23 de abril de 1898 – 31 de dezembro de 1916
Se o Destino, ante a própria crueldade, sofre e chora,
E em vão deseja revogar seus decretos agora,
Que suporte o aguilhão do mais amargo remorso
Pela perda de GAMWELL, no alvor de um sem culpa esforço.
Quem não choraria ao ver que alma tão pura se apressa
Em deixar cenas que enfeitou com breve alteza?
Nossos versos trêmulos perdem o tom e a altura,
Pois os poetas vestem luto e amargura.
Que pena cantará o coração e a mente ardente
Onde inocência e saber vibravam conjuntamente;
A fala mansa, cuja modéstia refreava
O dom e o senso que não ocultava;
O rosto sincero, a brilhar na mesma medida
Com a luz da beleza e da virtude acolhida;
E o porte altivo, que os olhos vaidosos fitavam
Para ver no menino o homem que brotava?
Tal canto rivalizaria com o pranto de Febo
Pelo terno Jacinto, que a morte ceifou breve;
Ou com o suave lamento que Citereia entoou
Quando o perdido Adonis de flores coroou;
E ainda assim, a pena que o louvor quisera tecer
Cessa por palavras, detida pelo recente sofrer!
Pode ele, cuja forma tão vívida desfila;
Cuja voz viril ainda em nossos ouvidos rilha;
Cujo passo firme, que a lembrança adora e retém,
Tão pouco tempo atrás pisava a alameda e o denso desvém;
Pode ele, a quem todos tinham em orgulhoso afeto,
Partir de vez, sumindo em seu destinocreto?
Isso ninguém crê! Sua alma deve habitar
Entre os botões de algum recanto do bosque a planar,
Onde, abrigados da invejosa brisa ocidental,
Florescem jacintos e anêmonas de brilho igual;
Pétalas simbólicas cobrem o verde bordado,
E falam do Deus de Delos e da Rainha do Paphado;
Enquanto o aroma extra no ar carregado de flor
Diz aos carvalhos que o jovem GAMWELL vaga ao redor.
Ainda que o barro que navega a mortal corrente
Do berço ao féretro, com a mente incoerente,
Retorne do pó pobre ao pó que lhe é familiar,
Poderia a urna fúnebre a essência de GAMWELL trancafiar?
Do tronco antigo o belo broto se ergueu,
E conheceu o zelo que o amor concedeu;
O galho viçoso, moldado à Virtude e ao saber
Por cultas mãos que o ensinaram a crescer,
Superou a promessa de um nascimento auspicioso,
Unindo saber profundo a um valor grandioso:
Tão rica graça o Céu quis prodigalizar,
Que a árvore inteira veio o ramo caçula a adorar!
Tal era o jovem, cuja mente e coração sem mancha
Uniam o melhor da Natureza e da Arte na franja;
Tal era a vida que, embora ceifada antes do amadurecer,
Mostra às eras futuras como devem proceder:
Coisa tão rara, tão preciosa e tão pura,
Em espírito, senão em carne, há de perdurar, com a mesura!