No canto VII da *Ilíada*, após o fim do canto VI, em que Heitor se dirigiu ao palácio acompanhado de seu irmão Páris, a narrativa retoma a violenta chegada desses dois heróis ao campo de batalha, onde atacam os aqueus e provocam uma reviravolta na luta. Atena, do Olimpo, desce rapidamente para auxiliar os aqueus; Apolo, que está ao lado dos troianos, corre atrás dela para tentar intervir. O deus questiona por que Atena está ajudando o inimigo e propõe que ambos deixem de apoiar seus respectivos exércitos, buscando encerrar a guerra. Sugere, então, que se realize o duelo que deveria ter ocorrido entre Menelau e Páris, no qual o vencedor representaria seu exército. Como Páris já foi afastado, Apolo indica Heitor, homem honrado e o melhor representante dos troianos, para enfrentar um campeão aqueu.
Atena aceita a proposta. Enquanto isso, Helénos, irmão de Heitor e vidente troiano, relata ter ouvido os deuses conversarem sobre o assunto e assegura que aquele não será o fim dos troianos. Heitor, satisfeito, aceita o desafio e posiciona‑se à frente dos troianos, ordenando que todos recuem e se sentem para ouvir o que tem a dizer. Curiosamente, os aqueus obedecem ao mesmo comando: Agamêmnon (referido como Hâmenon) também faz seu exército sentar‑se, permitindo que Heitor fale.
Heitor argumenta que, se o juramento anterior não foi aceito por Zeus, deve‑se refazer o pacto e estabelecer um novo desafio. Os aqueus, embora envergonhados de recusar, temem aceitar porque Heitor é, de longe, o mais temível dos troianos. Menelau, então, ergue‑se como o único a aceitar o duelo, insultando os demais soldados e chamando‑os de “mulherzinhas”. Agamêmnon repreende o irmão, afirmando que Heitor é muito mais forte e que Menelau não tem condições de enfrentá‑lo; proíbe‑o de lutar, e Menelau obedece.
Nestor, o velho conselheiro, faz um discurso inflamado, dizendo que, se fosse jovem, também aceitaria o combate. Inspirados, vários aqueus se voluntariam: primeiro Ajax, o gigante de grande estatura, seguido por Diomedes, que já havia se destacado nos episódios anteriores. Depois levantam‑se o outro Ajax (de estatura mais normal), Idomeneu, Meriones, Eurípilo, Teucro e, por fim, Ulisses, que até então permanecia discreto, mas que será protagonista da *Odisseia*.
Para decidir quem enfrentará Heitor, Nestor propõe sortear entre os voluntários. Enquanto preparam o sorteio, todo o exército aqueu reza a Zeus para que a sorte caia sobre Ajax ou Diomedes, pois ambos são reconhecidos como os maiores guerreiros, à exceção de Aquiles. O sorteio recai sobre Ajax. O gigante declara estar feliz, mas pede que todos orem a Zeus por ele.
Ajax avança ao duelo, enquanto os troianos observam apreensivos. Heitor lança sua lança contra o escudo de Ajax, descrito como uma torre de múltiplas camadas que chega ao chão. A lança quase o atravessa, parando apenas na última camada. Em resposta, Ajax lança a sua lança contra o escudo de Heitor; a arma rasga o escudo, corta a túnica do troiano e fica presa. Cada um retira a lança do adversário, corre em direção ao outro e tenta novamente. Ajax, de perto, fere novamente o escudo de Heitor, rasgando-lhe o pescoço e fazendo sangrar o herói. Heitor tenta contra‑atacar com uma pedra pesada, atingindo o escudo de Ajax, que cai de costas. Antes que Ajax se aproxime, Apolo intervém, ajudando Heitor a levantar‑se.
Mesmo com a vantagem clara de Ajax, dois combatentes, um de cada lado, suplicam que o duelo cesse, alegando que ambos são queridos por Zeus e que a luta deveria terminar. Ajax, surpreendentemente, concorda em parar; Heitor, por sua vez, aceita a proposta. Os dois sugerem ainda que troquem presentes como sinal de amizade, encerrando assim o confronto. O plano de Atena e Apolo, portanto, fracassa.
Com a pausa, Nestor lembra a todos que não devem esquecer os mortos; os dois exércitos preparam os rituais fúnebres para dar um fim digno aos que caíram. Entre os troianos, surge uma discussão liderada por Antenor, que defende a devolução de Helena e dos tesouros que Páris tomou de Argos. Páris recusa devolver Helena, mas se dispõe a entregar os tesouros. Príamo, pai de Heitor, aceita a ideia e envia mensageiros aos aqueus, pedindo que Menelau e Agamêmnon considerem a proposta. Diomedes rejeita, afirmando que a guerra será resolvida “na base da pancada”. Agamêmnon, por sua vez, concorda que, se os troianos quiserem recuperar os corpos dos guerreiros, isso pode ser feito, e ambos os lados aceitam uma trégua para recolher os mortos.
Durante a trégua, os aqueus empilham os corpos para queimar e, aproveitando o intervalo, iniciam a construção de uma grande muralha e de uma vala defensiva próximo às embarcações. No Olimpo, Poseidon, que até então permanecia silencioso, manifesta‑se indignado: reclama a Zeus que os humanos estão erguendo a muralha sem oferecer sacrifícios e ameaça destruir a obra. Zeus, ao ouvir a queixa, troveja violentamente, fazendo os aqueus cessarem a festa até que realizem as libações adequadas ao deus.
Assim se encerra o canto VII, com ambos os exércitos em trégua, preparando os rituais fúnebres, enquanto os deuses observam e intervêm nos destinos dos mortais.