a lei, os direitos de primogenitura. As bênçãos que foram elaboradas e transmitidas nas narrativas patriarcais, era uma característica comum da sociedade de Nuzu; na verdade, eram a última vontade e o testamento da pessoa que as proferisse, e como tal, eram obrigatórias, legalmente, quer estivessem ou não por escrito. Uma tábua de Nuzu registra um caso judicial em que, fundamentado neste preceito, o queixoso conseguiu confirmar o seu direito de casar-se com determinada mulher, que tinha sido designada a ele. O seu relato da situação foi o seguinte:

Meu pai, Huya, estava doente, em seu leito de morte, e ele tomou minha mão e disse-me o seguinte: Meus outros filhos mais velhos têm esposas, mas você não tem uma esposa, então eu lhe dou Zululishtar como esposa.

Como ainda é o caso em alguns países orientais, as duas pessoas que se casavam não tinham sido consultadas previamente sobre o arranjo do qual iriam participar. Um costume bastante curioso, mencionado nas tábuas de Nuzu, estava relacionado com a transmissão de calçados, ou botas, entre pessoas que faziam algum tipo de contrato. Em alguns dos textos a transação parece ter beirado a ilegalidade, como em um caso, onde, aparentemente, houve uma tentativa de venda de terras. Uma vez que todas as propriedades pertenciam aos deuses, eram consideradas inalienáveis, e como tal não poderiam ser compradas nem vendidas. No entanto, por meio de algum procedimento especial que envolvia a transmissão de um par de calçados, e outros itens, a transferência da propriedade adquiriu a aparência da legalidade. Posteriormente, em Israel, determinadas obrigações morais eram dispensadas, da mesma maneira. Isto ocorreu, por exemplo, em relação à ocasião em que Rute foi redimida por Boaz (Rt 4.7 e versículos seguintes), e parece também ter sido usado por proprietários, inescrupulosos, de terras no século VIII a.C, que desta maneira privaram os pobres de determinados direitos legais (Am 2.6; 8.6).

Embora os textos de Mari e Nuzu tenham um grande e inegável valor, fornecendo um cenário histórico autêntico para as narrativas que tratam de Abraão, Isaque e Jacó, uma fonte de informação ainda mais importante para este mesmo período foi descoberta, na Turquia, por Sir Leonard Woolley. Escavando imediatamente antes e imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial em Tell el’- Atshana (Alalakh) naquilo que originalmente era o norte da Síria, ele descobriu dois estratos que continham palácios reais, um dos quais pertencente ao período 1900-1780 a.C, e o outro ao século XV a.C. Muito mais de quatrocentos e cinquenta textos foram recuperados das ruínas, e são considerados aproximadamente contemporâneos aos de Mari e Nuzu. No entanto, são de um valor consideravelmente maior para o período patriarcal, uma vez que são mais próximos daquele tempo, tanto cronológica quanto geograficamente.

Estas tábuas fornecem informações adicionais sobre o status preferencial que podia ser dado a qualquer filho de uma mulher em particular, como exemplifica o contrato de casamento entre um homem chamado Irihalpa e sua esposa Naidu:

Se Naidu não der à luz a um filho… a filha de seu irmão… será dada (a Irihalpa)… se (outra esposa) Irihalpa der à luz a um filho antes, e depois disto Naidu der à luz a um filho, somente o filho de Naidu será o primogênito.

A posição de filho primogênito na família normalmente implicava que a pessoa interessada podia reivindicar uma dupla participação na herança por ocasião da morte do patriarca da família. No entanto, as tradições de Alalakh reforçam determinados casos tanto em Mari quanto em Ugarit, para mostrar que o pai tinha liberdade de desconsiderar as sequências naturais da primogenitura e, em vez delas, escolher o seu próprio primogênito entre os seus filhos. Este costume, obviamente, influenciou o caso de Manasses e Efraim (Gn 48.13-20), a reputação de Rúben (Gn 49.3 e versículos seguintes), e a promoção de José (Gn 48.22). Gom base neste costume, fica evidente que as instituições sociais registradas nas narrativas patriarcais são abundantemente representativas da vida no segundo milênio a.C. A forma literária básica dos relatos do livro de Gênesis sugere enfaticamente que as atividades destes antigos personagens hebreus foram registradas em tábuas,13 em conformidade com o costume do Oriente Médio, e não foram preservadas oralmente, como foi sugerido por muitos estudiosos. Arvores genealógicas familiares, como as que são apresentadas no livro de Gênesis, eram de grande importância nas culturas de Mari e Nuzu, e não há razão para pensar que os antepassados dos israelitas mais recentes fossem menos interessados em suas genealogias do que seus equivalentes da Mesopotâmia.

Até recentemente, os estudiosos afirmavam, de modo geral, que a menção a camelos nas narrativas dos patriarcas hebreus era um anacronismo. Embora exista, na realidade, pouca dúvida de que os jumentos foram domesticados antes que os camelos; seria incorreto achar que os últimos não eram usados nas caravanas de comércio orientais em um período muito antigo. Quando Parrot estava escavando Mari, descobriu restos de ossos de camelos nas ruínas de uma casa que pertencia ao período pré-sargônico (2400 a.C.). Selos cilíndricos recentemente descobertos no norte da Mesopotâmia, que podem ser datados do período dos patriarcas hebreus, retratam cavaleiros sobre camelos. Um relevo encontrado em Biblos, na Fenícia, atribuído pelos arqueólogos ao século XVIII a.C., mostrava, na verdade, um camelo ajoelhado, indicando seu uso como animal de carga naquele período.

Outro testemunho da domesticação do camelo, também do século XVIII a.C, desta vez de Alalakh, no norte da Síria, consistia de uma tábua cuneiforme, contendo uma lista de animais domésticos que mencionava especificamente o camelo, sob a designação GAM. MAL. Escavações arqueológicas no norte da índia também mostraram que o camelo tinha sido domesticado no início do segundo milênio a.C, e ao julgar pela sua escassez comparativa, deve ter sido um animal de carga extremamente valioso. Uma obra um pouco posterior, de evidência comprobatória, veio de Tell Halaf, há aproximadamente 96 quilômetros a leste de Harã. Esta obra consistia de uma placa esculpida, aproximadamente no século XI a.C, e retratava um dromedário ao qual tinha sido preso, por meio de correias cruzadas, um palanquim, parecido com uma caixa de madeira, em cujo topo estava sentado o cavaleiro.

Estas e outras descobertas arqueológicas sustentam a exatidão da tradição hebraica que rastreia as origens dos patriarcas até o vale do rio Balikh. Os documentos de Nuzu e Mari mostram que as narrativas patriarcais refletem as leis e os costumes sociais que eram correntes no século XIX e nos que se seguiram da história da Mesopotâmia. A correspondência em linguagem e nomes próprios entre os registros de Mari e as tradições do livro de Gênesis, indica a existência de antecedentes culturais comuns,16 e colocam a tradição israelita em uma base histórica relativa à cultura homogênea do Oriente Médio.

——- Retirado de R. K. Harrison – Tempos do Antigo Testamento.