O debate sobre a validade da pena de morte muitas vezes esbarra nos horrores psicológicos que antecedem a execução, um tema central na literatura clássica de denúncia social. A obra de Victor Hugo sobre o tema expõe de forma visceral a angústia dos condenados e serve como um contundente panfleto contra essa prática.
O protagonista é condenado logo no começo da história. É um livro narrado pelo próprio criminoso, que não está arrependido. A primeira coisa que acontece no livro é ele falando sobre si mesmo; ele começa se lamentando, dizendo que perdeu a liberdade. Ele explica do jeito dele que, na verdade, perdeu a liberdade na mente, não só fisicamente, e só consegue pensar na sua pena nesses termos. Como ele ainda não tinha sido condenado à morte de forma definitiva — ou contando o período anterior —, essa tortura é a pena de morte, embora ele fosse muito contra ela. Em outros textos e no prefácio, ele descreve a pena de morte e o período de espera como uma verdadeira tortura, além da própria prisão, que já é infernal.
O livro é essencialmente sobre isso. O que você lê no texto inteiro é a descrição da ansiedade e de uma angústia psicológica terrível do personagem, repleta de fortes emoções. Você vê uma descrição intensa de o quanto aquilo o tortura. Há um trecho emblemático: "Meu corpo está acorrentado em uma masmorra. Minha mente está presa em uma ideia". É literalmente o resumo do que ele está falando: a mente presa numa ideia, tremendo constantemente tanto pelo que fez quanto pelo que lhe vai ser feito. Esses são aproximadamente todos os bens que o carrasco pode tirar dele.
Isso é interessante porque ele aponta, e esse é um tema que retorna várias vezes no livro, que já tiraram tudo dele, já arrancaram tudo. Mas o que ele vai perder? Fica evidente que o objetivo de Victor Hugo com esse texto é o que ele explicita em determinado momento: "Que o que aqui escrevo possa um dia ser útil aos outros, que isso faça detentores a julgar e que salve desgraçados inocentes ocupados da agonia a que estou condenado". Ele fala isso já no terceiro capítulo, quando está na cadeia, questionando se é verdade que precisa morrer amanhã ou talvez hoje, sem remédio e sem poder desfazer aquilo.
Victor Hugo quer discutir isso mesmo. É um grande panfletão, mas é ótimo justamente por isso; dois anos depois, a pena de morte desapareceu na França. Outra coisa que Victor Hugo faz nesse texto, de forma parecida com Kafka, é descer a lenha na burocracia, fazendo o leitor pegar nojo dela. O processo é narrado com ironia: há o atraso na primeira semana, depois o procedimento, a papelada, até que finalmente podem matar. E a burocracia envolve até a guilhotina sendo levada de um lugar para o outro, tendo que ser montada de novo, sendo limpa. A pena de morte acabou sendo revogada na França no século XIX, pois já não era mais tolerável.
Houve uma época em que se botava uma foto de Charles Dickens ali, que ele arrancava de um jornal, para olhar enquanto escrevia, não para dar sorte, mas para manter o rigor. Era como pensar: se Dickens não gostasse daquela página, ele teria que jogá-la fora. O nível de exigência era altíssimo. Afinal, Victor Hugo era visto como o autor ocidental que mais se preocupava em falar de Deus e falar com Deus. Ele realmente tentava escrever para agradar a todas as elites, fazendo algo que soasse belo para todo mundo, embora as traduções nunca consigan capturar exatamente a mesma essência.
Há uma frase marcante que ilustra bem o impacto colateral da condenação: "Concordo que eu devo ser castigado. Mas o que fizeram estes inocentes? Nada importa que fiquem desonrados e reduzidos à miséria. É isto que se chama justiça?". Ou seja, a família dele sofre junto com ele, e esse é um arco que ele fecha depois. A parte mais legal do livro mostra que existem pessoas ainda piores do que ele. Do ponto de vista da defesa da extinção da pena de morte, ele está dando vários tiros no pé, mas não está nem aí para isso. Ele quer falar claramente: não importa se quem vai morrer é alguém que você gosta, um parente, ou se é o Joãozinho da esquina, que é uma pessoa dócil e que de repente pode ter sido condenada injustamente — não faça isso. Ele defende a extinção da pena de morte em qualquer caso, mesmo para aqueles que são pessoas nojentas, abjetas, que cometeram coisas terríveis.