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A Poética de Aristóteles é MACHISTA?

A Poética de Aristóteles é MACHISTA?

O machismo de Aristóteles… Porque tem uma parte lá, vou até ler aqui: "Aí você se vira aí, tá bom. Eu vou… quem tiver aí, depois você procura aí a palavra 'espertas', é isso? Pode botar 'mulheres', que é mais fácil". Vou botar: "Segundo aspecto a tomar em conta é que os caracteres sejam apropriados". Então vamos lá: o que que não pode ser apropriado? Como é que você descreve um personagem apropriadamente? Vamos lá, ele tá falando aqui de verossimilhança. Por acaso, ele faz quase no texto todo, amigo, então provavelmente ele falou antes ou depois ou no mesmo capítulo. Provavelmente é um termo que se repete muito, né? Ele fala assim, ó: "Um caráter pode ter valentia, mas não é próprio de uma mulher ser valente e esperta".

Eita, é mesmo, ô meu Deus! Ô Panda, então tá bom. Se eu for fazer um personagem hoje, bem aristotélico por assim dizer, então a mulher tem que ser burra e frouxa, né? Aí ficou apropriado, aí fica apropriado, aí fica verossímil, né? Aí a pessoa olha e fala: "Opa, show, maneiro", aí que pode, né? Então vamos lá. Isso é do capítulo 15. É um trecho, eu vou pegar o mesmo trecho, só que eu vou pegar um pouco do que vem antes e um pouquinho do que vem depois junto com esse trecho, tá? Vou ler para vocês aqui:

"No que diz respeito aos caráteres, há quatro aspectos que se devem ter em vista: o primeiro e mais importante é que os caráteres sejam bons. 'Bons' é bem-feitos; não é que eles sejam, tipo, boas pessoas, é bem-feitos. Haverá caráter se, como se disse, as palavras ou as ações da personagem mostrarem que esta está animada de um certo propósito; e o caráter será bom se esse propósito for bom. Caráter bom pode existir em todos os tipos de personagem: uma mulher pode ser boa, assim como um escravo, embora esta seja meio inferior e aquele outro totalmente inferior".

Tá dizendo que a mulher é meio inferior e o escravo é totalmente inferior? Mas eles podem ter bons caráteres porque eles podem estar bem intencionados, enfim, eles podem estar bem intencionados, né?

"O segundo aspecto a garantir é que os caráteres sejam apropriados; nesse caso, é verossímeis, né, seria isso? Um personagem pode ser valente de caráter, mas não é próprio que uma mulher seja valente e inteligente de caráter. O terceiro aspecto é a semelhança dos caráteres dos personagens com o nosso…".

Ok, vamos explicar isso aqui então. Tá dizendo que, se você botar personagens numa tragédia… Para saber, você vai defender o Aristóteles, ver como é que você defende… Ele defende ele ou se você agora é chimarrão? Ó, isso aqui, esse corte, ó, tá na conta… Tá na… Se sair bobeira aqui, ó, tá na conta do Panda, essa essa parte aqui onde ele defende o machismo, que ele não defende o machismo… Oxe! Bel amor, calma aí, ele é machista por outros motivos. Vai lá, vai lá, isso, não, o Aristóteles é machista por outros motivos.

Antes que venham falar comigo aí da política dele ou do tratado dele lá sobre as partes dos animais… Eu já li essas partes dele, não li o tratado todo, mas enfim, li essas partes, sim, ele realmente ele acha que os homens são inerentemente mais incríveis em tudo do que as mulheres, né, enfim, a maior parte das coisas ou tudo, né? E só que ele tem um fundamento para isso, fundamento que para nós já não funciona mais, mas para ele tinha uma certa significância, né? Vamos tratar disso aqui, né?

Primeiro, falar dos caráteres aqui, rapidinho. Quando ele fala do caráter ser bom, né? É no caso dele ser bem-feito e dele almejar o bem, né? Almejar o que pode ser entendido como bem. O bem poderia ser justiça, por exemplo, né? Nem todo mundo tem a visão, a concepção cristã de justiça, né, que é amar o pecador e odiar o pecado, né? Alguns têm, muitos desde a antiguidade até hoje em dia têm a concepção da lei de Talião, né, que é devolver com a mesma moeda, às vezes pior, às vezes é devolver desproporcionalmente, né? Mas a pessoa pode achar que isso é bom, que isso é justo, que vingar-se dessa maneira, mesmo quando desproporcional, é justo, né?

E aí ele tá dizendo que não, que não é assim que funciona. O personagem, para ele ser trágico, ele tem que ser alguém almejando algo bom em algum sentido, em algum sentido isso tem que ser bom, né? Então, sei lá, você vingar a morte do seu pai é bom, né? Mas a maneira como você faz isso pode ser terrível, pode até ser pior para você, mas enfim.

Beleza, vamos passar agora para a outra coisa do machismo. Tava explicando essa primeira parte aqui rapidinho. Ele tá dizendo, né, que o caráter, um dos pontos dele é o terceiro ponto: o cara tem que ser semelhante a nós, ou seja, tem que ser convincente. Tem que ser convincente, né? Na sociedade grega antiga, as mulheres eram proscritas do estudo e das artes militares, ou seja, a menos que tenha um porém aí no meio, alguma coisa que ultrapasse essa proscrição, essas duas prisões, que não foi Aristóteles que inventou, tá? Não foi, já era assim muito tempo antes dele, antes e depois dele, durante o tempo dele já era assim, sim, tá?

Mas, enfim, se você pegar a história, digamos, sei lá, tipo da sua vizinha, tipo lá, vai, o Lucas, a tua mulher aí, a tua esposa, né? Eu imagino que ela nunca tenha feito trabalho militar, né? Nunca performou trabalho, nunca, nunca, nunca teve treinamento militar. Imagina uma história sobre ela, sobre a sua mulher, sobre uma aventura que ela teve, alguma coisa, um acidente de carro que ela sofreu, não sei, coisa que aconteceu de verdade, sabe? Ela… E o cara vai lá, tipo, vou escrever uma história, e aí eu escrevo que chegaram bandidos e que a tua mulher meteu a porrada nos bandidos. Você fala: "Pô, legal", mas assim, era para ser tipo uma biografia da… "Me, pô, pera aí, cara, tipo, ela não teria feito isso, é legal". Sabe? A minha suspensão de descrença tem que ser enorme para eu conseguir aproveitar tua história, né?

Ok. Porém, há um cara aqui que o Aristóteles muitas vezes… você tá muito bem… fala que é o maior dos poetas, fez as melhores épicas e tudo, que é o Homero, né? É o Homero. E o Homero, não sei se vocês leram a Ilíada, ele põe uns personagens ali que são muito bons em combate, muito bons, né? Tanto que esses personagens só conseguiram ser parados pelo Aquiles. O Aquiles teve que matar esses personagens. Adivinha quem eram? As Amazonas. Mulheres. As Amazonas não eram deusas, eram simplesmente mulheres que, segundo a lenda delas, elas viviam numa ilha delas, a ilha das Amazonas. Não sei se era uma ilha ou uma península, mas se não me engano é uma ilha, né? Uma ilha delas ali, e não haviam homens lá, eram só mulheres, e elas tinham que fazer tudo, inclusive a arte de guerrear. E elas estudavam também, porque todos os "scholars" delas, ou todos os acadêmicos delas, eram mulheres também.

Então, quando o Homero, na Ilíada, que é o primeiro texto-chave dos gregos assim, que é da onde chama quase que tudo, eh, enfim, tem ali um trecho assim, sabe, apresentando mulheres, mulheres guerreiras super inteligentes, que só puderam ser paradas por um semideus, que é o Aquiles, só assim para parar elas. Nenhum grego reclama disso, nenhum grego… Se você fizesse uma tragédia sobre as Amazonas contra o Aquiles – e, claro, elas teriam que morrer no final, porque senão o público não ia gostar, ia falar "Ô, não, pera aí, pô, não ia ser tragédia", não ia ser tragédia, né? Essa é outra coisa, ia ser uma peça, sei lá, enfim. Mas se você fizer essa tragédia que as Amazonas acabam morrendo para o Aquiles, ia poder apresentar elas como, tipo, super mais fortes do que os outros guerreiros, porque elas vão lutar pelo lado de Troia, e os gregos ficam com medo pra caralho. Os gregos falam: "Meu irmão, as Amazona, velho, as Amazonas mulher de espada!".

É engraçado que isso a gente tem um lastro disso aí, vem até hoje, né? A DC ela retrata as Amazonas desse jeito aí também, porque, por exemplo, a Mulher-Maravilha, ela só pode ser parada de fato assim pelo Superman ou pelo Batman com preparo, mas aí pelo Batman… mas o Batman tá sempre preparado. E aí, então, é interessante isso, cara, porque é isso mesmo, é isso, é tão verdade hoje quanto quanto na época dele.

E o Homero é o escritor para ele, né? Então ele não dá um pio quanto a isso aí. Porre até… E um outro tópico contra a poética, pula, não, tá nesse aqui, aqui não pula, não, tá nesse aqui, não pular, não pular depois, mas, mas é bem dentro dele, ainda assim, que é o fato dele eliminar, por assim dizer, o impossível. Por quê? Porque veja se essa discussão é o seguinte: eh, será então que ele tá dizendo que, só porque você não tem na realidade uma coisa específica, um personagem específico, então você não pode retratá-lo dessa forma?

Porque as mulheres eram deixadas para trás em um monte de coisas, não seria muito crível você colocá-las na história dessa forma, né? Eh, ele parece rebaixá-las demais ali na poética, mas é que assim, não ia fazer… talvez não fizesse tanto sentido, a não ser, né, salvo que você conseguisse construir isso direito, e não igual ao nariz, que é o que o que acontece com as Amazonas. Você tem todo um contexto que favorece… não favorece nada, explica completamente o porquê elas são daquele jeito, né? E você precisa de um semideus para detonar com elas lá. Então, é mais ou menos essa que é a resposta.

Faria sentido, pô! Faria sentido assim: olha, pensa, você saísse na porrada contra uma militar, tu ia apanhar ou não?
— Eu ia, eu ia apanhar. Se eu saísse na porrada com uma moça militar, eu ia apanhar, essa mulher é treinada para matar a gente, pô.
— Bom, eu ia fazer o seguinte: eu ia pedir uma briga justa, ia agarrar o primeiro pedaço de pau que eu encontrasse na frente.
— Irmão, ela ia pegar esse pedaço de pau e ia enfiar num lugar que você não ia gostar, não, pô.
— Tinha que ser uma briga justa do lado dela, não da minha parte, né?
— Ah, entendi, é a mulher que é feita para matar os outros, que é justo, ah, entendi. É na guerra assim mesmo.
— Entendi, entendi. É sabedoria sair correndo, meu irmão, sair correndo, ajoelhar, pedir para Deus…
— Entendeu? Ela se diz cristã, né? Numa briga você ia fazer o quê?
— Eu ia rezar.
— Essa é a resposta que eu estava esperando, qualquer coisa que não fosse… Eu ia rezar.
— Outra face, não é da outra face?
— Sim.
— Ah, masoquismo! Bate aqui, ó. Bate aqui. Ah, masoquismo cristão, é isso aí. Bate, Amazona, bate na minha cara. Depende da Amazona, né?

Enfim, sabe um personagem, por exemplo, só para comentar isso aqui rapidinho, que não tem uma história dele assim, mas que poderia, por exemplo, enfiar o sarrafo no Aquiles, no Hércules, se quisesse, é, se você tivesse feito uma tragédia assim, sabe? Os gregos provavelmente iam gostar: é a Pandora. A Pandora, ela é conhecida pela caixa, né? A Pandora abriu a caixa, ó, todos os males saíram, aí ela fechou a caixa, ó, a esperança ficou lá dentro, né? Aí o Nietzsche diz que é bom, que a esperança seria ruim, e as pessoas dizem que é bom também, porque a esperança está lá guardada, então quando a gente precisar a gente abre a caixa de Pandora, ó, esperança no último momento, a gente vai abrir. Uh, que legal! Então todo mundo acha legal.

Só que a Pandora, né, nego esquece que o nome dela é Pandora e não é à toa, ela foi feita para ser perfeita. A Pandora é tipo uma Eva, só que imagina uma Eva que já nasceu sabendo, tipo, kung fu o melhor possível, e matemática, tipo, a pessoa mais inteligente do mundo, a pessoa mais inteligente que pode existir e mais assim, hábil em tudo. O único problema é que é muito curiosa, né, é meio rebelde, esse é o único problema, que ela é livre, né? O único problema é que ela é humana, ela tem liberdade, tem curiosidade.

Mas assim, se você consegue uma tragédia da Pandora em que ela mata, não sei, o Aquiles, o Hércules e todo o resto, os gregos vão falar: "Pô, faz sentido, porque ela é a Pandora, pô, ela consegue fazer tudo, Zeus deu tudo para ela". Então ia funcionar. Só que aí, para você conseguir construir isso, né, amigo, você ia precisar não proscrever o impossível, e o ideal, você ia precisar dar espaço para aquilo que a gente chama de "o maravilhoso", aquele que é o mágico, o mágico bem escancarado na tua cara, dragões e purpurina e fadas, enfim, e feitiços, né? Eh, e aí no capítulo 25 ele vai falar disso, não só no capítulo 25, mas também no 25, e eu separei um trecho aqui que eu vou ler para vocês rapidinho, mostrando que ele não proscreve isso, e é por isso que ele consegue abrir espaço para personagens femininas, né, fortes em tragédia, né?

Vocês querem um exemplo que aconteceu mesmo, porque eu falei: "Ah, se tivesse das Amazonas…", não tem na epopeia, tem as Amazonas na epopeia, né? A Pandora é uma hipotética minha aqui, não tem lugar nenhum assim a Pandora lutando com ninguém, né? Mas se vocês querem um exemplo de uma personagem forte, né, não que o que ela fez seja bom, tá? É no Eurípedes, aqui, tá no no primeiro volume aqui, francês, em português eu não sei qual que vai estar, mas enfim, nesse volume aqui, que é a Medeia. A Medeia, na tragédia dela, ela faz algo terrível, ela mata os próprios filhos, mas ela é uma feiticeira. Como que uma mulher seria tão inteligente assim para enganar o Jasão? Que o Jasão realmente é um herói, um cara tipo nível do Odisseu, por exemplo, é abaixo do Aquiles, o mesmo do Odisseu, por exemplo, o Jasão, que casou com ela, né? Como que ele ia… como que ela ia enganar o Jasão para fazer com que… ou o Jasão envenenar a mulher que ele queria se casar, o pai da mulher que ele queria se casar, tipo, o sogro, o futuro sogro dele, a amante dele com que ele ia se casar de novo, e ela fugir, né? Como é que ela faz para fugir lá, fazer as coisas dela? Porque ela é feiticeira, e sendo uma feiticeira, ela tem padrões morais diferentes dos outros, né?

E porque as feiticeiras, na Grécia antiga, elas eram tidas como ou semideusas ou filhas de semideusas, né? Se eu não me engano, no caso da… no caso da Medeia, ela é filha de… semideusa, ela não é uma divindade completa assim, né? Ela é um pouco mais que humana, mas é abaixo do que seria um Aquiles, por exemplo, né? E ela sai voando numa carruagem de fogo assim, sabe, tipo, é um negócio incrível, né? E no fim o Jasão, você fica com pena do Jasão, né? Ele é impotente lá diante do horror que aconteceu, e ela também fica triste pelo que fez. Mas, enfim, ela faz, né?

Mas, enfim, vou vou ler aqui o texto para vocês logo do capítulo 25, vou parar de enrolar, né? Eu acho que provamos que o Aristóteles não é machista, né, tipo, não é machista por causa disso. Ele é machista por outros motivos, ele é machista porque ele, sei lá, diz lá que a mulher, lá no negócio dos animais, fala que a mulher é inferior, e na política ele diz que a relação entre a mulher e o homem é sempre de governante para governada. Ele é machista por causa disso, e outra coisa, outra parada, entendeu? Na poética ele tá só falando: "Ó, você não vai botar mulher inteligente e forte sem motivo, pô, não vai botar sem motivo, tem que dar um motivo para a gente acreditar". É isso, até porque, pô, irmão, você vai botar minha mãe… Mas se se escrever uma história que minha mãe luta com o Kratos, você vai… Pô, pera aí, ô, calma aí, pô!