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Adjetivos e Advérbios na Literatura! ••• Feat. Lisbôa

Adjetivos e Advérbios na Literatura com Lisbôa

A conversa aborda conselhos práticos e escolhas estilísticas sobre o uso de adjetivos e advérbios na literatura, discutindo como grandes autores utilizam esses recursos e como eliminá-los ou reavaliá-los no processo de escrita e reescrita.

Aquilo você já leu outras coisas que eu escrevi; quem já leu o *Toring* aí vai saber, eu gosto de descrições, né? Eu gosto de colocar a cor dos olhos, cor do cabelo, essas coisas. Então, tudo isso eu tive que me mutilar. Tudo isso você consegue fazer muito melhor sem adjetivos e advérbios. É um exercício interessante. O Lucas também vive reclamando que eu coloco assim, tipo, ah, ela disse, por exemplo, "secamente", um monte desses advérbios nos diálogos. Isso não pode, isso é proibido, tá? Isso aí é o que separa o Lisboa de, sei lá, Charles Baudelaire, é só isso, tá bom? Mas isso não te separa do Dostoiévski nem do Victor Hugo, hein? Eles gostam do adjetivo também, eles gostam mesmo. Nem do Homero; o Homero gosta, mas o Homero sabe usar.

Mas eles fazem bem, né? Dá para você usar essas coisas e usar bem. A gente tava conversando sobre isso mais cedo, né? Eu e o Panda. Os adjetivos… Eu acho assim, ó, as dicas geralmente de adjetivos em excesso vêm de escritores americanos, e realmente a estrutura da sintaxe inglesa ela atrapalha um pouco a leitura quando você mete um monte de adjetivo. Se você colocar dois adjetivos na mesma frase para o mesmo sujeito, o mesmo objeto, já fica ruim de ler, né? Você tem que pôr, dividir com vírgula ali e tal. Cara, quebra a imersão essas coisinhas assim, qualquer coisa que você suspeite que vai quebrar a imersão na leitura, você já tem que ver se você vai fazer mesmo ou se você pode fazer de outro jeito. Em português não acontece tanto assim; o sujeito já vem antes e aí você faz aquele monte de descrição depois, né? Fulano gordo, chato, burro, feio, melancia… Você põe tudo na frente lá, então você já sabe de quem você tá falando, não atrapalha tanto assim a estrutura, não atrapalha tanto a leitura.

Mas ainda assim, outras dicas de escrita falando de adjetivos e advérbios vão dizer coisas mais interessantes, como, por exemplo, o fato de que muitas vezes que a gente usa um adjetivo ou até um advérbio, eles são totalmente redundantes na frase. Então você põe, por exemplo: "Ela bateu a porta bruscamente". Caramba, mano, se bateu a porta, já tá descrito, você não precisa pôr nada na frente. Ou: "Ela bateu a porta e falou levemente". Não tem como, se ela bateu, foi com força, então você não precisa pôr mais nada, né? "Ela gritou, sei lá, intensamente". Caramba, não precisa dessas coisas, né? Ou então você fala que com adjetivo acontece isso também: você descreve uma coisa e põe um adjetivo que fala a mesma coisa. Então, isso às vezes é um vício de linguagem, você fala de um jeito e quer pôr isso no papel, e às vezes pode ser que você tá subestimando o leitor. Essa redundância às vezes é uma preocupação excessiva sua de fazer o leitor entender o tom, entender a tensão que você quer pôr, mas você não precisa fazer isso, né? É mais legal até do ponto de vista do leitor que ele consiga construir o cenário de certa forma, né? E, enfim, tem vários autores que fazem isso com maestria. Mas o uso, como eu tava falando, não tem regra; na escrita não tem regra. O uso também, às vezes até excessivo, de advérbios ou adjetivos, ele pode construir um parágrafo bom, uma frase boa — o Panda pode falar mais sobre isso.

Enfim, cara, a parada daquelas frases leoninas assim, né, em que você vai botar um adjetivo que suplementa uma frase, uma construção frasal que não precisa dele, às vezes é interessante, entendeu? Mas muito mais quando você quer construir um ritmo, para uma coisa que esquece que, mesmo que se você pronunciar as palavras na sua cabeça — eu não tô falando em voz alta, assim, né, na mente mesmo —, assim mesmo a prosódia ainda existe, entendeu? Então, o ritmo, mesmo que você não tenha tipo um macrorritmo, né, que é um ritmo para a história toda, para o conto todo, para o romance todo, para aquele trecho todo, você pode construir um ritmozinho ali, um ritmo de uma frase para outra, um ritmo de um parágrafo inteiro, ou algo assim, saca?

E aí o uso de adjetivos é muito bem-vindo, porque não é sobre a exatamente a descrição, a precisão, é sobre o degustar do texto, e aí você vai usando adjetivos, ou mesmo advérbios, ou o que quer que seja, repetições mesmo para fazer assonâncias, para fazer aliterações, né, que são, no caso das assonâncias, né, são sequências de ecos vogais, e a aliteração, né, são sequências de ecos consonantes, e você… Tem outro nome ali que eu não lembro qual que é, mas que é para os dois assim, né, que é uma mistura dos dois, e você consegue construir assim…

Outra maneira, por exemplo, de usar adjetivos de maneira boa, que é o que eu tava achando com o Lucas mais cedo, é, por exemplo, não é o único, mas é, por exemplo, a maneira como o Homero usa. Eu tava falando com o Lucas mais cedo que o Homero fica desde o início chamando Aquiles de "rápidos pés": "Aquiles de rápidos pés", "Aquiles, rápidos pés", "Aquiles quem? De rápidos pés", "rápidos pés de quem? Do Aquiles". Ele fica repetindo o tempo todo, né? E aí você, tipo assim, a primeira vez que você tá lendo, você fica se perguntando: "Pô, tá bom, mas por que que ele fica repetindo isso tanto?". E aí, pô, assim, claro que você vê na *Ilíada*… Na *Odisseia*… Mas enfim, você mais tarde descobre na *Odisseia* — ou mesmo hoje em dia já não é impossível não saber —, o Aquiles ele morre por conta de uma flechada no pé. O cara que é de rápidos pés ironicamente morre com uma flechada no pé, ele não consegue fugir da morte, a morte impede ele de correr, literalmente dela, de duas maneiras. Olha que doido! Ele não pode literalmente nem correr — correr assim, andar, nem correr no sentido figurado, que é de escapar da morte. E aí é irônico, né, que o Aquiles, de rápidos pés, morre tão rápido assim.

Outro personagem também da *Ilíada* — que esse, no caso, a gente vê a morte dele na *Ilíada* — é o Heitor: "Heitor, domador de cavalos", "Heitor, senhor de cavalos", o tempo todo. Ele é o melhor cavaleiro no sentido de alguém que tem maestria sobre cavalo na *Ilíada* inteira, ele é o cara do cavalo. Ele não fica só em cavalo, mas quando ele sobe no cavalo, meu irmão, ninguém pega esse cara. Só que ele vai enfrentar o Aquiles, e ele tá correndo — é muito engraçado que ele tá correndo em volta das muralhas de Troia com o Aquiles correndo atrás dele. Só que aí o Homero, narrador, né, diz para gente que, embora o cavalo de Heitor fosse muito rápido e Heitor fosse um excelente mestre de cavalos — o melhor que tinha ali na situação —, o Aquiles… Ele disputa com cavalos! E a gente, nesse caso, a gente não sabe se o Aquiles é mais rápido do que cavalos, se ele é tão rápido quanto, ou se ele consegue aguentar correr tanto tempo quanto, a gente não sabe. O que a gente sabe é que tem uma hora que o Aquiles alcança o cavalo do Heitor, ou porque o cavalo cansou, ou porque o Aquiles é muito rápido, e aí o Heitor tem que brigar com ele, não tem mais como, saca? Então você vê, o cara que é o domador de cavalos, senhor de cavalos, ele, beleza, ok, ele tem uma vantagem muito grande sobre aqueles que não sabem lidar com cavalos e não estão armados de cavalo — mesmo os que estão, mesmo os que estão montados em cavalos, não os superam no combate em montaria. Mas aí é que tá: o Aquiles é superior aos cavalos. E daí, né? Se a gente tem um personagem que é exímio em pontaria e tiro, pô, que show, mas contra o Superman, faz o quê? Irmão, você vai dar um tiro na cara do Superman, velho? Não vai fazer nada, entendeu?

Então, assim, é uma maneira que o Homero… ele fica repetindo para você, ele não mente, ele fica repetindo esses adjetivos, ele te mostra algumas vezes os adjetivos assim, essas ações que os adjetivos atribuem ao personagem, ele mostra os personagens em ação, realizando isso, concretizando isso. Mas ele também consegue fazer viradas assim, viradas de enredo que você não percebe, cara. E a maneira é que, quando o Aquiles assim… Na *Odisseia* é dito que ele morreu com uma flecha no joelho — uma flecha no joelho, não, uma flecha no calcanhar —, não se fala mais "Aquiles de rápidos pés", fica "Aquiles, pelida", "Aquiles, filho de Peleu lá", filho dele, não se fala mais nisso. É como se ele tivesse perdido o título, porque agora ele é manco, pô! Ele desceu para o Hades manco, ele desceu mancando, pô, ele chegou lá embaixo mancando. O Heitor… o Heitor não é mais o cara domador dos cavalos, por quê? Porque ele desceu sem cavalo, cara, ele não tem mais cavalo lá, ele perdeu isso, a guerra tomou desses caras o adjetivo principal deles. Olha a força adjetival da parada, olha o quanto aquilo representa alguma coisa. É um jeito, é um jeito de usá-lo dentro da trama, dentro da estrutura.

Vários autores vão usar isso também, não vou ter tempo de falar aqui, mas autores, por exemplo, como Madame de La Fayette na *Princesa de Clèves*, que é uma obra clássica da literatura francesa do século XVII — os alunos morrem de tédio com ela, e ela é realmente, na primeira leitura, ela é meio tediosa mesmo —, ela fica usando adjetivos o tempo todo assim, e ela sabe usar da maneira homérica, e é magnífico. Magnífico mesmo, assim, é incrível mesmo.

Deixa eu comentar uma coisa sobre isso… Foi pelos adjetivos? Já foi lá, adjetivos, ainda não? Deixa eu comentar uma coisa sobre isso aí. No meu conto, como é que eu fiz, né? Eu fiz meio que já com uma mentalidade de trapassa. Eu não tenho muito problema com advérbios. Cara, toda vez eu esqueço como é que é, advérbio de quê mesmo? Cara, advérbio de negação, não, de modo e intensidade. De intensidade, eu não tenho problemas com tirar advérbios de intensidade e de modo, esses com "mente" no final, e advérbios tipo "muito", "pouco", "quase", "meio". Esses assim, eu geralmente, se eu usar, é porque eu quero usar mesmo. Agora, a gente tinha que tirar todos os advérbios, né? Não tirando os de negação, porque o de negação é "não". Se botar "não" e tirar o "not", fodeu, pera aí, pode deixar. "Nunca" também às vezes é difícil de não pôr, "nunca" também, por isso que eu falei, o de negação, tudo bem. O de negação, então, aí… Mas aí assim, para tirar tudo isso e para tirar todos os adjetivos, como é que eu pensei? Então, com algumas coisas eu não vou ter dificuldade, mas com outras eu vou, só que eu ia descobrir a dificuldade só depois que eu começasse a analisar o conto.

Então eu fiz como se deve fazer — aqui vai, aqui, uma outra dica de escrita: independentemente de você estar numa espécie de desafio mesmo, num concurso, alguma coisa assim, ou não, faça primeiro o texto bruto e depois vá olhando para o texto na reescrita. Se você tentar fazer tudo pronto de primeira, você não vai conseguir sair do lugar, né? Faça então a mágica acontecer na reescrita. Então eu fui tentando compor o texto do jeito que eu já tô acostumado a escrever, e aí, na reescrita, eu comecei a tentar identificar na estrutura ali se eu podia substituir e como é que eu poderia substituir os advérbios restantes e os adjetivos — se bem que os adjetivos são mais fáceis de fazer isso. E aí o que aconteceu é que eu percebi que algumas coisas eram impossíveis, impossíveis de eu deixar do jeito que tinha que ficar, eu não consegui de jeito nenhum pensar num jeito de deixar ali. Por exemplo, quando é advérbio, como é que você muda quando, dependendo da frase? Beleza, cara, algumas frases você não consegue mudar, eu fiquei pensando: "Como é que eu vou fazer isso aqui, cara? Como onde hoje?". Caramba, tem coisa que você não tem como fazer. E o que é que eu fiz? Às vezes eu só cortava, eu tirava fora e via como é que ficava: "Ficou beleza, dá para entender". E às vezes eu tentava, tinha que refazer outra frase, né? E eu percebi que nesses cortes que eu fiz, alguns ficaram muito charmosos. Aí eu vou deixar vocês comentarem depois, vou até sair para vocês comentarem.

Mas alguns dão uma impressão estranha assim, uma outra, uma outra coisa que eu ia comentar aqui, aí é só uma dúvida: vocês acham que em tempos recentes essa questão dos adjetivos servirem como uma descrição dos personagens, ou até como uma forma de colocar mesmo o personagem na história — por exemplo, aqueles dos pés rápidos, o Heitor que era dos cavalos e tal —, foi substituída pelo próprio nome assim dos personagens? Porque tem alguns autores que os personagens acabam fazendo referência… o nome dos personagens acaba fazendo referência a ideias, filosofias de vida, metonímias. É uma figura de linguagem em que você transforma um indivíduo, você substitui um grupo por seu indivíduo, então você tem diversas pessoas que têm rápidos pés como Aquiles, mas a gente bota o nome Aquiles para designar o grupo todo, ele é só uma espécie desse gênero de pessoas que têm rápidos pés. Mas aí você tá trocando, você tá botando ele como o designador do grupo geral, e não o grupo como designador dele. Sim, você pode usar assim, por exemplo, quando fala "Augusto", um rosto augusto, uma parada assim. É assim, você pode usar, você pode usar sim, entendeu?

Mas você acha que na literatura mais recente isso tem ocupado o espaço dos adjetivos pessoais? Cara, eu não sei, não vou saber dizer, não vou saber dizer mesmo. Isso exatamente que você disse, assim, de fazer isso, de transportar alguns adjetivos para o nome do personagem, eu não sei também. Eu falo assim também recente que eu falo é do século XX para cá, tipo assim. Mas assim, é que a minha familiaridade maior é com a literatura americana, e tem esse movimento na literatura americana, pelo menos, de muitos autores, eles acabam pegando o nome e colocam tipo um verbo no gerúndio, e transformam um verbo, e aí vira o nome do personagem. Sim, sim, de ficar, e isso se torna a descrição do personagem, sabe? Se você pega o verbo, que significa o verbo, você vai ver que tem tudo a ver com o que o personagem faz na história inteira. Dá um exemplo aí que você lembra, ou algum? Ah, o Holden, do *O Apanhador no Campo de Centeio*. Holden é de segurar, né? E o Holden tá sempre se segurando ali na infância, ele nunca quer crescer. Ah, então entendi! Ah, interessante, velho, interessante, mano, gostei, gostei, não tinha percebido, porque eu não li. Um amigo meu leu, adorou, amor de paixão, mas eu não li ainda. Não gosto também, é difícil, gostava mais quando eu era mais novo, mas hoje eu ainda leio com carinho. Você teve vontade de matar o John Lennon? Não, não, não, não. Eu tive… meu amigo teve vontade de matar, ele virou para mim e falou que tinha que fazer isso, eu falei que estava bom. Eu só… Eu só desliguei o rádio algumas vezes quando os meus parentes deixavam tocando em FM, né, mas fora isso, só alguma vez. Aquela música é muito chata.