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Fato & Ficção (e Fato na Ficção) ••• Panda

Fato e Ficção: A Natureza da Linguagem na Literatura

A literatura e a natureza da ficção são o tema central desta reflexão, que aborda as diferenças fundamentais entre a linguagem factual e a linguagem ficcional com base nas ideias de um filósofo contemporuâneo.

Estou estudando nestes dias um livro de um filósofo contemporâneo nosso, que está com 91 anos — provavelmente vai bater as botas daqui a dois ou três anos, mas está vivo, escrevendo, trabalhando, o velho não descansa. Ele tem um livro, publicado se não me engano nos anos 80 ou 90, em que fala, entre várias coisas, sobre a natureza da ficção. Pensando primeiramente na literatura, mas na ficção em geral, ele tenta nos trazer o que é a literatura. Para fazer isso, ele primeiro diferencia a linguagem ficcional da linguagem factual.

Ele define a linguagem factual como extra-referencial, uma linguagem cujo sentido é intencionalmente vertical. A linguagem factual busca falar sobre fatos, sobre coisas factuais. Mas por que vertical? Porque, quando ela vai para cima, ela está falando de fatos, de elementos factuais aos quais todos temos acesso através dos sentidos. Por exemplo, se eu digo que em certos documentos históricos consta que Napoleão foi derrotado no dia 18 do mês de novembro — que se chamava na época 18 Brumário na França, pois era a estação das brumas e substituíram novembro por Brumário —, e que ele foi derrotado na Batalha de Waterloo, essa foi a primeira grande derrota dele que entrou para a história. Todos nós, se falamos francês ou conseguimos ler uma tradução, se somos alfabetizados, conseguimos com os nossos próprios olhos ler e ver: Napoleão foi derrotado. Temos acesso aos primeiros registros e às fontes primárias através dos sentidos.

Outro exemplo seria quando um artigo científico antigo diz que a mistura fervente entre óleo e água é explosiva. Não faça isso por favor, mas se você pegar óleo em casa, esquentar e jogar água, vai estourar, talvez você se machuque um pouquinho. Não faça isso, não mexa com isso se não sabe cozinhar! Mas beleza, esses seriam fatos alcançados por um discurso que busca seguir o caminho vertical para cima.

E para baixo? Para baixo seriam justamente aqueles fatos subjetivos. Por exemplo, quando um tratado filosófico diz que os adultos passam por sofrimento, isso é certo, mas não há nada nos nossos sentidos que nos indique claramente que as pessoas passam por sofrimento. Talvez para outra espécie senciente que não fosse humana não fosse possível saber, mas nós sabemos internamente. Então, existem fatos que são de conhecimento interno. Beleza, essa é a linguagem factual com a sua dimensão vertical.

Enquanto a linguagem factual segue um caminho intencionalmente vertical — e você pode errar, tentando falar sobre algo objetivo que não existe, ou sobre algo subjetivo cuja descrição não tem a amplitude que você afirmou, mas ainda assim, se a intenção é essa, trata-se de linguagem factual, embora possa não estar em coerência com os fatos —, existe também a linguagem horizontal, que é a linguagem ficcional.

A linguagem horizontal é redundante, auto-referencial, circular; ela atém-se a si mesma. Na linguagem ficcional, as linhas que você está lendo buscam explicar linhas anteriores ou seguintes. Você está lendo sobre um personagem que ainda não foi apresentado por inteiro, cujas características que o descrevem melhor ainda não apareceram. É como se ele ainda não existisse para você; ele só existe nas linhas seguintes, na continuação da leitura. Se você está lendo sobre um personagem ou sobre um fato daquela história, você está lendo sobre alguma coisa que aconteceu ali dentro. O que você está lendo não é sobre algo que aconteceu em um outro mundo ou no nosso mundo real, mas simplesmente algo que aconteceu nas linhas anteriores. Você está lendo uma explicação, um esclarecimento, uma correção, uma negação ou afirmação de algo que aconteceu nas linhas precedentes. Portanto, é sempre horizontal e não escapa desse espectro.

Aí surge uma pergunta que me intrigou por muito tempo e que esse autor me ajudou a responder: se a linguagem ficcional não escapa do espectro horizontal de falar sobre si mesma, como é que, quando leio um livro de história, encontro fatos que me são apresentados da mesma maneira em um livro de ficção que já li? Se você ler qualquer livro de história sobre Napoleão, todos vão te falar que ele perdeu a batalha de Waterloo no dia 18 de novembro do ano X (por volta das duas primeiras décadas do século XIX). E em *Guerra e Paz*, de Tolstoi, isso também aparece. Parece que a ficção está me contando algo perfeitamente coerente com o real. Isso não seria linguagem vertical? A definição do autor cai por água abaixo?

Não exatamente. Ele também vai definir a linguagem factual — e, por consequência, a ficção — através do espectro validativo. Na linguagem factual, que está no espectro vertical (buscando falar sobre coisas do mundo real, para além da linguagem, em instâncias extra-linguísticas), existe o critério de validação entre o certo e o errado. Você pode escrever um artigo científico que corresponda a fatos observáveis na realidade, ou um livro de história coerente com as fontes primárias. Porém, no mesmo livro, você também pode afirmar algumas sentenças falsas — por exemplo, dizer que em um determinado tempo era comum pensar de certa maneira na sua cidade, o que pode não ser verificável ou não corresponder ao que as pessoas pensavam de fato subjetivamente.

Assim, em um livro com ambições factuais, você encontrará coisas coerentes com os fatos e outras que não são. No entanto, a linguagem factual busca ser totalmente coerente com os fatos, ainda que possa falhar na intenção.

Já na linguagem ficcional tem um porém: ela não participa do processo validativo. Não existe certo e errado na ficção. Você pode ter a maior parte da sua história descrevendo coisas que aconteceram na vida real, ou que são coerentes com a nossa visão comum das leis da física, e não tem problema algum, desde que a intenção do autor seja outra que não comunicar primariamente a verdade.

Existem autores como Émile Zola, por exemplo, que queriam comunicar a verdade. Ele é o grande criador do romance naturalista francês — o naturalismo já existia antes na França, mas ele se inspirou em descobertas científicas de sua época e em muitos documentos e testemunhos. Zola buscava tanto criar uma história agradável quanto produzir uma literatura que ajudasse sociologicamente, algo que pudesse ser usado como fonte primária de testemunho, carregando muitas verdades.

No entanto, Zola deixa bem claro, tanto na leitura de *Os Rougon-Macquart* (sua série de 20 volumes maravilhosos sobre a história de uma família desde a gênese até o fim — recomendo muito a leitura, estou no volume 14 e recomendo do início ao fim), quanto nas cartas trocadas com amigos e seguidores em seus salões privados, que a preocupação principal dele era contar uma boa história. Os personagens são apaixonantes e as tramas são incríveis.

Ainda que ele tivesse intenções de sentido vertical e quisesse contar a verdade, ele subjugava essa verdade à sua ficção. Há coisas que ele queria colocar em um volume para ter uma abrangência factual maior, mas colocava em outro porque avaliava que isso prejudicaria a história. Ele não omitiu ou deformou a verdade; ele apenas a separou, movendo-a de um volume para o outro porque percebeu que de uma forma ficaria muito extenso, confuso e horrível. Ele queria contar uma boa história e produzir um material que fosse tanto científico quanto artístico. Se deu certo ou não, isso é outra história.

Acredito que consegui passar o ponto e explicar essa questão. Espero que tenham gostado do vídeo. Se gostou, dá um joinha; se não gostou, dá um joinha. Se gostou, se inscreve e ativa o sininho; se não gostou, se inscreve e ativa o sininho também. Deixe um comentário parabenizando ou tirando dúvidas, e vejo vocês no próximo vídeo. Muito obrigado por assistir! Sou o Panda, do canal Universo Antares. Muito obrigado e até mais!