A Morte de Kuadê, o Sol – Mitologia Ameríndia

( Mito Juruna )
O Sol, em tempos antigos, não morava no céu. Ele se chamava Kuadê e vivia na Terra, em uma aldeia distante; tinha mulher e três filhos. Poucos sabiam onde ficava a morada do Sol, mas os Juruna sabiam. Bem próximo à casa de Kuadê havia uma armadilha que ele armara para caçar: era um buraco na pedra, que sempre estava cheio de água. Quando qualquer animal enfiava a cabeça no buraco, para beber água, ficava preso e não conseguia escapar. Diariamente o Sol ia verificar a armadilha, matava os bichos aprisionados com sua borduna – um grande porrete que tinha vida própria – então levava a caça para casa. Certo dia, um rapaz Juruna foi passear para aqueles lados. Ele viu o buraco, mas não sabia que era uma armadilha: estava com sede e, quando colocou a mão lá dentro para pegar água e beber, ficou com o braço preso no buraco. O tempo passou, e o Sol foi até lá para buscar a caça. O Juruna percebeu que alguém se aproximava e ficou deitado, imóvel, fingindo-se de morto. Estava com tanto medo que até mesmo seu coração parou! Kuadê chegou, viu o corpo caído e foi procurar sinais de que ele havia morrido: como o Juruna não respirava e seu coração não parecia bater, soltou-o do buraco e colocou-o em um grande cesto, para levar embora. Antes de ir, querendo verificar se o rapaz estava morto mesmo, jogou dentro do cesto muitas formigas. O Juruna aguentou as picadas sem se mexer, porém, quando as formigas picaram seus olhos acabou se movendo. Kuadê não viu, mas sua borduna percebeu o movimento e quis ataca-lo. O Sol, entretanto, disse à borduna que o moço estava morto e que o deixasse em paz. Ao chegar em casa, Kuadê pendurou o cesto numa árvore e o deixou lá. Veio a noite, e apenas no dia seguinte o dono da casa mandou um de seus filhos ir buscar o corpo. Mas o filho do Sol não encontrou ninguém no cesto: o rapaz havia fugido durante a madrugada! Assim que ficou sabendo disso, o Sol atirou sua borduna em busca do fugitivo. A borduna saiu voando e logo encontrou vários animais, mas nenhum deles era o que o Sol queria. Depois de muita procura, acabaram encontrando o Juruna escondido na raiz oca de uma árvore. A borduna começou a bater na árvore, porém o rapaz não saía de dentro do oco. Depois ela cortou uma vara e começou a enfiar pelas frestas do tronco; mesmo assim, apesar de ficar todo machucado, o Juruna não saiu. O Sol viu aquilo e, como já estava anoitecendo, tapou todas as aberturas da raiz com pedras, prendendo o outro lá dentro, e disse: – “Amanhã voltamos para acabar com ele.” A noite caiu e vários animais se aproximaram da árvore: antas, porcos, veados, macacos, pacas, cutias… Queriam ajudar o rapaz a escapar, e todos ouviram o Juruna pedir: – “Cavem perto da raiz, para me soltar!” Os bichos começaram a cavar, mas estava difícil. Por fim, a anta abriu um buraco maior e o Juruno conseguiu colocar a cabeça para fora. Então eles cavaram mais ao redor e afinal ele ficou livre! Tratou de fugir dali. O dia nasceu, e o Sol lá se foi, com sua borduna, para captura-lo. E, outra vez, ficou furioso, pois a presa lhe havia escapado. A essa altura, o rapaz tinha voltado à aldeia Juruna e contado para sua mãe e todos os parentes o que havia lhe acontecido. Porém, poucos dias depois ele resolveu deixar a aldeia de novo, para colher cocos na mata. Embora a mãe lhe pedisse para não ir, pois poderia ser morto pelo Sol, ele teimou e foi. Para não ser reconhecido por Kuadê, cortou os cabelos e fez uma pintura de jenipapo, ficando bem diferente. Mata adentro, logo encontrou uma palmeira de inajá e nela subiu para pegar os cocos lá no alto. Foi então que o Sol apareceu. Primeiro, ele pensou que era um macaco lá no alto, mas não demorou para reconhecer o Juruna. E disse: – “Desça daí! Você me escapou do outro dia, mas hoje vai morrer. – “Não sou quem você pensa” – respondeu o rapaz – “, dou outra pessoa.” Kuadê não se deixou enganar. – “É você mesmo. Desça daí, vou matar você.” O Juruna não podia ficar lá no alto a vida toda. Então, propôs: – “Vou descer, mas primeiro tenho de jogar para baixo este cacho de cocos.” – “Joga” – respondeu o Sol. O rapaz jogou um cacho cheinho de cocos, e o Sol o apanhou. – “Pega mais um…” – pediu o moço, lá de cima. E atirou um cacho tão grande e pesado que, ao cair no peito de Kuadê, os cocos o derrubaram e o mataram. Na mesma hora, a borduna, que estava ali ao lado, saiu correndo e se transformou numa cobra, a salamandra, que também se chama uandaré-borduna-do-sol. Na mesma hora, tudo ficou escuro. Do corpo morto de Kuadê começou a escorrer sangue, que foi se transformando em bichos venenosos: aranhas, lacraias, formigas, cobras. Eram muitos, e todos eles foram cercando a palmeira, querendo envenenar o Juruna. Vendo que não conseguiria descer da palmeira, ele resolveu fazer como os macacos: foi pulando de árvore em árvore, de galho em galho, até que se viu livre dos bichos venenosos. Então desceu ao chão e correu para casa. Ao chegar lá, contou para sua mãe; – “Eu matei o Sol.” A mãe do Juruna ficou muito zangada, pois agora haveria apenas escuridão e, sem o Sol, como todos iriam viver? E isso aconteceu: sem a luz solar, as pessoas não conseguiam mais caçar, pescar, plantar. As crianças Juruna começaram a morrer. Na aldeia do Sol, a mulher de Kuadê logo percebeu que seu marido havia morrido. Até seus filhos iriam passar fome, sem a luz do Sol! Então, ela lhes perguntou: – “um de vocês tem de tomar o lugar de seu pai. Quem vai fazer isso?” O filho mais velho quis experimentar. A mãe colocou sobre sua cabeça o cocar com penas do Sol, e ele tentou subir para o céu. Mas o penacho do cocar era muito quente, e o filho do Sol não aguentou o calor; acabou descendo antes mesmo de amanhecer. A mãe então entregou o cocar ao filho do meio. Este subiu aos céus e chegou um pouco mais longe que o irmão, mas mesmo assim o calor era demais e ele voltou. Restava apenas o filho mais novo. A mãe colocou o penacho do Sol sobre sua cabeça, e ele se esforçou para iluminar o dia. Mas como o calor era forte demais, foi correndo, para que o passeio acabasse logo e ele pudesse descer. E a mãe lhe disse: – “ Você aguentou bem, mas deve andar mais devagar. Todos precisam da claridade para trabalhar, pescar, caçar. Quando estiver bem no alto, é bom parar um pouco para descansar. Assim o filho de Kuadê fez, E não desceu quando a noite chegou. Disse à mãe: – “Agora não posso mais voltar. Vou morar aqui no alto para sempre.” A mãe chorou, com saudades do filho, mas não havia mais jeito: desde aquele dia ele está no lugar de seu pai, Kuadê, e foi então que o Sol passou a morar no céu.

POVO JURUNA:  São incontáveis os grupos tribais que habitaram e habitam a América do Sul. Os Yudjá, Yuruna ou Juruna são uma nação pertencente ao tronco linguístico Tupi. Foram um dos povos nativos brasileiros mais atingidos por invasões de terras e conflitos com seringueiros. Remanescentes desse povo vivem no Mato Grosso, no médio e baixo Xingu, e acredita-se que haja membros da etnia no sudeste do Pará. O mito aqui narrado foi recolhido pelos irmãos Villas Boas, e fala do surgimento do Sol como ele é hoje. Consta que muitos dos elementos da cultura dos Yudjá ou Juruna estavam ligados à figura do xamã – como as relações com os astros, o mundo dos mortos, as curas, os remédios. Parece que, infelizmente, eles não possuem mais xamãs, desde que o último deles morreu.