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Irresponsabilidade e Covardia em “The Stormlight Archive” [Brandon Sanderson]

Irresponsabilidade e Covardia em The Stormlight Archive

Ao reler uma passagem de *The Stormlight Archive*, de Brandon Sanderson, o autor percebeu uma conexão fascinante e inesperada com a peça *As Mosca*, de Jean-Paul Sartre. Ambas as obras abordam, por caminhos distintos, a recusa humana em assumir a responsabilidade pelas próprias ações e omissões diante de figuras de autoridade.

Tive um insigth aqui, uma conexão muito inesperada em um momento de *The Stormlight Archive*. Na segunda parte do primeiro livro, há um trecho em que um bobo da corte misterioso conta uma fábula para o protagonista Kaladin. A história fala de um rei lendário de tempos muito antigos que embarcou numa aventura com seus amigos, tipo um grupo de argonautas, e chegou a uma ilha onde as pessoas eram muito educadas, pacíficas e os receberam super bem. Só que, em um momento, uma menina servente tropeçou, deixou algumas coisas caírem e pediu desculpas. Eles disseram que não havia problema, mas os outros habitantes da vila pegaram a menina, levaram-na para um canto e a massacraram. O rei, indignado, perguntou que loucura era aquela. Os moradores responderam que seguiam a lei absoluta e rigorosa de seu poderoso rei.

O herói, com vontade de matar todo mundo, foi até a torre onde o rei estaria. Subiu com seus companheiros e encontrou o monarca morto. Ele pegou a carcaça do rei, levou-a para baixo, jogou-a no chão diante de todos e disse: "O seu rei já estava morto, encontrei-o assim, nem precisa matar". Ao verem aquilo, os habitantes entraram em desespero; começaram a quebrar tudo e a botar fogo em tudo, mas sem atacar os heróis, apenas destruindo o próprio ambiente. Na fuga, uma nativa que os ajudava a voltar para a embarcação ouve a pergunta de um deles, sem entender nada: "O rei já estava morto, a gente só trouxe a carcaça para baixo, que loucura é essa?". E ela responde: "Senhor, você não entende. Quando tínhamos um rei com aquelas leis rigorosas e cruéis, a gente podia culpar tudo o que fazia nele. Agora que você nos mostrou que ele está morto, não temos mais como fazer isso". E o conto acaba.

Kaladin interpreta isso pensando que eles preferiam jogar a responsabilidade dos próprios atos em outra pessoa para aliviar a consciência e dar vazão a certas atrocidades dentro de um sistema punitivo que pune severamente qualquer mínima falha. O bobo da corte diz apenas que é uma interpretação possível, e a história segue outro rumo. Achei interessante porque não esperava ver uma parada assim.

Recentemente, ouvindo o audiobook de *Em Busca do Tempo Perdido*, lembrei de *As Moscas*, a versão de Sartre para *As Coéforas* de Équilas, a segunda peça da *Orestes*. No enredo de Sartre, o rei Agamenon foi assassinado pela esposa e pelo irmão dele, que usurpou o trono. Para controlar a população, os novos governantes espalham a narrativa de que o povo é culpado porque foi leniente, complacente e não defendeu o rei. O povo, aceitando essa culpa, se conforma dizendo: "Somos todos uma bosta, depravados eternamente, é melhor obedecer aos nobres".

Quando Orestes chega e mata os dois tiranos, a irmã dele, Electra — que vivia lavando roupa para os algozes e detestava aquilo —, entra em pânico. Será que ela entra em pânico justamente porque percebe que não pode mais culpar ninguém? Percebe que o que fizer a partir dali é de sua inteira responsabilidade, para o bem ou para o mal? É a famosa "náusea da liberdade" que Sartre explora, o medo gigantesco da responsabilidade quando se perdem os carcereiros.

Nos dois casos, temos monarcas tirânicos que morrem — ou cuja ilusão desmorona —, e a população (ou os subalternos) entra em pânico. Nas *Moscas*, a população fica sem saber o que fazer, e a peça termina sem dar uma resposta definitiva, pois o público se confunde com a plateia, cumprindo o objetivo de Sartre de fazer uma literatura liberativa.

A conexão que achei genial é que Brandon Sanderson e Jean-Paul Sartre são figuras diametralmente opostas. Sanderson é um autor cristão protestante, casado há décadas, pai de vários filhos, com uma carreira voltada ao mercado editorial, e que frequentemente fala abertamente sobre sua visão de mundo e poética pessoal. Sartre, por sua vez, é o famoso filósofo ateu, engajado no marxismo e maoísmo, com uma vida marcada por rupturas políticas e engajamento radical.

Apesar disso, nas obras de ambos, temos abordagens complementares sobre a fuga da responsabilidade. Na fábula de Sanderson, as pessoas cometem atos atrozes e culpam a crueldade do rei vivo para se apoiarem em uma autoridade superior que justifique sua violência. Na peça de Sartre, as pessoas não fazem nada, paralisadas pela miséria, e justificam a própria inércia e covardia dizendo que o rei é quem manda, preferindo obedecer a quem tem coragem. Em ambos os cenários, seja para cometer atrocidades ou para se omitir de agir, a figura do monarca serve de muleta para fugir da responsabilidade individual pelos próprios atos.