Lusitânia, 1915
“Virescit vulnere virtus.”
Enlouquecido com o sangue belga há pouco derramado,
O prussiano bestial busca o leito oceânico;
No reino de Netuno o covarde infeliz se esconde,
E sobre o mundo seus habituais males opera.
Como um cão esgueirado, ele morde onde ninguém se opõe;
Ditosa sobre bebês, sua valentia cresce.
Um dia fatídico (que jamais volte a ocorrer)
Uma imponente embarcação deixou a costa da Colúmbia;
Sobre as ondas, em intépida grandeza, navegava,
Sem temer carregar sua carga inocente e indefesa.
Nenhum risco humano correu o capitão atento,
Protegido pelas leis comuns dos homens.
As leis dos homens! Que leis podem conter ou reger
O lobo prussiano, com a humanidade renegada?
Sua ameaça vã, por demais hedionda para crer,
Com sua tétrica verdade, submergiu nações em luto.
O sol brilhava, o mar não era agitado pelo vento,
Enquanto o navio orgulhoso singrava a costa da Hibérnia.
Seguro em sua inocência, sulcava as águas salgadas,
E escarnecia do temor de engenhos ou minas hostis.
Ó infâmia sem par! Poderia mente mortal
Conceber o inimigo que espreitava ao longo do mar;
Que fitava com júbilo cruento a guarda vigilante
Que cruzava o convés e avistava a terra distante?
Detém-te, Musa chorosa! Não te detenhas na visão
Que converteu o dia resplandecente em noite infernal;
Não entoes sobre o projétil, lançado com intuito diabólico,
Para cobrar seu tributo de vidas inofensivas:
Coisas tais mal pertencem à esfera dos humanos,
Nem formam um tema legítimo para rima ou canção.
Atingido pelo dardo do covarde, um alvo marcado,
Para o fundo do mar desce a barca infortunada.
Seus navios irmãos, retidos pelas ameaças prussianas,
Embora ansiosos, mostram-se impotentes para socorrer.
Godo três vezes maldito! Tua presa já abatida,
Ainda assim deves afogar centenas de indefesos!
O crime consumado, recua agora o inimigo,
E em sua fuga pusilânime rememora seus feitos.
Vingança! Das nações irmãs ecoa o clamor.
Devem os mortais morrer assim sem culpa alguma?
Devem lobos raivosos rondar as ondas impunes,
E golpear a esmo quando ninguém pode salvar?
Leis do mundo! Não tendes força para fulminar
As hordas infernais que assombram o mundo?
Há de o homem sucumbir à loucura prussiana,
E a negra barbárie nos tragar a todos?
Despertai! Hemisférios torpes, para golpear
A serpente que a todos nós desafia por igual!
A cobra que espalha seus anéis venenosos e contorcidos
Sobre a bela terra, e pilha tudo o que vê.
Não ouvistes jamais em vossa infância
A enigmática proclamação da Palavra Sagrada,
De que ele, a serpente que ferirá nosso calcanhar,
Deve por sua vez sentir nossos golpes mais fortes?
Chegado é o momento, nosso calcanhar sentiu seu ferrão;
Que nossa ira justa precipite agora a sua ruína.
Que o homem, unido, esmague a cabeça sibilante
Que o mundo inteiro aprendeu a odiar e temer.
Sufoque a vil ameaça que só se abre para mentir,
E em seu próprio veneno pereça a víbora.
Às armas! Ó nações, e aclamai a alvorada
Em que uma segunda liberdade há de nascer!