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Os fantasmas da casa da rua de cima [Conto da Victoria] – DESAFIO DE ESCRITA

Análise do Conto Os Fantasmas da Casa da Rua de Cima

Neste vídeo, os apresentadores analisam e discutem o conto "Os fantasmas da casa da rua de cima", escrito por uma aluna chamada Vitória, destacando seus pontos fortes, escolhas narrativas e estilo bem-humorado.

O texto da Vitória chama-se "Os fantasmas da casa da rua de cima". Tem muita coisa da casa da rua de cima, sim. Tem até que ver se no Notion está lá o título, porque o arquivo que foi mandado para o grupo estava sem título; depois você dá uma olhada lá, Mateus. Sim, está no Notion, está com o título. Ah, que ótimo!

O que é esse conto, então? Gente, basicamente é uma moça… Acho que a gente… Como é que a gente analisa isso aqui? Fala em ordem cronológica ou já faz um resuminho aqui? O que você acha? Um resumo já, um resumo assim para começar. Aqui ela trapaceou, né? Porque não era para ser em terceira pessoa, mas faz parte do outro desafio. Mas a gente também está analisando muito depois, então é bem importante. Já era, né? Era para ser em segunda pessoa, e a Vitória escreveu em terceira. Foi em terceira ou foi em primeira? Terceira? Não, foi primeira, olhem só, minha gente! A narradora é a personagem principal. Por que será que ela fez isso, cara? Por que será que ela fez em primeira pessoa? Só tinha uma regra: "Escreva um conto em segunda pessoa", aí ela vai e faz em primeira. Não entendi! Eu acho que ela já tinha esse conto escrito, aí ela resolveu enviar só para, cara, para você não encher mais o saco dela lá no grupo. Sacanagem, né? Só tinha uma regra, e ela não fez a regra.

Mas só que, ó, o conto é engraçado para caramba. São três, não, quatro páginas, estou lendo aqui. Compensa muito vocês lerem, tá? Achei muito divertido. Ela usa uma regra americana aqui para pontuar a fala, o diálogo, que é colocar aspas em vez de colocar travessão. Tipo assim, ó: vou colocar aqui só um exemplinho para vocês, só para ficar… A primeira frase… É a primeira frase, esta aqui do conto: "Faltou uma vírgula ali, né? Boa noite, o senhor poderia me ver um vinho?", disse o… "Disse" é o garçom, tá? E eu achei já ótima a primeira frase, mas ela acaba não seguindo a regra que ela mesma colocou aí. Não é a regra, né, que é não dizer quem disse ao garçom? Adorei isso que ela falou assim: "disse fulana ao garçom". Ela só colocou "disse ao garçom". É claro que ela nem precisava dizer que isso foi dito ao garçom, porque ela pediu um vinho, então você já imagina que foi para alguém que teria esse papel de trazer o vinho. Mas não colocar "quem disse", eu achei bom, só que depois ela acaba abandonando isso aí e fica falando quem está falando.

Por que eu achei bom? Porque é uma regrinha… Não tem regra, tá? Sempre quando a gente fala "regra", é mais dica, assim, é uma sugestão de escrita, dependendo… Só vai se encaixar dependendo da proposta também. Mas, assim, quando você tem um diálogo entre duas pessoas, não tem necessidade de você ficar falando "disse fulano", "disse fulana", "disse fulano", "respondeu fulana". É mais fácil você construir de um jeito que, quando um fala, você já sabe que é o outro que vai responder. Não é verdade? Você não precisa pensar muito nisso. Se o primeiro cara falou uma coisa e é um diálogo entre duas pessoas, é o outro que vai responder, e vai ficar nesse vai e vem assim, a não ser que você tenha uma pausa e aquele que falou por último volte a falar de novo, né? E aí você tem que pontuar quem é que está falando. Mas de repente, pelo assunto, quem falou ali você já sabe. Nesse diálogo aqui, por exemplo, não tem nenhuma frase dúbia para mim. Todas as frases ela podia deixar sem colocar "perguntou não sei quem", "respondeu não sei quem", né? Mas enfim. A primeira frase é boa, ela não coloca nada, não diz nome, não fala nada, enfim.

Mas é basicamente o seguinte, gente: começa uma conversa aqui entre duas mulheres, e uma delas era meio pobretona assim, e ela está esbanjando, gastando dinheiro ali. A moça pergunta se ela recebeu alguma herança, alguma coisa, e ela vai contar uma história. E é uma história muito… Tem uma quebra de expectativa assim, né? Acho que tem que ser em ordem cronológica mesmo, cara. Esta mulher pede um vinho para o garçom, e ela pede um vinho caro. É engraçado que a outra moça que está com ela, ela olha lá na lista e pede um vinho mais barato, com vergonha. Ela até fala isso, que aí ela tampa a boca assim, né: "Você não quer pedir este outro vinho aqui, que é mais barato?". E a outra falou: "Não, vamos pegar este caro mesmo". Ela pega o vinho caro, né? Acho que aqui já começa, inclusive… Deixa eu ver aqui no texto. Ah, que ela vai falar… Cadê? "Quem morreu?", para você pedir um vinho caro, né? "Quem morreu?", perguntou ela. Não precisava, né? Aí ela fala: "Como é?", respondeu confusa. Não precisava, né? Mas ela pôs ali. Às vezes pode ser um charme do texto isso também, né? Mas, quando eu vejo isso aqui, eu já acho desnecessário. Vamos ver, não vamos quebrar o pau eu e o Panda na próxima live sobre essas coisas aí, tá?

Deixa eu ver. E ela começa a descrever, então, né, que não tinha nada… Ah, não, peraí, antes tem uma coisa aqui: uma descrição de pobre muito boa. A Vitória faz uma descrição aqui no conto do que é ser pobre, tá? Como que ela faz isso? Ela diz que a protagonista aqui, por exemplo, quando ela ia em algum restaurante, alguma coisa assim, para não ter que pagar a bebida, mas com sede, comendo alguma coisa, o que que ela fazia? Ela dava uma disfarçada, falava que ia no banheiro… Você lembra disso aí, o Lisboa? E ela ia lá e tomava água da torneira do banheiro. Essa é uma boa descrição do que é ser pobre: para não precisar pagar a bebida, ela tomava água da torneira. Eita!

Mas as duas aqui… A impressão que me passa é que elas são iguais à Rochelle, a mãe do Chris. Todo mundo é o pobre soberbo, né? Uhum. Porque que pobre que vai no restaurante beber vinho? Mas é o pobre soberbo, entendeu? E era meio constante isso, para ela não beber vinho exatamente, mas em restaurantes, né? Uhum. Ao ponto dela ter que ficar bebendo água escondida na torneira, né? Então quer dizer que ela fazia isso com alguma regularidade. Não me espanta que ela tenha escolhido, inclusive, um imóvel meio badalado da cidade… Badalado, talvez? É que ela começa a contar o o que aconteceu. Ela falou: "Não, eu não tenho… Não é herança, não foi nada disso, não foi uma coisa que caiu do céu na minha vida, fui eu que conquistei", ela fala, né? Isso aqui também é bem Rochelle: "Meu marido tem dois empregos, eu não preciso disso", ela fala, né? De qualquer modo, ela comprou a casa, mas ela financiou, fez todo um negócio com… Tipo, ela fala ali, né: "Ah, já fiz empréstimo no banco e tal". Mas ainda assim não é como se ela tivesse pago à vista, entendeu?

Claro, claro, até porque ela ainda era pobre quando ela foi atrás da casa. Exato, exatamente. Mas ela foi atrás dessa casa aí, só que eu acho assim, ó: ela podia ter usado esse lance do imóvel aí, que tinha história… Ela fala que é um imóvel que tinha história na cidade, não lembro como é que ela diz isso, vou até olhar aqui para não falar bobeira. "Dizem que é assombrado." Não, mas ela fala de outro jeito, ela fala assim, ó: "Comecei contando da minha mudança a um imóvel que tinha história na cidade". Daí a mulher responde assim: "Ah, a casa da mulher que se matou e tal, dizem que é assombrado". É isso aí mesmo. Então, parece que esse lugar era conhecido, mas nem tanto assim, ao ponto de uma ter que comentar com a outra, né? "Ah, aquela lá é história antiga, também." Pode ser uma história antiga, tal, mas eu achei que ela perdeu uma oportunidade aqui, porque ela podia ou usar esse imóvel numa questão mimética, dela querer subir e tal… Não, ela… O que que ela quer? Ela quer ser reconhecida, então ela vai atrás de um imóvel que o pessoal conhece, alguma coisa assim, não porque é assombrado, mas é um imóvel conhecido: "Eu vou comprar aquele imóvel lá, vou pagar a minha vida inteira esse negócio que eu não tenho dinheiro, mas vou financiar isso aí". Ela podia usar isso aí para mostrar essa coisa meio Rochelle dela, ou ela podia fazer o contrário, ela podia dar uma dica assim, através de uma das duas — provavelmente da outra personagem —, que esse imóvel ela só conseguiu comprar porque ninguém queria comprar, sim, tá ligado? Porque o preço foi lá para baixo, sim, né? Ela podia ter feito isso, né? De repente ela mudou para lá porque ela só… Sim, que é a impressão que eu fiquei, inclusive, de que ela só comprou inclusive porque ele tinha essa história de que era assombrado e tal, e o valor imobiliário estava lá embaixo. Sim, ela só teria condições mesmo de ir para lá, desvalorizou, né? Uhum.

E aí ela conta… Então, ela começa a contar que acontecem uns barulhos na casa e tal. Tem duas coisas ali que acontecem que são o que muda ali… Muda para ela, seria um incidente incitante ou alguma coisa assim, que é quando ela encontra a TV quebrada, que aquilo é irritante, mas não é tanto. Mas o que deixa ela braba mesmo é quando quebra um batom dela lá, um batom caro dela lá. Ela fala até a marca do batom lá. Pobre soberba, exatamente. Ela tinha um batom caro. É o pobre que tem TV cara — não lembro se ela fala sobre isso — e um batom caro, exatamente. E aí, tá, ela… O que que ela resolve fazer? Ela vai a uma sessão espírita, ela chama um… Acho que é isso, não é o médium que vai na casa dela? Eu não lembro agora. Ela chama esse médium para curar a antiga dona. É aí, exatamente, o médium incorpora a antiga dona lá. Elas começam a conversar. Mas assim, é engraçado porque a gente não tem noção se, antes daquilo ali, essa personagem acreditava nas paradas, né? A gente não sabe nada disso, mas ela já vem pressupondo assim, como se fosse natural, ela vai falando naturalmente. Então, há uma quebra logo de cara aqui, porque, quando o cara incorpora a antiga dona da casa, ela já acredita naquilo ali, ela já começa a conversar com o espírito ali que está no cara. Não levou… Isso aqui é curioso, inclusive, podia ter um plot twist no final… Depois a gente comenta o final para a gente chegar lá. Mas eu gostei aqui da ideia, ela tem uma quebra de expectativa nesse momento aqui, ela não se assusta, na verdade ela tem até uma postura bem desafiadora, né? Questionadora e tal, até meio desdenhosa assim, né, com relação ao mundo sobrenatural, esse tipo de coisa assim, pelo menos no que ela conta para gente, pelo menos no que ela conta que ela fez. Podia aparecer alguém lá falando outra coisa, né? O médium lá podia aparecer lá, ou ela podia ser amiga do médium, a outra moça lá, não sei. Mas aquilo que ela narra que ela fez dá a ela uma personalidade bastante racional, bastante cética assim, né? Uhum, porque ela discute com o fantasma ali, com o espírito.

E, tá, eu queria contar pouco assim, mas porque o pessoal podia ler só quatro páginas lá, mas enfim. Mas é aquilo, é um conto… Aquilo que eu trago um pouco, aquilo que o Chesterton fala de trazer o comum para o incomum e de transformar o incomum em comum. E aí acaba… E que é um negócio que meio que culmina naquele gênero de realismo fantástico e tudo mais, que eu curto para caramba. E meio assim, né? Meio que… Sei lá, eu não diria nem isso, eu diria que é mais um negócio Haruki Murakami, sabe? Que traz uns negócios muito malucos assim, porque tem uns absurdos lá que acontecem, mas tipo assim, você fica pensando: "Pô, será que aconteceu mesmo? O que que é isso?", tal. No caso do Murakami, ele vai construindo também, né? Exatamente. E aqui tem uma construção também, mas é uma fantasia sim, que ela traz, realmente. Ela narra uma fantasia de um jeito muito natural. García Márquez, por exemplo, também faz, tem uns negócios assim, a gente vai trazer ele em breve aí para o canal, hein? Realismo fantástico, eu gosto bastante, e bem-humorado. E, assim, quem puder, leiam, e, se vocês curtirem, já corre para assistir "Os Fantasmas se Divertem", e eu acredito que a Vitória deva gostar também, e é um filme que eu acho muito bom.

Ó, tem uma coisa que você comentou, né? Porque acaba ficando engraçado, porque é um negócio bem sério, né? Pô, tem fantasma e tal, quebrando as coisas na casa dela. E assim, realmente, se fosse na vida real, a gente diria que essa personagem, na verdade, ela é bastante superficial, porque ela não vê tanto problema assim em ter fantasma na casa dela, de gente morta. O que ela tem problema mesmo é… Ela ficou estressada com o batom que quebrou e com a televisão que quebrou, né? Mas no conto acaba ficando engraçado para caramba, né? E a gente compra a ideia, justamente, né? É uma… Mas é natural isso daí, é parte da personagem mesmo, ela é uma pobre soberba e que não liga para essas coisas mesmo. Se você consegue imaginar a Rochelle, a mãe do Chris, se indignando, se ela chegar: "Por que você fez isso?", ela falou: "Porque o fantasma mandou eu fazer", ela vai com o chinelo para bater no fantasma. É, exato, exato, exatamente. E isso daí é um negócio que é muito assim, é parte do humor mesmo, né? Essas quebras. Então, é em certa forma até bem tradicional assim, né? A gente imaginar que, poxa, é isso que vai… O relacionamento entre o sobrenatural e o real, assim, é que gera um efeito cômico. Uhum.

E ela constrói do jeito suficiente para isso, né? Você não fica… Não fica faltando nada ali. Só que eu tenho uma crítica ao texto, que é o final, a frase final, porque ela explica por que que ela está rica: que ela fez um acordo com os fantasmas. Eu não vou dizer… A gente não vai dizer o que ela fez. Leia lá, é rapidinho a leitura e compensa, tá? É bem engajado, assim, realmente tem uma sensação de que compensou ler, assim, porque é bem engraçadinho. Agora, a última frase me matou um pouco assim, me quebrou, porque ela fala assim: "Ah, então foi assim que você ficou rica, né?". Aí, ela: "Se você quer ser o novo milionário, é só você achar uma casa assombrada e alguns fantasmas", ela responde assim. Eu achei que assim ficou meio caído, assim, sabe? Não precisava, talvez eu cortaria essas duas últimas frases aqui e tal, ou pensaria em um plot twist, talvez. Ó, porque ela só sabe disso porque ela ficou conversando com o médium, e o cara podia ter enrolado ela lá, sei lá, pô, é um médium, gente, você confia no médium, né? Então, não sei, podia ter uma reviravolta no final, porque ela não ficou rica ainda, ela acabou de fazer o acordo… Não, mas passaram dois meses… Ah, passaram dois meses, e ela ficou rica, caramba! A mulher incorporou o fantasma. Só que eu acho que de alguma forma ela conseguiu habilidades para ela conversar com os fantasmas por conta própria, entendeu? Porque, depois da mulher que morreu, ela ainda entra em contato com os parentes da mulher que morreu, e aí, isso são dois meses que ela está recebendo o dinheiro deles. Então, é tudo… Tudo bem, é verdade, mas são dois meses, são dois aluguéis só, rica ela não ficou. Acho que são vários aluguéis, porque ela não cobra só da mulher, ela cobra… Mas aí você já está falando muito do conto, calma aí, calma aí. Deixa… É muito dinheiro que ela está ganhando, muito dinheiro, entendeu? Mas ela não ficou… Sem contar que não é nem reais. É, então, pô, cara, é porque a Vitória ela sabe alguma coisa aí da escola austríaca e tal. Não, a Vitória… Dá para captar muito da Vitória desse texto aqui, dá. Quem é para bom entendedor, meia palavra basta, né? Então, uma pena que ela não está aqui, cara, a Vitória. Uma pena.