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As Crianças do Milharal [Stephen King] • Resenha ••• Matheus Lima

As Crianças do Milharal: Resenha do Conto de Stephen King

O conto *As Crianças do Milharal*, de Stephen King, publicado no Brasil pela editora Suma em uma edição em brochura com páginas amareladas que privilegia o conforto da leitura casual, destaca-se como uma das narrativas curtas mais icônicas do autor. A história acompanha o casal Burt e Vicky, que viaja de carro de Nova York para a Califórnia para visitar o irmão dela. Em meio a discussões sobre os rumos do relacionamento e a crise conjugal, eles cruzam o estado de Nebraska por uma estrada cercada exclusivamente por imensos campos de milho, sem sinal de rádio ou conexão com o mundo exterior, exceto por uma transmissão religiosa enigmática que ecoa de uma antena próxima à cidade de Gatling.

A tensão atinge o ápice quando uma criança com a garganta cortada se joga na frente do veículo e é atropelada. Ao examinar o corpo, Burt percebe que o menino já estava morto antes do impacto e carrega consigo uma caixa contendo um crucifixo macabro feito de espigas de milho. Decididos a relatar o ocorrido à polícia, o casal chega a Gatling, apenas para encontrar uma cidade completamente fantasma, com comércios congelados no tempo e preços de décadas anteriores. Enquanto Vicky quer apenas fugir, Burt decide investigar o local em busca de autoridades.

Em sua busca, Burt explora uma igreja batista abandonada e encontra registros infantis que revelam um padrão macabro: o limite de idade para a permanência na comunidade é de 19 anos, sugerindo que as crianças eliminaram todos os adultos da cidade. A atmosfera de horror se intensifica quando a buzina do carro ecoa e Vicky é capturada pelas crianças da seita, que utilizam ferramentas agrícolas como armas. Burt consegue escapar momentaneamente, refugiando-se no vasto milharal. Ao correr por entre as fileiras, percebe anomalias perturbadoras, como a ausência total de vento, de insetos e de ervas daninhas, restando apenas um mar de milho perfeito e silencioso. No centro do plantio, descobre o cadáver de Vicky mutilado e transformado em um espantalho grotesco, acompanhado pelos restos mortais do antigo pastor e de um policial. Encurralado por uma entidade sobrenatural oculta sob a terra — um deus da colheita de tons lovecraftianos conhecido como "Aquele que Anda por Trás das Fileiras" —, Burt é morto. No dia seguinte, a liderança infantil liderada pelo jovem vidente Isaac recebe um novo decreto da entidade: a idade limite para o sacrifício é reduzida para 18 anos, selando o destino de mais um jovem da comunidade.

Apesar de ter apenas cerca de 33 páginas, o conto gerou nove adaptações cinematográficas ao longo dos anos. O primeiro filme, o mais famoso, altera diversos elementos da obra original para expandir a narrativa, conferindo maior protagonismo a Isaac — interpretado por um ator adulto com uma condição que lhe conferia traços infantis, gerando um visual extremamente macabro — e mostrando os eventos em paralelo, além de incluir novos personagens e um final mais próximo dos padrões hollywoodianos dos anos 80.

Em uma análise crítica da obra, percebe-se que o conto carrega marcas registradas da escrita de Stephen King, como a autenticidade e a facilidade em reconhecer seu estilo. No entanto, o texto também evidencia algumas fragilidades recorrentes na bibliografia do autor, especialmente a tendência a tratar temas complexos de forma caricata e superficial. Influenciado pelo contexto histórico do culto de Charles Manson, King constrói uma crítica ao fanatismo religioso ambientada no *Bible Belt* americano que, embora funcional para o suspense, por vezes reduz os habitantes a clichês de ignorância. Sendo um escritor extremamente prolífico e escrevendo intensamente em diversos períodos de sua vida, algumas de suas obras carecem de um aprofundamento sociológico ou histórico mais rigoroso, algo que ele viria a refinar em livros posteriores como *Novembro de 1963*. Apesar dessas ressalvas, *As Crianças do Milharal* permanece como um conto altamente recomendado e um dos destaques da coletânea *Sombras da Noite*.