No debate sobre a *Ilíada*, a forma como as divindades olímpicas se manifestam aos mortais revela muito sobre suas verdadeiras intenções e limites na Terra.
Quase todas as vezes que um deus interage de forma pública com os homens, ele o faz travestido de alguém. Por exemplo, lá no começo, Zeus diz para Atena descer e fazer algo, gerando o que chamamos de inspiração ou incitação. Os deuses incitam as pessoas, mas não fazem isso entrando diretamente na cabeça delas. No início do texto, Atena chega a puxar os cabelos de Aquiles para trás para falar com ele — e ali acontece algo curioso, pois eles têm uma longa conversa e ninguém mais percebe nada, como se o tempo parasse. Só Aquiles a vê.
Quando a interação é para todo mundo ver, ou seja, quando há algo físico que pode ser palpado, os deuses assumem o formato de alguém. Tem um momento em que Íris tenta enganar e incitar o Octor, chegando na forma de um guerreiro que guarda o portão e entrando entre os troianos com essa aparência específica. Isso acontece o tempo todo.
Por que eles fazem isso? Porque não estão querendo interagir de fato no sentido de uma comunhão verdadeira; o que eles querem é manipular. No canto quarto, por exemplo, a incitação dos troianos ocorre da seguinte forma: Atena vai falar com Pândaro, o melhor flecheiro deles, que tem um arco gigante. Ela entra na pele de um soldado local. Isso acontece logo após o duelo frustrado entre Menelau e Paris, no qual Paris some dali. Fica todo mundo esperando para ver se os troianos vão cumprir o juramento após a vitória de Menelau, naquele silêncio constrangedor. É então que Zeus pede para Atena agitar as coisas. Ela desce e se traveste de um camarada que está no meio da tropa para ir atrás de Pândaro, dizendo-lhe: "Será que você tem a coragem de meter uma flecha em Menelau? Se fizer isso, Paris ficará feliz e lhe dará recompensas".
Por que Atena não apareceu para Pândaro como uma deusa imponente, do mesmo modo que fez com Aquiles, ordenando diretamente o ataque? Porque ela não quer se comprometer. A moral dos deuses é meio estranha, eles são meio fanfarrões, iguais aos homens; portanto, ela não quer se expor, quer apenas manipular.
No entanto, nem sempre a dinâmica se resume a isso, principalmente por dois motivos. O primeiro, mais óbvio, é que os deuses têm muitos filhos. Sendo assim, a interação deles não se restringe à manipulação fria, pois há uma defesa constante de sua prole. O segundo motivo é que eles facilmente se comovem com as dores dos humanos, passam a ter seus favoritos e interferem para ajudá-los. Há um momento em que Zeus, mesmo estando contra os aqueus — que estão sendo detonados —, vê Agamenon implorar por ajuda chorando. Zeus fica com pena dele e faz aparecer uma águia, dando um sinal no céu para indicar que dará uma forcinha. Mesmo nesse caso, ele não aparece pessoalmente, mas envia um sinal. Ainda assim, a base da interação deles é essencialmente a manipulação.
Por fim, vale lembrar que, antes desses deuses olímpicos, existiam os titãs, que foram derrotados, abrindo espaço para os novos ocupantes do panteão. Isso abre margem para pensar que figuras como Aquiles — que é filho de uma deusa com um humano —, dependendo de seus atos heroicos, também poderiam aspirar a um lugar na imortalidade.