Embora Marcel Proust seja frequentemente visto como um autor hermético e intimidador, a genialidade de sua obra reside na capacidade de transformar trivialidades cotidianas em experiências fascinantes. A seguir, compartilho minha profunda gratidão por essa leitura que transformou a forma como encaro o mundo, a partir da análise de uma passagem marcante do clássico *Em Busca do Tempo Perdido*.
Eu já comentei muito aqui no canal sobre Proust, mas sempre de maneira tangencial, de maneira secundária. Parte disso é porque os assuntos de que tratamos não são tão próximos assim dos assuntos de que trata Proust. Também porque, embora eu já tenha lido tudo que é a obra principal dele e esteja relendo quando possível, confesso que é difícil, realmente difícil, botar em palavras o Proust. Mas eu acredito que ele não é exatamente esse bicho de sete cabeças que pensam que é, e que por vezes eu mesmo faço parecer que é. Então, eu decidi gravar este vídeo bem pequenininho, lendo para vocês uma pequena passagem — bem curtinha mesmo —, que é do primeiro parágrafo (na verdade, é a última frase do primeiro parágrafo do primeiro capítulo da primeira parte do primeiro dos sete livros de *Em Busca do Tempo Perdido*). Então, está bem lá no início, e é só a última frase do parágrafo.
Enfim, eu usei como base duas traduções, mas eu acho que elas se atêm demais às palavras exatas que Proust escreve. Acredito que elas não conseguem passar para o leitor contemporâneo a força da frase. É claro que, se formamos olhar para o vocabulário, para o léxico que eles estão usando, ele é suficientemente próximo do nosso e daquele tempo, mas ainda assim eu acho que não fica forte o suficiente. São traduções que buscam de fato meramente traduzir, e não traduzir e criar. Achar que você consegue traduzir bem sem criar, eu acho besteira. Os italianos têm um lema: *traduttore, traditore*. Eu sou partidário da tradução traidora, da tradução que trai o autor mesmo, mas que o trai para ser mais fiel a ele. Como é que isso funciona? Bem, é difícil de explicar, e este vídeo não é sobre isso.
Então, eu fiz uma pequena traduçãozinha usando as edições de base, porém com leves, levíssimas modificações que não mudam o sentido, não mudam a extensão e nem o fluxo da frase proustiana, que é algo de que grandes fãs de Proust — eu incluso — gostam muito. Eu vou ler essa frase aqui para vocês. Ela é longuinha, mas é uma frase única. Vamos lá:
> "Eu me perguntava que horas eram, ouvia o apitar dos trens que, mais ou menos afastado, como o canto de um pássaro na floresta, revelava-me as distâncias e descrevia-me a extensão da campina deserta onde o viajante se apressa em direção à estação mais próxima; e aquele pequeno caminho que percorre ficará gravado em sua lembrança por conta do entusiasmo de ter conhecido novos lugares e de ter praticado atos que não lhe eram familiares, pela conversa recente e pelas despedidas sob a lâmpada estrangeira que o seguem ainda no silêncio da noite, e pela doçura do regresso que logo se aproxima."
Então, você pode pensar — para quem nunca leu nenhum livro de Proust ou nenhuma frase dele —, você pode pensar que talvez esse livro seja sobre um viajante, ou sobre viajantes. Mas não, não. Esse é um daqueles vários momentos que ocorrem nessa obra — em todos os sete livros —, um daqueles vários momentos em que o narrador está meramente falando sobre pessoas hipotéticas. Pessoas hipotéticas que, nas mais das vezes, são mais reais do que hipotéticas.
Existem livros como *A Odisseia* — que eu não vou mostrar aqui porque está ali no armário, não sei onde é que está, e estou com preguiça de procurar, mas enfim, está por ali, mais ou menos ali em cima. Existem livros como *A Odisseia* que vão contar histórias sobre viajantes; também, por exemplo, o *Simbad*, e o *Simbad das Mil e Uma Noites*, e o capitão Ahab — não, Ahab não, Ahab é de *Moby Dick*, mas o Capitão Nemo, e *Dom Quixote*, e Sancho Pança, e vários outros, o Bilbo Bolseiro e o Frodo Bolseiro e todo o resto do pessoal da Sociedade do Anel. Enfim, várias histórias sobre viajantes e viagens que são sim fantásticas, maravilhosas, que merecem a nossa atenção e a nossa leitura, merecem o tempo dos nossos olhos e da nossa imaginação. Mas que, claro, por serem tão fantásticas e extraordinárias, acabam se distanciando demais das viagens que nós mesmos fazemos. A gente pode acabar pensando que as viagens que a gente faz não têm nada de bonito, não têm nada de substancial, nada de fantástico mesmo.
Eu nunca fui um cara de prestar muita atenção nos outros assim, sabe? Essa é uma coisa que dizem de negativo de mim. Mas, desde que eu li Proust — e eu não estava esperando por isso, não fui ler por causa disso, fui ler por outras razões, porque eu estava curioso com muita gente de um nicho aqui na França que falava dele e ainda fala —, eu fui procurar saber por quê. E eu me topei com isso. Eu li o primeiro parágrafo, vi que era grande, as frases eram longuinhas, e eu cheguei nessa última e falei: "Caraca, que legal, que maneiro!".
Eu não tirei nenhum preceito moral, nenhum grande *insight*, nenhuma ideia retórica ou dialética, ou mesmo lógica — algo de apodítico, inegável. Era algo meramente poético, mas não aquele falso poético tipo o azul do céu. Não, não era isso. Era meramente uma hipotipose da vida, porém sendo mostrada para mim com um a mais. Só que esse a mais já estava ali, eu só não tinha visto.
Porque, se a gente parar para pensar, se você for, por exemplo… Não precisa ser uma estação de trem, mas numa estação de trem ou de ônibus — no Brasil tem muito mais ônibus do que trens —, você vai ver pessoas correndo para lá e para cá. Pessoas que estão esperando, que estão com as malas ali, estão dormindo, enfim. A gente olha para as pessoas e, claro, a primeira coisa que a gente pensa é: "Nada, são pessoas esperando, deve ser aqui que é a nossa parada também". Pessoal esperando ônibus: "Olha a pessoa, como é que ela não cai de tanto sono?". Só que o que a gente dificilmente vai pensar, vendo aquilo, é que aquelas pessoas ali podem — é possível, é perfeitamente possível — ter tido experiências magníficas, incríveis, coisas que mudaram a vida delas de verdade, de que elas talvez nem sequer tenham se dado conta: o quão impactante e importante aquilo tem sido para elas, aquela viagem, e também como as coisas devem mudar substancialmente quando elas voltarem para casa, quando entrarem em contato com a doçura do regresso que logo se aproxima.
Desde que eu li Proust — claro, obviamente, antes de eu ler todo o Proust, mas desde os primeiros tempos em que eu estava lendo —, eu tenho dificuldade em olhar para as coisas comuns do mesmo jeito. Não que eu tenha descoberto o segredo que está por trás ou algo assim; Proust não fala disso, e na verdade ele passa boa parte da obra sacaneando gente que tenta fazer isso ou que finge fazer isso. Mas a questão é que é um escritor que consegue imaginar, consegue penetrar bem fundo, mas ainda assim de maneira perfeitamente compreensível, nas coisas mais fascinantes das trivialidades. Aquelas coisas comuns, bem ordinárias, bem corriqueiras, ficam cada vez mais fascinantes. Você lê Proust e fica olhando para as coisas como se elas fossem, não sei, feitas de ouro, sabe? Como se elas tivessem um perfume diferente — mas que elas sempre tiveram —, como se elas tivessem uma cor nova, que é exatamente aquela que você sempre viu, você só não prestou atenção.
Então, para quem me ouve falando direto sobre Proust, sempre falando com muito carinho, enfim, é por momentos como esse — e, claro, vários outros —, mas é por passagens como essa, momentos como esse, que me fazem olhar para um viajante hipotético — ou, nas mais das vezes, nem um pouco hipotético, para alguém que está ali na minha frente, que está correndo em um pequeno caminho para conseguir pegar o seu trem ou o seu ônibus para voltar para casa, e que deve ter passado talvez pelo melhor e mais importante momento da sua vida —, e assim o meu dia fica um tanto mais interessante do que ele poderia ser.
Mas enfim, é isso. No próximo vídeo a gente vai estar falando sobre outro escritor que, embora eu não tenha lido muita coisa dele, estou lendo, claro, ele mudou um pouco… Na verdade, ele mudou uma visão que eu tinha sobre ele, que não tem nada a ver com ele, mas ao mesmo tempo tem. Eu sei, ficou estranho, e você deve estar curioso, mas eu vou deixar isso para o próximo vídeo. Então, se inscreve aí, dá um like, comenta e espera até amanhã que aí você vai ver o vídeo, vai descobrir o que que é. Até mais!