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ANÁLISE DA ESTRUTURA de [Alice no País das Maravilhas] ••• Lucas Rosalem

Análise da Estrutura de Alice no País das Maravilhas

A análise estrutural da obra *Alice no País das Maravilhas* revela características marcantes do estilo de escrita de Lewis Carroll que refletem tanto o contexto histórico de sua produção quanto os recursos disponíveis na época. Escrito no século XIX, o livro precede a vasta literatura contemporânea de técnicas de escrita criativa e manuais de narrativa, o que exige certa compreensão em relação a escolhas que hoje podem parecer ultrapassadas, como o hábito de contar em vez de mostrar (*tell, don't show*). Embora o ideal moderno seja subestimar menos a inteligência do leitor por meio de ações e subtextos, Carroll escrevia para o público infantil e de maneira improvisada, assemelhando-se a um adulto entretendo uma criança com perguntas sucessivas do tipo "e agora, o que aconteceu?".

Um dos pontos estruturais mais evidentes na obra é o distanciamento entre o enredo central e a construção do universo (*world-building*). O livro não se sustenta em um arco tradicional de conflito e desenvolvimento de trama — onde o protagonista busca um objetivo claro e enfrenta obstáculos diretos —, mas sim em uma sucessão episódica de cenas. Alice chega a um local inusitado, depara-se com um problema sem sentido, interage com um personagem excêntrico que lhe conta histórias ou canta músicas, aprende algo novo sobre aquele universo fantástico e, em seguida, é impelida a se mover para o próximo cenário. Cada mini-arco funciona de forma autônoma, guiado pela lógica nonsense e pela curiosidade infantil, tendo como único elemento unificador a própria protagonista.

Outro aspecto relevante da análise diz respeito às figuras do narrador e do narratário. O narrador não se confunde com o autor, sendo um construto literário que deve ser pensado estrategicamente como um personagem. Da mesma forma, o narratário representa o leitor ideal concebido para a história. No entanto, o estilo de diálogo direto com o leitor adotado na obra — que remete ao tom encontrado em autores como Machado de Assis — é considerado por muitos leitores contemporâneos como um recurso cansativo e pouco funcional para os padrões atuais, a menos que haja uma forte justificativa narrativa.

Além da estrutura macro, a escrita de Carroll apresenta um uso intensivo de adjetivos e advérbios de modo (especialmente os terminados em "-mente"), um traço que enfraquece a força expressiva do texto. Em vez de confiar em atalhos descritivos que qualificam o estado emocional ou as ações dos personagens de forma redundante — como descrever um coelho correndo "vagarosamente" e olhando "ansiosamente" para trás, ou mencionar um riso "audível" —, a literatura ganha muito mais potência quando a própria ação e os diálogos revelam o tom e o sentimento, dispensando qualificadores óbvios que poluem a fluidez da leitura.

💡 Sugestões e Dicas

  • Prefira mostrar em vez de contar (*show, don't tell*), permitindo que as ações e os diálogos revelem a inteligência, o caráter e as emoções dos personagens sem recorrer a explicações expositivas, a menos que o público-alvo sejam crianças.
  • Utilize a estrutura de bloqueio criativo baseada em três perguntas fundamentais para desenhar qualquer trama: quem é o protagonista, o que acontece com ele para movê-lo à ação, e o que o impede de alcançar o seu objetivo (o conflito).
  • Pense estrategicamente na construção do seu narrador e do seu narratário, tratando-os como elementos essenciais da arquitetura da história, mesmo sem exibi-los de forma explícita.
  • Evite o uso excessivo de adjetivos e advérbios de modo (especialmente os terminados em "-mente") como atalhos descritivos; substitua-os por falas fortes, contextos claros e ações que transmitam o tom exato da cena sem redundâncias.
  • Revise o seu texto buscando todas as palavras terminadas em "-mente" e questione a real necessidade de cada uma delas, reformulando as frases para que a narrativa flua de maneira mais orgânica e vigorosa.