Quando o rude pastor, na noite estrelada,
Vigiava o rebanho às margens da Caldeia,
Seus olhos ávidos, de alegria inexplorada,
Voltavam-se ao alto para a milenar teia
De feixes amigos que a época marcada
Traçavam com formas que a mente alteia.
Com reverência e temor, o humilde vigia orou,
E de cada estrela uma divindade criou.
Com que puro prazer o camponês devia ver
Arturo, a escalar os montes na primavera;
Gemas de suave verão que hão de descer,
E os céus flamejantes que o inverno gera,
Quando os raios de Órion vêm aquecer,
Roubando aos ventos a força severa.
Ele não pôde senão julgar o prodigioso espetáculo
Uma dádiva à terra, um celeste arranjo e bálsamo.
Quando a Ciência infante nos ensinou primeiro
O sol, a lua e os planetas a rastrear,
A contar os orbes do espaço, o infindo roteiro,
A marcá-los no poente, no sul, no ar,
E a cartografar o azul do manto verdadeiro,
Adivulgando as leis a que hão de orbitar,
Nossa mente tateante percebeu a ordem posta,
E buscou do Céu a influência na alma exposta.
Ai de nós! Quanto tempo tentou o homem ler
Seu futuro incerto nas esferas em rotação!
Seu pensamento acorrentado não pôde ver
Senão um Céu menor guiando a ilusão;
E a glória da Criação só quis conceber
Para prever os anos de sua própria infâmia e oração.
Dias deludidos, em que a fama astronômica ousada
Coroava as frontes de uma alma agoureira e dotada!
Triunfante Verdade! Que maravilhas são reveladas
Quando teus vastos preceitos entram na mente.
Espaço estonteante, pela Ignorância ocultado, abarcadas
As grandezas, mostra-se a Criação inconfinada,
Contudo essa Criação — o campo estrelado —
Pode ser um dentre bilhões mal divisada.
Infinitude! Sobre teu mar sem fim, o que pode haver?
O que somos nós, mortais, senão destroços a vagar!