Neste trecho de uma discussão sobre técnicas de escrita, os participantes analisam como transformar explicações abstratas, adjetivos e advérbios em cenas de ação mais imersivas para o leitor.
Tudo o que poderia ter se transformado numa cena ou numa oportunidade para nos aproximarmos do que o personagem está pensando, muitas vezes acaba resumido a adjetivos e advérbios. Se você pega uma narrativa militar, por exemplo, não adianta descrever uma batalha dizendo apenas que alguém lutou "com audácia e astúcia". O que ele pensou? Como foi a estratégia?
Se você está escrevendo uma cena de guerra, eu quero me transportar para dentro dela. Em vez de dizer que o personagem era muito astuto, mostre como ele avançou por um escampado ou como adentrou uma fortaleza. Muitas vezes, o texto diz que o personagem subiu de patente e virou capitão ou tenente, mas a gente não sente essa evolução; o personagem parece estagnado porque a mudança é apenas declarada, não demonstrada. O principal perigo na escrita não é fazer o leitor odiar ou amar o personagem, mas sim deixá-lo indiferente. Não há nada mais perigoso do que um leitor apático.
Autores como Albert Camus e Franz Kafka conseguem criar personagens que são verdadeiros "ossos", extremamente neutros — como em *O Estrangeiro* ou *O Processo* —, mas ainda assim você se engaja com eles. Você pode até ficar com raiva, irritado ou intrigado com a forma como pensam, o que faz você "comprar" o personagem e querer saber o que vai acontecer.
A grande sacada é substituir a explicação vazia pela ação ou pelo pensamento direto. Em vez de dizer que alguém foi astucioso, mostre o que ele pensou naquele momento. Muitas vezes, você consegue substituir uma linha explicativa por uma frase de impacto, duas ou três palavras, ou por uma atitude rápida do personagem. Isso não apenas enxuga o texto, mantendo o mesmo volume ou até o tornando menor, como gera muito mais impacto e subtexto, fazendo com que o leitor realmente se conecte com a história.