Com todas essas ressalvas que a gente fez, principalmente a partir da acusação de que Aristóteles só aceitaria situações muito verossímeis — o que é uma bobagem —, uma outra acusação é que ele também exigiria dos poetas uma escrita exageradamente clara. Da onde que vem essa ideia e por que que ela é falsa? Essa ideia vem de uma concepção errada do próprio texto. É uma leitura errada que se faz de outros trechos. Por quê? Se o personagem tem que ter um caráter claro — e falar "caráter claro" é meio pleonástico, porque ter caráter é ter transparência para com a sua alma; quando a gente fala para alguém "Lucas, você não tem caráter", o que eu estou dizendo é que ele é moldado, que ele mente, que ele finge as suas reais intenções, que ele tem duas caras ou várias, que ele tem máscaras que eu tenho que ir descascando tipo uma cebola infernal até achar onde é que está o brinquedo do kinder ovo (desculpa, entrei nos traumas de infância, mas isso existe e é muito triste) —, acaba que seria isso: se o personagem tem caráter, e o caráter dele se manifesta pelas falas dele e de outros, então tudo o que ele fala tem que ser claro, tem que ser claro como os céus.
E não é bem assim, pô. Não é bem assim. O conteúdo da fala dele tem que ser claro, mas a maneira como você vai contar, a construção — para usar uma palavra que não é nem um pouco clara, que é "sintagmática" —, a construção sintagmática não precisa ser assim, tipo, claríssima. Não precisa ser o mais óbvia possível. Vamos para a citação, porque para cada pergunta tem citação. No capítulo 19, no que diz respeito à elocução, à maneira de falar, um aspecto a considerar são as variantes da entoação, mas conhecê-las é próprio do ator e de quem é especialista neste assunto. Como, por exemplo, o que é uma ordem, uma súplica, uma narração, uma ameaça, uma pergunta, uma resposta e outras coisas semelhantes. O conhecimento ou desconhecimento dessas coisas não é motivo para que se faça uma séria censura à arte do poeta. De fato, quem consideraria erro o que Protágoras censura a Homero? A saber, que, pensando fazer uma prece — segundo Protágoras, Homero achava que estava fazendo uma prece ao dizer "Canta, ó deusa, a cólera…" —, o Protágoras está dizendo que o Homero, acreditando fazer uma prece na verdade dá uma ordem ao dizer "Canta, ó deusa, a cólera…". Mandar fazer ou não alguma coisa, diz ele, é uma ordem.
Ou seja, vou resumir aqui um pouquinho, porque pode ter ficado um pouco confuso. Vou esclarecer sobre a questão de você escrever de uma maneira que fique muito claro que você está fazendo uma pergunta, ou que está dando uma ordem, ou que está fazendo uma prece, ou algo assim. Isso é papel do ator, conseguir interpretar e conseguir entender isso. Então, Homero de fato, na primeira linha da Ilíada, ele fala "Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles filho de Peleu…" de maneira impositiva (no imperativo). E aí você pensa: "Pô, mas se é no imperativo, ele não está pedindo?". Na prece, a pessoa fala: "Ó deus, faça isso para mim, escute aí, faça isso". Mas fica a cargo do ator e do leitor interpretar e entender que aquilo ali, embora esteja falando dessa maneira, é uma prece. Porque senão você não ia conseguir fazer ironia, não ia conseguir fazer paráfrase, perífrase, não ia conseguir usar nenhuma figura de linguagem. Dizer "Musa, peço a você que me cante a cólera de Aquiles, o filho de Peleu" não é a mesma coisa que falar "Canta, ó musa, a cólera de Aquiles". É outra parada, entendeu?
Você pode usar várias figuras de linguagem, assim como Homero usa, assim como a Ilíada usa, assim como todos os trágicos e o nosso querido comediógrafo — como só tem um, não posso nem falar "os comediógrafos", tem que ser um só, o nosso querido cômico Aristófanes, que sobreviveu para a gente —, os três trágicos usam muito isso. E também tem os poetas líricos; até os líricos que são canonizados, tipo Píndaro, por exemplo, eles usam muita figura de linguagem. Píndaro, o cara, não dá para entender nada que ele fala. Ele é conhecido — e já era conhecido já no século V antes de Cristo — por ser hermético, por ser difícil de entender. E aí já complica um pouco, por quê? Porque ele faz referência da época, ele fala dos deuses, da cidade do cara, do sujeito que competiu na Olimpíada, que venceu sei lá no salto com vara nos Jogos Olímpicos (não sei se em Atenas, em Corinto). E ele fala da família do cara, faz referências que o pessoal da época entendia, sobre os feitos que aconteceram ali, a ascendência do cara, fala dos deuses dele, dos feitos do cara, e ele fala de uma maneira que o leitor mais erudito da época — que era o pessoal para quem ele escrevia — ia entender, porque tinha o conjunto de informações suficientes para olhar aquilo ali e ler entendendo perfeitamente.
A gente pode dar um exemplo mais próximo da nossa era: um poema do Baudelaire que eu gosto muito, que está nas *Flores do Mal*, que se chama "Don Juan nos Infernos". A primeira vez que eu li aquele poema, eu não entendi nada; achava bonito, mas não entendi nada. Só que aí eu vi uma peça do Molière chamada *Dom João* — em francês eles pronunciam *Dom Juan*. Eu vi a peça do Molière e falei: "Caraca, peraí, esse nome desse personagem, Sganarelle, eu já vi em algum lugar!". Fui reler nas *Flores do Mal* o poema do Baudelaire — que é de outro autor, de outra época, de dois séculos depois do Molière (o Molière é do século XVII, o Baudelaire do século XIX) —, fui ler "Dom Juan nos Infernos" e o poema é assim: se você viu a peça do Molière, aquele poema para você é a coisa mais fácil de entender, é impossível não entender. Se você tiver assistido à peça do Molière — e a peça do Molière é uma comédia, é muito tranquila, é em prosa, nem é rimando como era normalmente o teatro clássico francês —, você vê a peça, ri, é engraçado, tem umas questões filosóficas postas ali muito interessantes. Eu adorei o personagem do Dom Juan ali, assim, não o que ele faz, mas o que ele é; é muito interessante, a peça toda no geral é interessante. E o poema que o Baudelaire fez é perfeitamente inteligível.
Agora, pensa num futuro distante, daqui a 400 anos. Pensa que perdemos, de alguma maneira, todas as cópias da peça *Dom João*, do Molière, e os comentários que existem em cima não são suficientes. Digamos que isso milagrosamente aconteceu, e temos apenas esse poema do Baudelaire. Ninguém nunca vai entender, te garanto. O pessoal vai olhar e falar: "Caraca, quem que é esse tal de Don Juan aqui? O que que é isso?". Isso aí é muito obscuro. Claro, você não tem as informações suficientes. Se você não tem as informações, é claro que você não vai saber, amigo.