Neste vídeo, o canal Universo Antares explora o Canto 9 da Odisseia, revelando o momento crucial em que o heroísmo de Odisseu cede lugar à arrogância. A análise detalha os eventos que transformaram o retorno triunfal do herói de Troia em uma década de tormentos e perseguições divinas.
Você sabe por que Odisseu demorou tanto para voltar para casa? Odisseu sobreviveu aos dez anos da famosa Guerra de Troia, mas foi derrotado pela sua própria língua. Foram mais dez anos de castigo por causa de uma única frase, uma frase arrogante dita para alguém que já estava derrotado, porque Odisseu precisava muito ter o seu ego massageado. Hoje, neste vídeo sobre o Canto 9 da Odisseia, você vai ver o momento exato em que a vitória de Odisseu se transformou no seu pior pesadelo.
Meu nome é Lucas Rosalém, você está no canal Universo Antares, onde a gente tenta te arrastar junto com a gente para a literatura pesada, aquela que realmente importa. E, neste vídeo, a gente vai entrar de cabeça numa das mais fascinantes histórias da literatura mundial, que parece falar só de mitologia e outras coisas bobas, mas que na verdade fala sobre o preço do orgulho humano. Estou falando da Odisseia de Homero, o segundo livro que mais impactou a cultura grega e, por consequência, a humanidade toda. Você mesmo, em algum nível, é influenciado por esse livro, mesmo que não saiba.
E, caso você não saiba nada sobre a Odisseia, uma recapitulação rapidinha: a Odisseia conta a história de um dos personagens mais icônicos da mitologia grega, que é Odisseu, aquele mesmo lá que teve a ideia do famoso cavalo de Troia, de que eu vou falar daqui a pouquinho. E o que a gente vai ver neste vídeo aqui é o Canto 9, que é o canto onde o livro trata especificamente do motivo principal que gerou essa aventura.
Bom, e por que que isso só acontece no Canto 9? É que os primeiros cantos da Odisseia mostram como, dez anos depois da Guerra de Troia, Odisseu ainda estava tentando voltar para a sua terra, para Ítaca, e mostram também como a sua esposa, Penélope, e o seu filho, Telêmaco, estavam enfrentando uma situação muito difícil, com vários homens tentando tomar a mulher de Odisseu como esposa e ainda usufruindo dos bens do palácio de Ítaca. E é só no Canto 9 que nós descobrimos finalmente por que, afinal, Odisseu ainda não tinha conseguido voltar para casa, mesmo depois de tanto tempo. O que você vai ver comigo neste vídeo é o momento exato em que tudo muda na vida de Odisseu, porque Poseidon, o poderoso deus dos mares, jura impedir que ele volte para casa.
Mas antes de entrar nessa parte da história, vamos só recapitular rapidinho o que acontece especificamente no Canto 8, que foi o canto anterior que a gente viu no último vídeo desta playlist aqui. No Canto 8, Odisseu chega até a terra dos feácios do rei Alcino como um simples estrangeiro misterioso. Mas, no meio de uma festa lá, ele impressiona toda a corte quando é pressionado a participar de uma competição atlética para defender a sua honra, e acaba chamando muito a atenção do rei porque, em dois momentos específicos onde são cantadas músicas sobre a Guerra de Troia, Odisseu tentou esconder que estava se emocionado muito — tinha até chorado —, mas o rei percebeu e pediu que ele revelasse de uma vez quem exatamente ele era.
Bom, e é aqui que começa o Canto 9, e você está prestes a ver qual foi o erro que um dos maiores heróis gregos cometeu que custaria uma década da sua vida. Imagine a cena: o salão do palácio cheio de nobres feácios, todos em silêncio absoluto, enquanto este homem misterioso se levanta com aqueles olhos refletindo dez anos de sofrimento, e ele finalmente se pronuncia: "Eu sou Odisseu, filho de Laertes. Eu sou conhecido entre os homens pela minha astúcia. A minha fama chega até os céus." Olha como começa essa fala de Odisseu. E, com isso, todo mundo na sala prende a respiração. O lendário herói da Guerra de Troia estava ali diante deles, o grande Odisseu estava diante deles, aquele mesmo das músicas que eles tinham acabado de cantar.
Odisseu então descreve a sua amada terra, Ítaca, com detalhes tão vívidos que você quase pode sentir a brisa marítima. Você sente que conhece as montanhas rochosas da ilha natal do herói que está na sua frente. E então ele começa a contar: "Tudo começou quando nós deixamos as ruínas fumegantes de Troia." E aquela voz carregada de uma emoção sincera já faz metade do povo tremer. "Nossos navios estavam carregados de tesouros e a esperança de um retorno glorioso, triunfal. Mal sabíamos que os deuses tinham outros planos."
Odisseu então conta que a primeira parada da tripulação tinha sido na terra dos cícones, ou cicônios, onde ele e os seus homens saquearam a cidade. Foi ali que o primeiro erro fatal aconteceu. Enquanto Odisseu ordenava uma retirada rápida, os seus homens, embriagados pela vitória, ignoraram completamente as suas ordens. Eles imploraram por mais tempo para festejar e saquear, e aquela teimosia custou a vida de muitos bravos guerreiros. Odisseu conta que, enquanto seus homens festejavam, os cícones sobreviventes reuniram aliados das cidades vizinhas, e o ataque foi devastador. Só nesse episódio, Odisseu perdeu seis homens de cada navio antes de conseguir escapar para o mar.
E, quando você pensa que as coisas não poderiam piorar, Zeus, o rei dos deuses, enviou uma tempestade monstruosa que quase destruiu a frota toda. Eles ficaram ali por dois dias e duas noites lutando contra as ondas gigantescas, rezando pelas suas vidas. E, quando finalmente a tempestade cessou, um vento, chamado de traiçoeiro por eles, os empurrou para uma terra desconhecida: a terra dos lotófagos, os comedores de flores de lótus.
"Enviei três homens para explorar." Aqui a gente parece até sentir que Odisseu baixa a voz para contar, é quase como se ele compartilhasse um segredo. "Quando vi que os três homens não retornavam, fui procurá-los eu mesmo e descobri uma coisa aterrorizante." Quem poderia imaginar, né? Os três homens que ele enviou acabaram provando da flor de lótus, e essa flor de lótus era uma planta com poder narcótico tão forte que fazia qualquer pessoa esquecer completamente o seu passado, esquecer a sua família, o desejo de voltar para casa, fazendo os caras ficarem ali completamente focados em consumir mais e mais daquela flor. E foi assim, em transe, que esses caras recusaram-se a deixar aquele lugar, querendo só continuar comendo aquela flor mágica pelo resto das suas vidas. Tive que arrastá-los de volta aos navios à força. Eles choraram e imploraram para ficar, como crianças sendo separadas de seus brinquedos favoritos.
Mas o verdadeiro problema, o verdadeiro pesadelo, ainda estava por vir. Depois de deixar a terra dos lotófagos, eles chegaram a uma ilha aparentemente desabitada, cheia de cabras selvagens, que eles aproveitaram para caçar e festejar. Mas Odisseu percebeu que, de uma outra ilha maior e perto dali, estavam vindo sons muito estranhos. E Odisseu, curioso demais, sem medo de nada e doido para arrumar um problema para a cabeça, selecionou os doze melhores homens para investigar o que é que tinha lá. Como esses homens estavam ali no clima de festejar e tal, eles levaram para lá um odre de vinho especial que era tão forte que precisava ser diluído em vinte partes de água para poder ser bebido.
Chegando à ilha, eles encontram uma caverna enorme e, lá dentro, encontram bastante queijo fresco e alguns cordeiros encercados, que indicavam que alguém ou algo vivia ali certamente. Meus homens queriam apenas pegar os queijos e fugir, mas eu insisti em esperar para conhecer o dono da caverna. Esse foi o seu segundo erro fatal. Quando o dono do lugar finalmente chega, a terra treme sob os seus passos. Era um gigante monstruoso com um único olho, o filho de Poseidon chamado Polifemo, um dos mais terríveis ciclopes. E, enquanto Odisseu vai narrando para os feácios, eles vão se inclinando para a frente para ouvir melhor. "Ele era maior que qualquer criatura que eu já tinha visto. Quando entrou na caverna, bloqueou a entrada com uma pedra tão grande que vinte carroças não conseguiriam movê-la."
Olha só, essa história aqui é muito legal. Mas, antes que eu continue, deixa eu convidar você que conseguiu chegar até aqui para fazer parte da nossa comunidade de amantes da literatura clássica. O primeiro passo para você fazer isso é bem fácil: é só você clicar aqui no botão para se inscrever, ativar as notificações para não perder mais nenhum vídeo nosso e clicar no terceiro link aqui embaixo na descrição, que vai te levar direto para o nosso grupo no Telegram. Lá, a gente só fala sobre literatura e sobre escrita. Lá nós já somos mais de 400 pessoas falando só sobre escrita e literatura, e eu gostaria de ver você lá também. Bom, o link está aqui embaixo.
E agora a gente volta para a caverna do ciclope. Quando Polifemo avistou os estranhos na sua casa, a sua voz trovejou: "Quem são vocês? Ladrões? Piratas?" Odisseu, confiando nas antigas leis de hospitalidade protegidas por Zeus, se apresenta e pede abrigo, como era costume entre os gregos. Mas a resposta do ciclope gela o sangue de todo mundo que está ali: "Nós, ciclopes, não nos importamos com Zeus ou qualquer outro deus; somos mais fortes que eles." E, meu amigo, para provar o seu ponto, Polifemo agarra dois dos homens de Odisseu, esmaga a cabeça deles contra a parede da caverna e os devora crus. Aquele som, o som dos ossos sendo quebrados, aquilo ainda ecua nos meus pesadelos. O ciclope só termina de engolir os guerreiros, se deita, dorme, e quem ficou ali vivo não pôde fazer nada. Porque, lembra? Uma rocha tão grande que vinte carroças não conseguiriam tirar do lugar foi colocada para tampar a entrada da caverna. E foi justamente por isso que a primeira ideia — que era cortar a cabeça do ciclope fora enquanto ele dormia — não foi executada por eles, pois como é que sairiam de lá depois? E foi assim que eles também simplesmente esperaram.
Na manhã seguinte, Polifemo acordou e, para o seu café da manhã, devorou mais dois homens de Odisseu. E o que acontece é o seguinte: ele termina de devorar os guerreiros, tira a pedra da entrada, sai com o seu rebanho e fecha de novo. E aí, preso ali na caverna com seus homens aterrorizados, Odisseu precisava de um plano. Foi quando ele percebeu que tinha por ali um tronco enorme de oliveira que o ciclope usava como cajado. Enquanto o monstro pastoreava suas ovelhas, Odisseu e seus homens começaram a afiar a ponta daquele tronco para uma das partes do plano que haviam arquitetado.
Quando Polifemo retornou e devorou mais dois homens, Odisseu começou a pôr o seu plano em prática. Nessa primeira parte, a primeira coisa que Odisseu fez foi oferecer ao ciclope aquele vinho especial que havia trazido. "É o melhor vinho que eu já provei", disse o ciclope depois de vários copos, já totalmente embriagado. "Diga-me o seu nome, estrangeiro, para que eu possa lhe dar um presente." E aqui vem o momento da mais pura genialidade de Odisseu, provando que ele realmente fazia jus ao personagem lendário que as pessoas já conheciam. Com um sorriso astuto no rosto, ele responde o seguinte: "O meu nome é Ninguém. Todos me chamam assim." O ciclope, já em sua embriaguez, ri e diz: "Então, Ninguém, meu presente será devorá-lo por último, depois de todos os seus companheiros." E ele simplesmente vira para o lado e cai num sono profundo, vencido por aquele vinho poderoso.
Era o momento que eles esperavam. Odisseu e mais quatro homens escolhidos pegaram aquele tronco afiado e, com toda a força, cravaram no meio do único olho do ciclope adormecido. O urro de dor do gigante foi tão alto que abalou as paredes da caverna. Polifemo, agora cego, gritava por ajuda aos outros ciclopes da ilha. "O que aconteceu? O que aconteceu?", gritavam os outros ciclopes de fora da caverna, perguntando: "Alguém está tentando te matar?" E é aqui que entra o brilhantismo do plano de Odisseu, porque Polifemo só conseguia responder o seguinte: "Ninguém está me atacando! Ninguém me cegou!" Os outros ciclopes, confusos, concluíram que, se ninguém o estava atacando, só podia ser alguma doença enviada por Zeus ou alguma coisa assim, e que era melhor não se meterem. Eles até falaram isso para ele: "Reza ao teu pai, Poseidon, para que ele te cure." E eles simplesmente, meu amigo, foram embora.
Mas, calma, os homens de Odisseu ainda tinham um problema: como iriam sair agora da caverna? É aqui que entra a última parte do plano. De manhã, quando Polifemo teve que abrir de novo a entrada da caverna para deixar o seu rebanho sair para pastar, ele se sentou do lado da saída e ficou apalpando cada um dos animais que passava. É claro, ele queria garantir que apenas os animais saíssem e que os homens de Odisseu não conseguissem escapar. Mas Odisseu teve uma ideia: amarrou cada um de seus homens embaixo dos maiores carneiros que havia por ali. Assim, quando o ciclope apalpava os carneiros, não percebia que, escondidos embaixo deles, estavam os homens.
O plano funciona. Enquanto o ciclope apalpa um a um os animais, não percebe que os homens vão escapando da caverna. Dali, os homens saem correndo, vão para os navios e, prontos para partir, quando Odisseu poderia simplesmente ter fugido em silêncio, ele comete o seu terceiro erro fatal e o pior de todos.
"Ei, ciclope!", grita Odisseu lá do seu navio. "Se alguém perguntar quem te cegou, diga que foi Odisseu, filho de Laertes, destruidor de cidades, morador de Ítaca!" Puxa vida, Odisseu, que vacilo! Por puro orgulho, por puro ego e mais nada. E essa revelação de Odisseu a Polifemo é o que sela o seu destino. Olha o que acontece logo a seguir, para você ter uma noção do tamanho da força de Polifemo: quando ele escuta aquilo, fica mais furioso do que já estava, arranca o topo de uma montanha com as mãos e arremessa na direção da voz que está ouvindo. Ele não acerta, a pedra cai perto do navio, mas o impacto na água é tão grande que a onda criada pela pancada quase leva os barcos de volta à praia.
Meus homens imploraram para que eu ficasse quieto, mas o meu orgulho falou mais alto. E o ciclope agora, sabendo o nome verdadeiro do seu inimigo, ergueu as mãos aos céus e clamou: "Pai Poseidon, se sou verdadeiramente seu filho, conceda-me este desejo: que Odisseu nunca chegue à sua casa em Ítaca; e, se o destino determinar que ele deve retornar, que chegue tarde, após perder todos os seus companheiros em um navio estrangeiro, e ainda encontre os piores problemas no seu palácio."
Nessa hora, meu amigo, o céu escureceu quando Poseidon ouviu as preces do seu filho. E foi assim que, com algumas palavras imprudentes nascidas do puro orgulho de Odisseu, ele conseguiu fazer com que um dos três maiores deuses da mitologia grega virasse seu inimigo pessoal. "Foi assim que a minha jornada de dez anos começou. Por causa do meu orgulho, perdi dez anos da minha vida e a maioria dos meus homens."
O que Odisseu não perdeu foi a esperança de voltar para casa e rever sua família. Mas é nesse ponto que a gente termina o Canto 9, com a revelação do motivo exato pelo qual Poseidon, rei dos mares, perseguiu Odisseu por dez longos anos, mostrando pra gente as consequências do orgulho infantil para lembrar a importância de mantermos a humildade mesmo nos momentos de maior triunfo. Odisseu, com toda a sua astúcia, não conseguiu se controlar, não conseguiu controlar o impulso de se vangloriar, e pagou um preço terrível por isso. E, pior, muita gente em volta dele pagou junto.
Nós aqui ainda temos muita coisa para falar sobre isso, sobre esse personagem, sobre este livro. E é por isso que, no próximo vídeo, a gente vai continuar falando da jornada de Odisseu, mostrando o seu encontro com a feiticeira Circe e mais um monte de perigos que o aguardavam lá na terra dos mortos. Será que você sabe de qual lugar eu estou falando? Será que você sabe como Odisseu chegou lá, o que aconteceu lá e, mais importante, como ele conseguiu escapar de lá? Esse é um dos assuntos do próximo vídeo.
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