Para introduzir a discussão sobre o clássico de William Shakespeare, os apresentadores começam fazendo um paralelo bem-humorado entre a clássica história de amor proibido e a realidade de um baile funk de favela, comparando os clãs rivais a facções e o final trágico a um acerto de contas. A partir daí, o bate-papo envereda por uma análise detalhada da peça original, destrinchando o primeiro ato, o uso estratégico dos spoilers no prólogo e as diversas referências bíblicas e culturais presentes no texto.
Faz um resumo aí pra gente de Romeu e Julieta, o resumo bom mesmo, aquele resumo bom lá. Vamos lá, Romeu e Julieta. Era uma vez um cara que estava triste porque estava dando em cima de uma menina, mas a menina era muito religiosa, não dava bola para ele e ele ficou em depressão, emo, sabe? Ela era evangélica do morro, daquelas bem fechadas, que não liberavam nada, e aí não dava para o menino e ele ficou muito triste. Aí chegou um amigo dele e falou: "Cara, para com isso. Vamos numa festa lá, vai ter um monte de mulher bonita, vou te mostrar que tem alguém muito mais bonita do que essa aí que você gosta." Ele falou: "Duvido que tenha, mas eu vou. Bora."
Foram na festa lá no morro, num baile funk que era na casa de um cara rico, uma mansão com piscina e tudo mais. O dono da casa avisou que as meninas estavam lá no meio dançando, e esse rapaz que entrou na festa olhou para uma menina e pensou: "Caraca, que menina, hein?" Ele ficou um tempo sem saber o que fazer, foi lá e mandou uma cantada. Ela resistiu um pouquinho, ele insistiu, deu uma virada, ela resistiu de novo, e ele foi lá e meteu um beijo nela. Ela achou ousado e gostou, aí ele deu outra investida e beijou de novo. Só que ele descobriu que ela era filha do dono daquela boca de fumo, que era inimiga da outra boca da mesma favela, e ele era filho do chefe rival. Deu muito problema.
O amigo dele acabou morrendo lutando contra o primo da menina, e esse rapaz, vingando o amigo, matou o primo dela. Antes disso, eles já tinham se casado, porque as meninas da favela não brincam, pelo menos essa não. Por causa disso, ele foi banido da favela pelo chefão da milícia, que é quem realmente mandava no lugar. A menina ficou desesperada, ameaçou se matar, mas o pastor evangélico do morro disse: "Não faça isso, minha filha, calma que eu vou te dar uma droga da boa. Você vai tomar isso aqui, vai parecer que morreu, mas não morreu, e a gente vai fazer um plano para você fugir com o moleque e ficar casada com ele."
O rapaz recebeu a notícia de que ela havia morrido, pois o WhatsApp não chegou — deu um apagão e a mensagem do pastor não foi entregue. Tudo o que ele ouviu na rua foi que a menina tinha morrido, então ele foi ao cemitério visitá-la. Chegando lá, acabou matando outro cara que também gostava dela. Ele tinha tomado uma droga muito forte antes, um veneno poderoso, e tomou aquilo ali do lado dela. Três segundos depois, morreu. A menina acordou, viu ele morto, tentou tomar o resto do veneno, mas não tinha mais, então pegou a arma dele, deu um tiro no coração e morreu também.
Os dois pais traficantes e o miliciano chegaram lá para ver o que tinha acontecido e arquitetar a situação. Eles descobriram tudo e os dois traficantes decidiram fazer as pazes: "Quer saber? Vamos ficar de boa, porque isso aí não dá, perdi minha filha, tu perdeu teu filho, é uma merda." Eles se uniram e as duas famílias ficaram muito bem. Essa é a história do casal RJ: MC Romeu e Novinha Julieta. Esse resumo surgiu porque eu fiz essa piada no WhatsApp com o Lucas do Canal RJ, resumindo tudo em três frases. Ele achou muito engraçado e quis que eu resumisse aqui, mas não tinha como ser tão curto.
Para quem não leu — e podem sinalizar aí nos comentários —, Romeu e Julieta não é um livro em prosa comum, é uma peça de teatro. Isso dificulta a leitura para quem está acostumado com romances, porque você se depara com um grande diálogo acompanhado apenas de indicações de cenário, de quem entra e quem sai. Isso deixa alguns leitores um pouco perturbados ou irritados no início, demorando um pouco para pegar o jeito, mas o livro é bem pequenininho e eu recomendo a leitura. A minha edição é bem estranha, capa dura, mas não tem nem nome na capa, só tem o desenho de uma rosa e o título.
A obra começa com um prólogo, escrito pelo próprio Shakespeare. Nele, o autor já dá todos os spoilers possíveis sobre o que vai acontecer na peça inteira, dizendo quem vai morrer e antecipando o enredo. Antigamente, na sessão da tarde, os filmes também faziam isso na sinopse, sem medo de spoiler. Mas a diferença é que, enquanto estúdios modernos evitam spoilers para não estragar a surpresa, Shakespeare dá spoiler porque sabe que, mesmo sabendo o final, o espectador vai continuar torcendo pelos protagonistas. Eu mesmo já li a peça várias vezes e sempre torço para que eles não morram, criando a ilusão de que desta vez será diferente.
No prólogo, ele diz que há duas famílias de igual importância naquela cidade, marcadas por antigos rancores que geram contínuos problemas — e não são problemas pequenos, são mortes mesmo, com pessoas se encontrando na rua e se enfiando espada. É curioso que até os criados dessas famílias compram a briga dos patrões e andam pela rua loucos para enfiar a espada num vagabundo da facção rival. O prólogo resume: "Da entranha fatal desses dois inimigos ganharam vida, sob a diversa estrela, dois amores, cuja desventura e lastimoso fim enterram com sua morte a constante sanha dos seus pais."
Ele já anuncia toda a premissa e chama a relação de "amor mortal". Isso é muito significativo para o que vamos discutir depois, já que colocamos a foto do historiador Leandro Karnal na miniatura do vídeo para reagir a um material dele no final. Para mim, a tese central de Shakespeare nesse livro é justamente a obstinação do ódio familiar, que somente a morte dos filhos poderia acalmar. Embora a história seja sobre Romeu e Julieta, o "amor mortal" (o amor marcado e condenado à morte) é o veículo necessário para que essa briga seja resolvida e a paz seja recuperada entre as duas famílias.
O primeiro ato, portanto, não começa com Romeu nem com Julieta, mas mostrando o pano de fundo da treta através dos criados. Aparecem dois capangas, Sansão e Gregório — criados dos Capuleto —, já entrando em cena com espada e escudo. O nome Sansão já traz uma referência bíblica, chamando as mulheres de "vasos frágeis", mostrando que a peça é repleta de alusões que os cristãos reconhecem facilmente. Eles começam falando sobre como gostariam de esfaquear os Monteéquios na rua à toa. Logo aparecem dois Monteéquios, a provocação escala e eles entram em luta corporal.
Em seguida surge Teobaldo, um personagem brabo e pavio curto, também dos Capuleto, que entra na briga para engrossar o caldo. A função dessa cena toda é justamente mostrar a grandiosidade da rixa antes de apresentar Romeu e Julieta. O autor constrói a narrativa de forma que a rivalidade não seja apenas um pano de fundo abstrato, mas algo visceral, demonstrado pelos criados que andam pela rua fantasiando esfaquear uns aos outros. Só assim se justifica a tragédia que virá depois.