Neste trecho de sua análise, o autor continua a reagir ao vídeo em que a criadora de conteúdo Débora Luciano discute a obra de G. K. Chesterton e sua relação com os contos de fadas, o realismo e a percepção do maravilhoso no cotidiano.
No vídeo anterior, falamos sobre a reação ao conteúdo da Débora no canal "Olá, Bocós!" acerca da obra *A Metamorfose*, de Kafka. Mas tem muita coisa pela frente, então vou gravar uma série de videozinhos bem curtinhos, um novo formato aqui no canal. Eles são tão bons quanto os anteriores, mas mais curtos. Vou reagir a um pequeno pedaço deste vídeo dela e, quando achar que ela está partindo para outra ideia, vou pausar e passar para o próximo trecho, que vocês verão amanhã.
Sem mais delongas, vamos para o vídeo dela. Ela estava entrando na obra de Chesterton. Vou dar uma pequena explicação do que ela estava dizendo antes: ela afirma que, no capítulo 3 do livro *Ortodoxia* — que eu já li e acho maravilhoso, embora tenha discordâncias, inclusive nesse capítulo, chamado "A Ética do País das Fadas", que é sensacional —, ele apresenta ideias que de fato estão aparecendo no vídeo, porque ela está lendo. E mesmo que não estivesse lendo, pelo que ela fala eu entenderia, pois conheço bem Chesterton.
Ela acabou de falar sobre um trecho entre os minutos 12 e 14:45, em que ela foi e voltou um pouco sobre a questão de que, quando as crianças vão crescendo, a gente vai acostumando elas ao mundo prático, à vida pragmática que foca no material, no que seria o real factual, e vai tentando afastá-las do mundo imaginário, da parte mais mística e espiritual da vida que existe nos contos de fadas. Chesterton diz que esse mundo da infância, que as babás e as velhas ensinavam e do qual vamos nos afastando, é justamente o conjunto de coisas importantes. Quando cresceu, leu bastante e passou por muita coisa, ele percebeu que aquelas coisas que aprendia quando pequeno eram as mais importantes. Eu concordo com ele até certo ponto. Concordo que as coisas principais são essas, embora as outras também sejam importantes. Sonhar, pensar, ler e imaginar é maravilhoso; a vida sem isso, cara, não vale a pena. Se a sua vida não tem isso, você provavelmente pensa em suicídio muitas vezes, já pensou, ou não sei o que está esperando. Não tome isso como encorajamento, mas enfim.
Ele diz que essas coisas são as mais importantes, e eu concordo, é verdade. Só que aí entram discordâncias, e a Débora vai apresentar isso para nós. Vamos logo para o vídeo dela, a partir de 14:45, até os 23 e poucos, quando ele acaba. Deixe-me colocar o áudio e bora lá.
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[Trecho do vídeo de Débora Luciano]
E o Chesterton não, ele acredita no contrário. Ele acredita que o que realmente é a realidade, o que realmente é importante, são essas coisas com as quais as babás velhas se ocupam de ensinar às crianças. É essa essência que nós aprendemos quando crianças que nós não podemos perder depois da vida adulta. Nas palavras dele: "As coisas comuns são mais valiosas que as extraordinárias" — minto, "são mais extraordinárias. O homem é algo mais terrível e estranho que os homens. O senso do milagre da humanidade deveria estar sempre mais vívido em nós do que as maravilhas do poder, do intelecto, da arte e da civilização. O simples homem bípede, como tal, deveria tocar mais o coração do que qualquer música e ser mais impressionante que qualquer caricatura. A morte é mais trágica que a morte por inanição. Ter um nariz é mais cômico do que ter um nariz normando."
O que ele quer dizer é que o simples fato de você ser você já é uma coisa fantástica. Então, a partir do momento em que você se surpreende todos os dias de manhã com o fato de que você acorda no mundo, de que esse mundo existe, de que você tem esses olhos, esse nariz, essa boca, pensa e é um ser humano, isso já é um negócio extraordinário. Portanto, se do dia para a noite você acordar e não for mais isso, continua sendo extraordinário. Nada garante que você vai acordar sendo você no dia de amanhã; não é porque você acordou todos os outros dias passados sendo você que existe uma lógica racional consequencialista que garante que você vai acordar sendo você no próximo dia. Na verdade, isso é aquela filosofia de David Hume: não é porque o sol nasce todos os dias que você tem certeza através da lógica dedutiva de que o sol vai nascer amanhã. Então, maravilhe-se todos os dias que o sol nasce, porque cada dia que ele nasce já é uma coisa mágica. É mais ou menos nesse sentido que eu não acho tão fantástica assim a premissa de que ele virou um inseto monstruoso e que ele não liga para isso.
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Vamos lá, né? Isso foi sensacional! Beleza, então vamos separar as coisas aqui. Como a Débora bem acertou, é isso mesmo: os fatos singulares da vida não são mais extraordinários ou mais importantes do que os fatos ordinários da vida. Chesterton usa "extraordinário" em dois sentidos diferentes, mas fica claro para entender. Não é que seja mais belo, no sentido de "uau", mas o homem em si é muito mais fascinante do que um homem específico, e a morte no geral é muito mais fascinante do que uma morte exata, como a morte por inanição, por exemplo.
E aí a Débora fala — já entrando na interpretação dela — que você acordar todos os dias sendo você mesmo já é algo extraordinário, porque nada garante que você tenha que acordar sendo você mesmo, não existe uma explicação para isso. Então, se você acordar sendo você mesmo, qualquer outra coisa vai ser tão extraordinária quanto. Um pouco mais para frente, ela vira e diz que não acha extraordinário o Gregor Samsa acordar transformado em inseto.
Ora, mas aí, pô, o que não tem lógica não é a realidade, é o que você está dizendo. Porque é o seguinte: se você mesma disse, faz nem dois minutos, que você acordar sendo você mesmo — ou qualquer outra coisa — das duas maneiras é extraordinário no sentido de fascinante, então as duas coisas são fascinantes, e você deve vê-las assim. Por algum motivo, você deve achar as duas coisas igualmente fascinantes. Ou seja, a Débora acorda e ainda é a Débora: "Uau, caraca! Acorda, caraca, ainda sou eu, velho! Caraca, eu achei que eu ia acordar sendo outra pessoa, nem acordar… Ai, graças a Deus acordei, que maravilha, que show, legal!". Aí, no dia seguinte, a Débora acorda e é uma morta-viva: ela olha, está descarnada, com os ossos para fora, sangue por todo canto, não está respirando, mas está viva, entendeu? Ela virou um morto-vivo. Aí ela fala: "Caraca, sou muito viva, velho! Caraca, que doido, sempre quis isso, que maneiro! Agora eu não preciso mais fazer cosplay de *The Walking Dead*, posso andar por aí… que doido!". Mas aí ela tem que, por alguma razão doida, por alguma mágica — como Chesterton diz, por algum passe de mágica —, continuar sendo zumbi até a próxima convivência, ou se pá ela vira um dinossauro no outro dia. Se pá ela acorda como dinossauro, e vai ser mais legal ainda, porque, entre zumbi e dinossauro, ela gosta mais de dinossauro, entendeu?
Só que a Débora leu uma história em que algo quase análogo acontece — análogo porque há uma substituição inteira, a substância do Gregor mudou toda, ele virou um inseto gigante, que é uma mistura entre barata, escaravelho e alguma outra coisa, porque insetos não têm olhos que piscam, e na live a gente pontuou esse fato de que o narrador fala que o Gregor piscou os olhos, e eu disse: "Cara, inseto não tem pálpebra para piscar!". Enfim. E a Débora olha para isso e não pensa: "Caraca, que surpreendente!". Aliás, eu não sei se a Débora pegaria um livro qualquer para ler em que a primeira frase fosse: "Joãozinho acordou e abriu os olhos". "Caraca, meu irmão, ele acordou e abriu os olhos, que coisa sensacional, velho! Tudo o que acontece é extraordinário, caramba, que incrível!". Imagine se alguém vem interromper a leitura dela e fala: "Caraca, você me interrompeu, que incrível, nada garantia que isso fosse acontecer, caraca, só pode ser mágica, meu Deus do céu!". Aí ela vira a página: tem texto na outra página. "Caraca, nada garantia que teria texto, tem mais texto, e o texto seguiu, tá vindo antes, rapaz, que magia!". Aí virou outra página: "Caraca, não tem nada, rapaz, nada garantia que essa página estaria em branco, caraca, que incrível!".
Eu não sei como é que alguém consegue viver assim, gente. Parece muito bonito no papel. Quando li *Ortodoxia* pela primeira vez, eu li e falei: "Caraca, é um texto legal", mas fiquei me perguntando se o Chesterton não estava muito bêbado, velho. Ele gostava de beber, né? Devia estar muito bebaço, muito chapado de álcool, velho, porque, meu irmão, se a gente tivesse que viver assim, cara, vai parar no hospício! Minha tia trabalhou como assistente de saúde em hospícios durante uma década inteira da vida, ou coisa assim, e acho que ela ainda trabalha com isso hoje em dia na França. Cara, eu já tive que entrar num ônibus com ela cheio de doidinhos lá, e os caras adoravam tudo o que aparecia, tudo o que acontecia! Os caras olhavam assim e ficavam tipo… eu estava com medo de que algum deles fizesse alguma merda, mas ela me assegurou que estava tudo bem. Só que, se eu pensasse que nem a Débora, eu não podia estar seguro de que estava tudo bem, porque a minha tia estabeleceu um nexo causal entre as coisas: "Ah, eu trabalho aqui, eu já vi eles…". Só que aí eu podia falar: "Mas tia, não é porque isso aconteceu várias vezes que isso necessariamente vai continuar acontecendo, entendeu? Pode ser que qualquer um deles vire um dinossauro e coma todo mundo, porque nada garante que ele continue sendo ele mesmo ali! Não é porque você não tem a explicação exata de por que as coisas são como são que elas podem ser de qualquer outra maneira". Não é assim que funciona, cara! Eu não sei de que mundo você veio, irmão.
Voltando ao ponto da contradição em que você entra, Débora: se as duas coisas são igualmente extraordinárias, por que, quando você lê que o cara virou um baratão, você não fica maravilhada? Se tudo é tão extraordinário, tudo tem que te maravilhar, velho! Se é isso que você acredita, você está indo contra a própria norma que você adotou de Chesterton. Estou te lembrando do que você mesma falou há menos de dois minutos nesse vídeo.
E outra coisa: corrigindo você sobre Chesterton — parece que você leu, mas não conseguiu entender essa pequena partezinha aí, o que não tem problema, Chesterton faz muito paradoxo, e eu não acho ele um autor difícil, mas de fato ele faz vários paradoxos e, se você não prestar atenção suficiente, vai errar. E eu acho que você errou aí — não, eu não acho, tenho certeza, posso voltar o vídeo —, pois ele fala que as coisas ordinárias que acontecem comumente são mais extraordinárias, mas agora "extraordinárias" no sentido de mais fascinantes do que o extraordinário. Ou seja, você ler um livro em que o cara só acordou e pronto… é o cara acordou. Você ler um livro em que o cara acordou e virou um inseto… ok, pode ser um pouco fascinante, mas não mais do que o cara acordou. Você fez uma equivalência das coisas: você disse que ele acordar sendo um inseto, ele acordar sendo ele mesmo ou ele acordar sendo outra coisa são igualmente extraordinárias. Não foi isso que Chesterton disse.
Vamos despausar aqui o vídeo dela e continuar, mas este vídeo fica por beleza? O próximo vídeo vocês vão ter que ver amanhã. Até mais!