A teoria aristotélica da narrativa, tal como desdobrada na “Poética”, estabelece uma hierarquia rigorosa entre os elementos constitutivos de uma obra de ficção, colocando a construção dramática — a fábula ou enredo — no vértice da criação, acima inclusive da caracterização psicológica dos personagens. Esse argumento, longe de constituir um dogmatismo arbitrário, fundamenta-se na compreensão de que a ação humana é o veículo primaz pelo qual a literatura atinge sua finalidade última: a catarse. Para o escritor dedicado ao *craft* da narrativa, essa premissa desmonta a falácia contemporânea de que personagens complexos, dotados de extensas listas de atributos biográficos e psicológicos, sustentam uma história por si sós. Aristóteles demonstra que um personagem só ganha relevância literária na exata medida em que é tracionado por dilemas intransponíveis e por uma cadeia causal de eventos que tornam sua mudança de rumo verossímil e necessária. O enredo não é a mera soma de acontecimentos fortuitos; ele exige uma estrutura rigorosa onde o começo, o meio e o fim se articulam de tal modo que a supressão ou alteração de qualquer parte desmorona o todo. Essa organicidade ensina ao escritor que a tensão dramática não decorre de arroubos emocionais gratuitos ou de reviravoltas tiradas do nada, mas da preparação meticulosa de indícios e consequências. Quando o autor subordina a psicologia à mecânica da ação, ele impede que a narrativa caia no solipsismo de personagens estáticos que conversam sobre si mesmos sem que nada de transformador ocorra no mundo da história. A tragédia e a grande ficção operam no limiar da vida e da morte, exigindo que o que está em jogo — o *enjeu* — seja suficientemente grave para mobilizar o leitor em um nível visceral. A arquitetura da obra literária, portanto, exige que o escritor domine a arte de atar e desatar nós argumentativos, garantindo que a imprevisibilidade da trama nasça da lógica interna dos fatos e não de trapaças narrativas que violem o pacto de leitura.
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Extraído da live: "A Poética" de Aristóteles – Parte 2 (LIVE)