Me ocorreu o seguinte a partir de uma pergunta: por que Homero é tão importante para Aristóteles? Muita coisa que ele vai analisar na Poética vai sair basicamente de Eurípides, Sófocles — esqueci o nome do outro, o principal, quem é o cara? Sófocles —, além do Homero. Tem mais alguém importante lá? Ésquilo e Aristófanes. Então, o Homero para ele é o cara, e muita coisa ele cita dali, fazendo também as suas ressalvas e críticas em alguns lugares. Devia ficar meio com receio — "Ah, vou dar uma criticada aqui" —, mas numa obra tão grande quanto a Ilíada, por exemplo, não tinha como não pontuar alguma coisa do gosto dele. E não sem motivo, ele faz algumas críticas a Homero que são bem interessantes.
Agora, me ocorreu aqui que, independente da resposta que vamos dar sobre o motivo de ele julgar Homero superior aos outros, num curso sobre escrita criativa a partir da Poética, pode ser interessante usar mais Homero do que ele usa na Poética. Porque ele vai pressupondo que o leitor está sabendo do que ele está falando; tem muita coisa ali que ele vai jogando, sendo bem conciso. A Poética é super pequenininha.
Eu acho que a pergunta pode ser outra — não sei se posso estar errado, mas acho que o ponto é outro. Quando o Platão aponta para cima, digamos, é o joinha; um fala que a pintura é ruim, o outro fala que a pintura é show. Acho que é isso. Platão aponta para baixo porque ele diz que as artes, não só a literatura mas as artes no geral, são cópias das cópias. Então você está a três graus de distância da realidade.
Se você tem o mundo das substâncias, das formas, que é um mundo perfeito porque é regido pelo mundo que é mais perfeito ainda — que é o mundo dos princípios —, você tem o mundo imanente, o mundo real nosso aqui, que é o mundo das sombras, o mundo sensível. O mundo das sombras é um mundo… Na Bíblia é dito, acho que é *hevel*, a palavra em hebraico que significa fumaça; ele fala que este mundo é fumaça, geralmente traduzido como mentira. Este mundo é fumaça, tudo muda. As formas na fumaça assumem uma forma e depois se desmancham no nada; nada se mantém. O cavalo não fica cavalgando para sempre, o cavalo não é o cavalo perfeito que corre sem parar o tempo todo. O cavalo aqui tem que parar para comer, para defecar, para dormir. Ele não fica fazendo coisa de cavalo o tempo todo.
O mundo dos princípios diz para o mundo das formas e para o mundo das sombras fazerem as coisas: "Ó, que haja cavalo e que o cavalo cavalgue". Cavalgar é ficar correndo. Sabe o mundo das formas? O cavalo corre sem parar, a forma do cavalo corre e não para; é um movimento circular infinito, perfeito, um círculo perfeito. Saca? O cavalo correndo sem parar. No nosso mundo, o cavalo come, caga, se machuca, morre. Ele nasce — não nasce correndo, nasce andando —, mas ele não nasce galopando correndo como um garatão no mundo das formas, onde o cavalo já está perfeito.
Só que a pintura tenta falar sobre o mundo das formas, ou mesmo sobre o mundo sensível ou o mundo dos princípios, mas ela é uma imitação. Ela não consegue capturar aquilo perfeitamente; ela consegue pegar como se fosse um *frame* do cavalo cavalgando perfeitamente no mundo das formas, mas não consegue pegar o movimento. Talvez, se Platão visse o cinema, ele adoraria e diria que o cinema é perfeito. Quando visse os primeiros filmes, pensaria: "O cavalo realmente está cavalgando! O cavalo está cavalgando sem parar!". Tem um círculo com a fita de filme rodando, e o cavalo está cavalgando sem parar, mantém o cavalo cavalgando. O trem chegando… É muito bom! O primeiro cinéfilo seria Platão.
Mas Aristóteles, quando vai comparar, a comparação que ele mais faz na Poética é com a pintura, e ele acha que a poética tem um papel fundamental na ética. Isso aqui é interpretação minha, minha interpretação de Aristóteles — que é a correta, obviamente, em absoluto —, de que a poética bem feita é um instrumento útil para a edificação do homem no seu interior, edificação das virtudes no homem para que ele se torne virtuoso. A ética das virtudes dele, a Ética a Nicômaco, se aproveita da poética não de maneira ruim, parasitária, mas simbiótica. Ela se estrutura também, não somente mas também, em cima do contato com a boa poética, da constante catarse com diferentes situações possíveis — que é o que o discurso poético faz. E desta maneira, sendo uma pessoa melhor, sendo uma pessoa virtuosa, ele pode transbordar essa virtude para a sociedade. Não que ele vá fazer os outros ficarem virtuosos necessariamente, mas que ele vai ser virtuoso na sua função social, e os outros também sendo, teremos uma sociedade virtuosa onde todo mundo faz tudo o que tem que fazer. Tipo: o carteiro carteia, o guarda guarda, o político politiza, o ancap ancapiza, o teólogo teologiza. Todo mundo faz tudo junto, circular, sem parar, para sempre, que nem no mundo das formas. O mundo das sombras de repente quase vira o mundo das formas, tipo um cinema na vida real.
Enfim, só para dar uma alfinetada nisso. Eu nem acho que essa seja bem a ênfase principal de Aristóteles na Poética como edificadora, nem acho que seja nessa ideia que temos hoje de fazer um uso intencionalmente social da arte. Apesar de ele fazer isso, a poética nasce num contexto onde ela tinha um papel pedagógico muito importante. Então era óbvio que ele veria a poética desse jeito, ele não tinha como ver de outro. Homero era usado assim e continua sendo usado assim depois. Eu estudei história e me lembro de termos uma matéria quase inteira só para ficar falando disso, do uso pedagógico de Homero que passou pelas eras. Então, se isso é importante para eles, obviamente isso ia ter um lugar na Poética, no livro dele.
Mas enfim, quem está aí? Alguém deu um salve? Dá um salve aí, galera! O que você está falando aí é que ele não se limita a isso, né? Ele te ensina a construir uma boa história, ainda que você não busque os mesmos propósitos que ele. Eu concordo contigo, é isso mesmo. Ele te ensina a construir uma boa história independentemente de ela servir ou não para os propósitos dele — ainda que ele ache que sempre vai servir.
A pintura seria assim: Platão olharia e diria "vai nessa aí, vai dar certo", e Aristóteles, olhando para Platão e desaprovando, diria "não vai dar certo não". E o Platão dizia "vai dar certo", e o Aristóteles falava "ah, sim, pô, olha só o cara chorando ali, ficou muito bom". É muito legal, cara. Vê a pintura e fala "ah, não era isso", tragando ele, meu Deus, e aí o cara chora, fica show. Muito obrigado, que bom, cara.