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A Crítica Contra a Guerra em O Senhor dos Anéis [TOLKIEN]

A Crítica Anti-Guerra em O Senhor dos Anéis

Quando pensamos em obras de fantasia épica como *O Senhor dos Anéis*, costumamos focar nos elementos mágicos, nas grandes batalhas e na luta eterna entre o bem e o mal. No entanto, a forma como a guerra é retratada na adaptação cinematográfica de Peter Jackson traz reflexões profundas e dolorosas sobre a realidade dos conflitos armados, ecoando diretamente os horrores vividos por J. R. R. Tolkien no século XX.

Em *As Duas Torres*, há uma cena em Helm's Deep que sintetiza muito bem essa crítica. O povo de Rohan está cercado e em situação desesperadora, a ponto de começarem a armar todo mundo. Há um momento de poucos segundos em que a câmera foca na preparação de um garoto de apenas doze anos para o combate. É uma cena que choca e lembra diretamente o que aconteceu na Primeira e na Segunda Guerra Mundial, quando, diante da escassez de tropas, governos começaram a armar meninos de 12, 14 ou 15 anos e a enviá-los para a linha de frente. Eles acabavam servindo como escudos humanos para absorver as balas do inimigo, permitindo que as tropas adultasavançassem.

Ver isso em um filme de fantasia com dragões e monstros é impressionante, porque nos faz encarar a crueldade nua e crua da guerra. Diferente de muitos filmes do gênero que romantizam os conflitos ou demoram horas apenas mostrando mortes de inocentes sem capturar a verdadeira tragédia sistêmica, aqui vemos os "mocinhos" tendo que recorrer a medidas extremas e desesperadas. Isso me faz concordar com a visão de que a grande arte muitas vezes surge do desejo de criar algo genuíno, sem a necessidade de panfletagem política direta.

É o mesmo caso de Honoré de Balzac. Ele era monarquista, reacionário e católico, mas produziu a maior obra literária crítica à sociedade industrial e capitalista — entendida aqui como essa busca obsessiva por dinheiro o tempo todo —, além de retratar uma nobreza decadente do século XIX que se vendia, perdia seu poder para burocratas e grandes impérios industriais e trocava sua herança por prazeres fáceis. Balzac escrevia para viver, mas colocava sua visão de mundo naquilo de forma magistral, fazendo com que o leitor mergulhe na obra e pense: "Que irado".

Embora o foco original venha dos livros de Tolkien, a trilogia cinematográfica de Peter Jackson capturou perfeitamente esse espírito. O filme mostra que as perdas são reais e definitivas. O inimigo é avassalador, infinitamente mais forte, e parece vencer o tempo todo. Quando os heróis conquistam alguma vitória, ela é pequena; eles vencem uma batalha, mas parecem estar perdendo a guerra cada vez mais. E tudo isso feito com o objetivo primário de realizar um grande filme, o que acabou gerando uma das denúncias mais potentes contra a guerra: quando a situação aperta, as armas são colocadas nas mãos de crianças.

Isso aconteceu na história de inúmeros países. Costumo dizer que a maior parte dos chamados "heróis de guerra" são, na verdade, vítimas de guerra. Não eram soldados que estavam lá por vontade própria; eram escravos, refugiados, crianças e pessoas incapazes que serviram como bucha de canhão. Se formos a um cemitério de guerra, o que menos encontraremos são verdadeiros heróis, e o que mais haverá são vítimas forçadas a vestir uma farda e morrer no lugar dos outros. Grande parte dos verdadeiros heróis sobreviveu porque estava na linha de trás, abrigada das balas inimigas.