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DESAFIO da Continuação de “Alice no País das Maravilhas” ••• Lucas Rosalem

Desafio de Escrita: Continuando Alice no País das Maravilhas

Durante uma transmissão ao vivo com sua comunidade, o professor Lucas Rosalem comenta sobre a participação ativa dos espectadores e aproveita para introduzir uma discussão literária que aconteceu no canal do Telegram do grupo. A partir de uma teoria instigante levantada por um dos escritores do grupo, chamado Bruno, sobre os eventos e a verdadeira natureza da história de *Alice no País das Maravilhas*, Lucas passa a refletir sobre técnicas de escrita criativa e estruturação narrativa.

Quero entrar aqui no assunto rapidinho para contar uma coisa interessante para vocês sobre o Bruno. Hoje a gente manteve um número legal de pessoas na live, com pelo menos oito espectadores constantes, e a maioria participou pelo chat. Muito obrigado pela participação de todos!

Quero comentar um elemento que surgiu lá no nosso canal do Telegram. Se vocês não sabem do que estou falando, vão lá dar uma olhada. O Bruno levantou uma hipótese sobre *Alice no País das Maravilhas*, sugerindo que a irmã da Alice seria a verdadeira mente por trás de tudo aquilo. É uma espécie de teoria interpretativa, uma "teoria da conspiração" literária. Sabe aquele tipo de teoria que pergunta, por exemplo: "E se a história do *Chaves* for uma grande alegoria sobre o inferno, ou se eles já estiverem no purgatório?" Já viram essa teoria? Pior que ela é legal para caramba, faz muito sentido. Existe algum indício de que deva ser isso no *Chaves*? Não. Mas a teoria não desfaz nada da diegese — que é tudo aquilo que é construído e faz parte do *world building* do que você está assistindo ou lendo, ou seja, a realidade interna da história. Na história do *Chaves*, não temos nenhum indício de que aquilo seja o inferno, mas a teoria é construída de uma forma que não contraria a diegese e acrescenta uma camada maluca em cima. Dificilmente seria verdade, mas faz sentido.

O Bruno fez uma teoria parecida no nosso canal, e nós ficamos discutindo isso lá. Eu disse a ele: "Cara, por que, em vez de ficar só bolando a teoria, você não escreve um texto sobre isso? Um textão mesmo, ou até mesmo um ensaio do tamanho de um livro?". Depois, tive outra ideia, um pouco mais interessante: e se ele escrever um livro de ficção contando essa história a partir dessa nova perspectiva?

Fiquei discutindo isso com ele. Ele tem duas alternativas principais. A primeira seria fazer algo parecido com a teoria do *Chaves*: não desfalcar o que já existe na obra original, mas inventar uma história que acrescente elementos por cima, narrando os fatos de outra perspectiva. Seria uma espécie de *plot twist* louco para caramba. Imagina se o último episódio de *Chaves* revelasse isso, obrigando você a rever todos os episódios anteriores para pescar essas pistas, bem ao estilo do filme *O Sexto Sentido*. A sensação seria mais ou menos essa: você termina de ler *Alice no País das Maravilhas*, e o narrador te diz: "E se eu te contasse que desde o começo tal coisa aconteceu?". Caramba! Essa seria a primeira alternativa: não desmentir nada do que está ali, mas acrescentar novas camadas.

A segunda alternativa seria mudar uma coisinha ou outra na história original e acusar o narrador do livro de estar mentindo. Você muda poucos detalhes para tornar a narrativa convincente e conta uma nova história. Até porque esse livro já está em domínio público, então não há problemas com direitos autorais. Inclusive, se vocês quiserem fazer um conto nessa linha, nós conseguimos publicar por aqui. Se alguém se interessar por esse projeto com o Bruno, chame-o lá no nosso canal do Telegram e conversem com ele. Se o Bruno levar isso a sério e produzir esse material, nós podemos ajudar a publicar, com certeza.

Mas o que eu disse a ele também — e aqui entra uma questão estrutural da narrativa que serve de dica de escrita — é que, se o Bruno quiser fazer um trabalho bem legal, será interessante levar em conta a "pegada" do livro original. Do que estou falando? Eu já disse que não gosto muito do narrador de *Alice*; acho meio mal construído, com jeitos de narrar discutíveis, como o hábito de subestimar o leitor e usar advérbios de forma desenfreada. Isso é algo que precisamos contornar hoje em dia; na escrita moderna, nós dispensamos esses atalhos. Na fala, usamos esses recursos porque precisamos ser concisos em tempo real, mas na escrita não funciona bem assim.

Por outro lado, há uma característica estrutural muito forte no livro que tem a ver com o ritmo. Você tem a sensação de que, o tempo todo, algo novo acontece. A leitura não fica "barriguda", sem saber para onde ir; a cada momento surge um evento novo. E esses eventos parecem não ter relação com o anterior — e muitas vezes não têm mesmo, pois o enredo é meio *nonsense*. Mas isso gera um efeito poderoso no ritmo do texto. Não quero dizer que o livro seja daqueles que você simplesmente não consegue parar de ler por causa da genialidade literária, mas o texto força você a continuar porque ele é extremamente rápido. Praticamente não há sumários narrativos; ele vai contando uma coisa atrás da outra, pulando para a frente a cada instante. Isso permite que você pare de ler em qualquer ponto e retome depois de onde parou, sem precisar reler tudo para entender o contexto.

Isso tem total relação com o ritmo do texto. Se você estudar um pouco sobre estrutura narrativa, perceberá que essa é uma questão fundamental para eliminar as "barrigas" da história. Quando analisamos alguns contos aqui no canal com o Riel e a Vitória, percebemos que a principal crítica aos textos que empacavam era justamente a "barrigas": a partir de determinado momento, o leitor se desprendia porque a ação diminuía e o ritmo enfraquecia.

Claro que você não deve entupir o texto de tensão o tempo todo, porque uma narrativa monótona de pura adrenalina também cansa e gera uma sensação estranha. Mas essa é a pegada de *Alice*. Se o Bruno quiser escrever essa continuação, ele deveria estudar estruturas narrativas, entender como funcionam os elementos que dão ou tiram ritmo de um texto, e aplicar isso na composição da sua própria história. Essa é a última dica que eu queria deixar a respeito desse livro.