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Ye Ballade of Patrick von Flynn (Poesia #39)

Ye Ballade of Patrick von Flynn

Ou, O Odiador da Inglaterra Hiberno-Germânico-Americano

 

“Germanis ipsis Germaniores”

 

Ouvem all meus causos, que a vocês eu vou contar,
De como um honesto irlandês a prussianizar começou lá.
Faz quase vinte ano’ que deixei meu pântano natal
Pra buscar nestes Estados majestosos o meu ganha-pão real.
Ora, o trampo eu achei fácil, pois sou homem inteligente;
Ganhei tanto que logo comprava meu uísque por recipiente.
Com meia dúzia de outros patrícios, uma corja alegre e bebum,
Eu vivia nos botequins xingando a Velha Inglaterra a esmo e a torto e a aum!
O porquê de eu odiar os ingleses, eu não lembro muito bem,
Mas o vovô do Jimmy Dugan diz que a Irlanda eles tratam desdenhem.
Tudo o que fizeram por nós foi civilizar nossa terra,
E a gente não quer lei sóbria, mas pela liberdade é guerra!
Como há de ser alegre o dia fatídico em que a Inglaterra expirar,
E a boa Velha Irlanda for livre — pra se matar de beber até tombar!
Eis que surge a cruel, cruel guerra, com alemães à solta por aí.
Ora, chegou a hora de agitar e xingar mais um tanto aqui!
Nós, irlandeses, não amamos os alemães, mas ficamos com a Alemanha
Porque ela odeia a Velha Inglaterra com uma fúria tamanha!
Sabemos que o Kaiser nos trataria pior que a Inglaterra já fez,
Mas, ora, se tratássemos a Inglaterra bem, perderíamos a diversão de vez!
Tem algo no coração irlandês que a regras nunca se submete;
Ao chamado do dever, ensinamos sedição aos filhos no bilhete.
Ontem à noite, os alemães daqui se reuniram num salão,
Com bandeiras alemãs no palco e Kaisers na parede e no brasão.
Não sei o que queriam, mas, pelo que pude notar,
Eles brindavam ao Kaiser e curtiam “neutralidade” sem parar.
Todos denunciaram o Presidente e xingaram as leis ianques
Por serem pouco “neutras” pra ajudar os alemães e seus tanques.
Aí começaram com a Inglaterra, e meu coração bateu forte de orgulho
Enquanto sobre a “fúria e perfídia britânica” tagarelavam num barulho.
Achei que nós, irlandeses, inventávamos os piores palavrões,
Mas são maravilhosos os causos que esses chucrutes inventam aos montes!
Meus amigos que vieram comigo estavam com tanta ira marcial,
Que se reuniram em volta do fogão enferrujado pra discutir no pavô real.
Fiquei tão patriota que tirei o chapéu da mão
E gritei: “Hoch der Kaiser, e das dear ould Vaterland” com paixão!
Por Deus, vamos vencer esses britânicos numa quinzena exata,
E unir numa bandeira triunfante a águia e a harpa escarlata!
Aí todos começaram a fraternizar; McNulty e von Bohn —
O’Donovan e Munsterberg, von Bulow e Malone.
Nos laços báquicos selamos o pacto; em harmonia sem igual,
Cantamos juntos “Die Wacht am Rhein” e o hino tradicional.
O velho von der Goltz pegou um sotaque; o jovem Dooley cantou em alemão;
Entre acordes prussianos e hibernianos, ecoou o velho salão!
De repente, uma magia pareceu nos meus ossos entrar —
Minha voz irlandesa amaciada a uísque começou a prussianizar!
Senti uma estranha sensação, e na imaginação pude ver
Em vez das margens do velho Shannon, o suave e manso Spree —
Não, não o Spree que vocês pensam, mas aquele que corre de mansinho
Pelas campinas da gloriosa Alemanha, onde a guerra e a cultura dão seu linho.
Ochone! Ochone! Onde estou agora? Em que conflito vim parar?
Pertenco à cidade de Dublin ou à Velha Berlim do outro mar?
Há uma semana nasceu meu filho; o batizado não vai demorar;
Será que o chamo de Mike, ou de Friedrich Wilhelm Hoff pra variar?
É duro pra alguém como eu saber onde está com exatidão;
Será que meu nome é Hans ou ainda sou o Patz do caldeirão?
Mas não quero aborrecer vocês; o caminho certo é transparente:
Vou difamar a Inglaterra o máximo e não ouvir quem tente.
Um leal “neutro” serei em cada palavra e ação,
E nunca abrirei a boca senão pra elogiar o turco e o alemão!