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O que é DRAMA para Aristóteles? E Peripecia?

O que é DRAMA para Aristóteles? E Peripecia?

Mas tem uma das críticas que são feitas, a partir do jeito que o Aristóteles tenta explicar a própria noção de drama dele, que é a verosimilhança. Então uma outra acusação seria que, se não for ou se não tem verossimilhança para o Aristóteles, não presta. O que é meio complicado. Se fosse verdade, imagina só, é só pensar um pouco no que eu estou falando: será que, para entrar no critério de uma boa trama do Aristóteles, precisa ser verossímil? Tudo tem que ser assim? Quer dizer, isso faria sentido se fosse verdade. A acusação é que ele despreza o que não é verossímil, é isso. A inverossimilhança — estou falando certo? Sim, inverossimilhança. Essa palavra está me atrapalhando no meu raciocínio. Se fosse esse o caso mesmo, ia ser um ponto negativo da Poética. Mas é fato isso, Panda? O que não é verossímil é descartado na Poética? De jeito nenhum! Isso aí é defendido pelo pessoal que gosta de narrativas exclusivamente seculares, que não curte muito a questão do maravilhoso, que a gente chama na literatura. Maravilhoso, não que seja bom, mas é a questão da fantasia, que a gente chama de fantasia, tipo, sei lá, dragões, fadas, deuses aparecendo aqui e ali, seres colossais, enfim, essas coisas, magia no geral e seres mágicos. E isso não devia passar? De jeito nenhum!

Separei um trecho aqui, capítulo 18, vou ler para vocês, é pequenininho. Vocês deram sorte, é um dos pequenos: "Nas peripécias e nas ações simples" — peripécia é… Deixa eu explicar isso, dar um disclaimer aqui: peripécia são grandes ações, tipo, o cara chegou para você e você falou assim: "Meu Deus, estou tenso porque não sei quê… Ah, deixa eu evitar uma coisa aqui, estou tenso demais porque o meu pai está chegando e ele vai me matar porque eu estou apaixonado pela mulher dele, e ele vai matar e vai ser horrível, e vai ser terrível, não posso falar com a mulher dele, vai ser horrível". E aí chega alguém e fala: "Opa, seu pai morreu". E ele fala: "Meu Deus, eu tinha falado para ela que eu não a amava, eu tenho que ir lá desfazer isso! Tenho que desfazer!". E aí, entendeu? O exemplo que eu peguei aqui, gente, não é do teatro grego antigo, é do teatro raciniano, que aí já é bem diferente, mas que se inspira… Só que, enfim, não vem ao caso, mas vamos lá voltar para quem tem mente raciniana sabe quem é. Só para pontuar aqui, ó, tá bom, só para pontuar aqui: a peripécia a gente poderia chamar de ponto de virada hoje, ou um twist. Mas é o twist que é feito pelo personagem; o personagem faz, op, dá a virada. Mas enfim, vamos lá: "Nas peripécias, que eu expliquei, e nas ações simples, geralmente os poetas alcançam de forma admirável seus objetivos, a saber, o que é trágico e o que desperta a simpatia. Isto acontece quando um homem esperto, mas mau, é enganado, como Sísifo, e quando um homem valente, mas injusto, é vencido. Isto é verossímil, como diz Ágaton, pois o verossímil acontece muitas vezes contra a verossimilhança".

Ou seja, voltando, vou pegar o exemplo que eu já usei aqui — tudo bem que não é drama, não é nem teatro grego, mas é um exemplo que eu usei aqui que vai ser muito bom —, Madame Bovary. Uma moça que foi para o convento, ela era melhor… Emma Bovary antes de ser Bovary, a Emma, o nome dela anterior… Mas enfim, a Emma, quando não era Bovary, ela foi para o convento e ela era melhor em tudo, tudo o que ela fazia era sinistra, tinha isso. Mas ela passou o período de seis meses ali que ela lia como doida, romances, romances românticos, romances de amor, romances do Walter Scott, por exemplo (um autor que existe, Walter Scott) e romances históricos. Ela sonhava com aquilo, ela adorava, adorava, adorava. Ela começou a meio que se rebelar um pouquinho no convento e foi convidada a ir embora, e os últimos seis meses dela foram de ruptura. Mas ela buscou, né? Depois que sai do convento, a vida era chata, a vida era chata, enfim, e ela acabou se casando, achando que, se casando, ela vai conseguir tudo aquilo naqueles romances que tinha, tudo o que tinha ali do Walter Scott e outros autores, né? Ela achou que ia conseguir aquilo. Só que ela achava que ela tinha que se comportar como freira… Não freira, mas como uma moça que foi criada em convento. E aí ela se comporta assim, ela resiste às primeiras investidas do… O nome do cara começa com R, enfim, não interessa, dos primeiros amantes… Quando eles ainda não são amantes dela, os primeiros candidatos a amantes dela, ela resiste, ela resiste, ela tenta deixar para lá, ela se sente culpada, se sente mal. Você entende porque ela está se esforçando, mas ela vai cedendo aos pouquinhos, vai cedendo, cedendo, cedendo, e tem o ponto de virada que ela cede completamente.

Então assim, você fala: "Pô, é inverossímil que uma moça criada em convento caia nesse tipo de coisa e goste desse tipo de coisa?", a menos que ela tenha lido seis meses seguidos, tenha devorado livros, tenha faltado aulas de catequese para ler livros proibidos, livros de fornicação, livros perigosos para os fiéis, né? Ela leu, ela provou muito, ela provou o fruto proibido durante muito tempo e ela gostou, cara, ela gostou, sabe? Ela gostou muito, gostou do sabor. É saboroso, né? O pecado é saboroso, no início pelo menos. Então você consegue entender.

Outro exemplo que eu vou citar rapidinho, que a gente falou várias vezes, é o Édipo. O Édipo é super inteligente, ele decifra enigmas, ele é adorado por todo mundo, ele é até um bom rei mesmo, ele realmente é um bom rei, ele é um cara muito inteligente. Como é que esse cara tão esperto, tão inteligente, um cara tão cabeçudo, como é que ele conseguiu cometer um erro tão grande? Eles explicam: ele matou o pai, não sabia que era o pai; ele… teve greve do… A mãe, casou com ela quatro vezes… Casou com ela, não sabia que era. Se ele soubesse, ele podia acabar fazendo? Ele só consegue ser… Ele só consegue orquestrar bem os elementos na cabeça dele quando ele os conhece bem. Se ele soubesse que fosse a mãe dele, ele não fazia; se ele soubesse que fosse o pai dele, ele não teria feito aquilo, né? Mas ele não conhecia, pronto.

Então, o teatro grego — não todo, vou tirar Eurípides, vai —, mas o de Ésquilo, do Sófocles, ele é todo assim, pô, todo assim. Vou dar um exemplo aqui do Ésquilo rapidão, pô, a questão da… como é que chama? Os Persas, a tragédia Os Persas, que é a mais antiga que a gente tem conservada. É a mais antiga, tem outras que são mais antigas que a gente não… só tem o título e o nome do autor. Mas enfim, o Ésquilo, pô, cara, para os atenienses, para os gregos atenienses, enfim, no geral, os persas eram bárbaros, povos bárbaros, violentos, e não tinha como ter pena deles, não. E o personagem com quem você mais se compadece é o Xerxes! Você se compadece com o que ele fez. Você vê ele no fim, ele chega, o último que chega na peça, ele chega lá e ele vai lá e chora e conta e chora tudo, e você fala: "Cara, que pena do cara, pô!". Você consegue imaginar o pessoal ateniense na época — mesmo que entenda que eles são, mesmo que entenda que eles são inimigos, que eles são bárbaros, que eles perderam por merecer, enfim — você entende a perda, você entende, você fala: "Pô, esse cara aqui, meu inimigo, ele é passivo de compaixão também", embora os crimes dele tenham sido punidos gravemente e justamente pelos deuses. Mas, caramba, sabe?

Então, a inverossimilhança aqui — eu puxei um pouquinho para além da Poética, porque esse terceiro exemplo aqui é no público, o público tipo ter pena do seu inimigo — mas a tragédia foi premiada, Os Persas foi premiada! A tragédia claramente mostra, ela tenta fazer você ter pena, sentir, sentir a catarse pelos persas, principalmente pelo Xerxes, que foi o cara que começou ali a… se não me engano, foram as guerras médicas, né, para tomar a península grega. Então, ter pena do cara, caramba, velho, ganhou o primeiro lugar, pô, então não foi pouca coisa, não. Mas enfim, vamos para a próxima pergunta… Seu áudio tá cortado. Desculpa, rapidão, só uma coisa antes da próxima… amador, fala. Desculpa, próxima coisa, só uma coisa rapidão. É que eu falei de fantasia, maravilhoso, não sei quê, né? Então, você tem umas esfinges no Édipo, você tem uma carruagem que pega fogo e voa no Medeia, você tem um monte de exemplo. Você tem… nos Persas, não, nos Persas tem uns raios que caem assim, tipo, tem muita, muita coisa que é mágica, que não aparece no palco, mas que, pô, no Prometeu, a peça Prometeu, do Ésquilo, também, sabe quem são os personagens? Não tem um ser humano, são todos deuses, todos titãs e deuses, só tem titã e deus a peça inteira, inteira, só tem titãs e deuses, titãs e deuses o tempo todo, titãs e deuses, não tem um ser humano, e é premiada, uma peça maravilhosa também. O que eu ia comentar era que era uma coisa parecida mesmo, porque ele gosta bastante do Homero. O Homero escreveu a Odisséia, por exemplo, então tem um monte de coisa maluca lá, assim, maluca mesmo. Tem um paralelo, né: canto um, humanos; canto dois, deuses; canto três, humanos; canto quatro, deuses; canto cinco… Toda hora tem um, tem o canto que é só para os deuses, tem metade da Ilíada que é só para os deuses, pô.