Neste trecho de continuação de uma análise crítica, o apresentador retoma a discussão sobre os argumentos apresentados por G.K. Chesterton na obra *Ortodoxia*, comparando a visão cética da ciência com a lógica imaginativa dos contos de fadas. Utilizando exemplos literários como *As Reinações de Narizinho* e *A Metamorfose* de Kafka, ele examina as implicações filosóficas de se negar a existência de nexo causal e conexões racionais previsíveis no mundo natural.
Vamos continuar aqui de onde paramos no vídeo dela. O Chesterton continua explicando de uma forma muito melhor do que eu consigo, olha só:
> "Mas assim que coloquei minha cabeça acima das sebes dos elfos e comecei a notar o mundo natural, percebi algo extraordinário. Os doutos homens de óculos estavam a falar dos eventos reais, a alvorada e a morte e tudo mais, como se fossem racionais e inevitáveis. Falam como se o fato de que as árvores dão frutos fosse tão necessário quanto o fato de que uma árvore mais duas árvores são três árvores. Mas não é. Há uma grande diferença de acordo com o teste do País das Fadas, o teste da imaginação. Não é possível imaginar dois mais um e não chegar a três, mas é fácil imaginar que as árvores possam não dar frutos e sim candelabros de ouro ou tigres pendurados pelos rabos. O cientista diz: 'Corte o pé e uma maçã cairá', mas ele o diz calmamente, como se uma ideia levasse a outra. A bruxa dos contos de fadas diz: 'Sopre a trombeta e o castelo do ogro cairá', mas ela não o diz como algo em que o efeito obviamente emergiu da causa. Sem dúvida ela deu com os olhos em muitos heróis e viu muitos castelos caírem, mas não perdeu por isso a sua racionalidade e seu espanto; não confunde a sua cabeça até imaginar uma conexão mental necessária entre uma trombeta e a queda da torre. Mas o cientista se confunde até o ponto de imaginar uma conexão mental necessária entre a maçã que deixa a árvore e a sua chegada ao solo. Ele fala realmente como se estivesse encontrando não somente um conjunto de fatos maravilhosos, mas uma verdade que conecta esses fatos; fala como se a conexão de duas coisas fisicamente estranhas as ligasse filosoficamente. Sente que se uma coisa incompreensível se segue constantemente a outra coisa incompreensível, as duas juntas redundam em uma coisa compreensível: dois enigmas obscuros produzem uma resposta cristalina."
É nesse sentido que eu disse que acho muito mais legal, mais divertido e mais impressionante o fato da Narizinho, lá no *Sítio do Picapau Amarelo*, dormir à beira de um rio com a sua boneca, acordar com um peixe-rei cutucando o seu nariz, olhar para ele e dizer "oh, este aqui é o meu nariz", o peixe olhar de volta e perguntar "você quer visitar o meu reino?", ela responder "por que não?", pegar a boneca dela, ir para o fundo do mar e descobrir que existe um reino dos peixes no fundo do rio — perdão, é nesse sentido que eu disse que acho muito mais fantástica essa descrição da Narizinho do que a do Gregor Samsa ter virado um inseto.
Ele virou um inseto, mas poderia ter virado qualquer coisa. Se você não acha que existe uma lógica racional no fato de você ser humano, o fato de você acordar virado em qualquer outra coisa não é tão surpreendente quanto o fato de você acordar sendo quem você é. Quer dizer, você não acha que tem uma lógica racional entre duas coisas que aconteceram em sequência uma da outra? É claro que a gente tem de concordar que correlação não implica causalidade, né? Então, não é porque eu estalei o dedo três vezes e agora, em algum lugar do mundo, alguém morreu, que o estalar do meu dedo causou a morte daquela pessoa. Isso é verdade, isso é verdade mesmo.
Só que é o seguinte, bicho: e se você cortar um pé de macieira? Você cortou o pé de macieira o suficiente para a árvore cair, e a maçã vai cair no chão junto com a árvore. Na tradução em inglês, seria algo como *"Cut the tree and the apple will fall"*, mas aí na tradução em português alguém podia confundir e achar que era só cortar o próprio pé para conseguir comida, maravilha, e o cara vai e corta o próprio pé! Não, né? Tem o contexto do texto ali, que está falando de árvores: uma árvore mais duas árvores é igual a três árvores.
Enfim, se você cortar um pé de macieira, ele vai cair no chão. Claro que a gente consegue imaginar outras situações em que isso não vai acontecer, como se você estiver no espaço, em uma nave espacial — como a gente tem agora da NASA e de outras organizações de exploração astronômica. É porque a gente fala muito da NASA, mas tem outras agências que eu sei que existem, só não lembro o nome agora; se vocês lembrarem, deixem nos comentários.
Mas enfim, se você cortar o tronco da árvore no espaço, em uma cabine ou em uma nave em que a gravidade seja equivalente a zero, o pé não vai cair, porque não tem para onde cair. Você precisa de um centro de gravidade para o objeto cair. Claro que estamos falando de um pé de maçã na Terra; num pé de maçã no planeta Terra, ele vai cair no chão. Se o planeta Terra explodir a ponto de perder seu campo gravitacional, aí você pode cortar o pé de macieira e ele não vai cair no chão, porque o centro de gravidade foi embora, a Terra foi partida ao meio. Então, eu estou imaginando cenários em que cortar um pé de macieira não vai fazer a maçã cair em lugar nenhum, porque não há centro de gravidade. Agora, quando você tem um centro de gravidade, as coisas caem, e nós conseguimos explicar o porquê: tem um centro de gravidade puxando tanto coisas mais pesadas quanto coisas menos pesadas. As coisas menos pesadas não têm resistência suficiente e caem em direção ao centro, a menos que haja um suporte — como a árvore — mantendo-as ali. Se você cortar o suporte que mantém a resistência entre a maçã e o centro de gravidade da Terra, a maçã vai em direção a esse centro, o que é basicamente cair no chão.
Mas isso só existe se você acredita que de alguma forma existe um nexo causal entre uma coisa e outra. Entre tudo? Claro que não. Mas entre certas coisas sim, talvez na maior parte delas, ou até em todas. A Débora e o Chesterton acham que não. Então, vamos ver quais são as consequências disso. Uma delas é que não existe suicídio, não existe assassinato, não existe crime nenhum. Porque nada garante que, se você pegar uma pistola carregada, enfiar na boca e puxar o gatilho, a bala vai sair. De acordo com a ética do País das Fadas, eu consigo imaginar que alguém vai puxar o gatilho e a bala não vai sair, como naquele filme *Nefarious* — que o Lucas me pediu para ver —, em que no final o cara puxa o gatilho várias vezes, a arma estava carregada, tinha bala na agulha, e não estoura. Um milagre aconteceu! Isso é maneiro para caramba, transformaram em filme, está na ficção. E se o que está na ficção tem o mesmo peso daquilo que a gente confere como factual no mundo, daquilo que a experiência dos outros e a nossa própria nos prova? Ué, quem garante que foi porque ele puxou o gatilho que a bala saiu da agulha e estourou a cabeça dele? Pode ser que ele tenha puxado, o gatilho não funcionou, mas mesmo assim a bala estourou por outro motivo. Então não foi suicídio, entendeu?
Quem garante que foi alguém que matou outro? Porque um psicopata podia tentar esfaquear uma moça — geralmente psicopatas matam mulheres —, mas cara, nada garante que a faca não ia virar, sei lá, um dildo de silicone, bater nela e no máximo ficar esquisito, com o cara batendo e a menina achando estranho e saindo correndo. Porque nada garante que a faca ia continuar sendo uma faca naquele momento ali, sabe? Um estupro: não é porque nada garante que, no meio do ato, quando o cara estava tentando fazer a penetração violenta, a menina caiu apaixonada por ele, com um tesão absurdo e absoluto, e deixou de ser uma relação violenta e unilateral para virar uma relação bilateral, em que os dois queriam aquilo. Só que a gente não viu. Como é que a gente vai saber? E depois que aconteceu, essa paixão foi embora, ela se sentiu envergonhada e disse que foi estuprada. Mas o juiz pode falar: "Não, mas não existe nexo causal entre as duas coisas; pode muito bem, nesse meio tempo, você ter se apaixonado por ele, feito aquilo por livre e espontânea vontade, mas depois você esqueceu. Você não esqueceu o que aconteceu, mas esqueceu que estava apaixonada, que quis aquilo, e agora só lembra do ato acontecendo e acha que não ficou apaixonada". Eu consigo imaginar uma história em que isso é verdade! E se isso tem o mesmo peso que aquilo que a gente confere na nossa experiência e na dos outros, meu amigo, o crime não existe. Não tem crime nenhum, absolutamente nenhum, velho. As ideias que a gente carrega têm consequências, bicho, têm consequências.
Eu acho que aqui está bom, acho que é um ponto interessante. Ela vai partir para um outro ponto. Só uma coisa que eu quero falar antes: eu também acho fantástico a Narizinho acordar com um peixe-rei no nariz, ser convidada para ir para o reino superaquático dos peixes, pegar a boneca dela e ir. Eu acho isso tão fantástico quanto o Gregor Samsa acordar transformado num inseto monstruoso e não ligar para isso. Bem, ele liga de alguma maneira, mas liga de maneira secundária; para ele, o mais importante são as coisas ordinárias. O que é, de alguma maneira, o que o Chesterton diz — para quem viu o vídeo ele fala: as coisas ordinárias são mais importantes que as extraordinárias. No que o Gregor Samsa acredita? Que o bem-estar da família, que é a parada ordinária, é mais importante do que o fato dele ter virado um inseto. Ele é um cara que pensa como o Chesterton! O Gregor Samsa é um personagem que pensa como o Chesterton.
Eu acho que a Débora não conseguiu enxergar isso no personagem. Talvez eu trazendo essa informação aqui para ela, ela possa entender e falar: "Caraca, é verdade, ele liga para as coisas ordinárias que o Chesterton disse que a gente tinha que fazer, ele está fazendo!". E aí ela olha para o personagem como se fosse nada, apenas uma metamorfose, mas não, ele liga. Só que ele liga muito menos do que ele liga para as coisas ordinárias. A gente pode dizer que o Gregor Samsa é um herói chestertoniano? Dá para dizer isso, eu acredito.
Enfim, o vídeo está pausado aqui, mas eu vou despausá-lo só no próximo vídeo. Vocês estão vendo este na quarta-feira, e o de amanhã, quinta-feira, vai ser a continuação. E se a gente não tiver terminado o vídeo dela por inteiro, vai seguir para sexta-feira também; se acabar na quinta, o vídeo de sexta-feira será outra coisa. Enfim, fiquem ligados, se inscrevam aí. Fiquem ligados que amanhã tem vídeo novo. Eu fico por aqui, beleza, e até mais!