As partes de exagero de Tolstoi em *A Morte de Ivan Ilitch* acontecem porque, mesmo quando ele fala algumas coisas boas sobre os personagens, ele não se aguenta e tem que pulverizar alguma coisinha ali em cima. Por que ele faz isso? É como se ele fizesse uma grande caricatura dos personagens. Ele força um pouco a barra, dizendo: "As pessoas são isso aqui, ó". Não é nem pela frequência, mas ele dá mais atenção aos detalhes ruins; a descrição das partes ruins é um pouco mais longa, enquanto a menção às partes boas é mais rara, rapidinha e bem mais breve.
Imagine que alguém fosse fazer uma biografia sobre você, alguém que viveu muito tempo com você, mas que não gosta de você. O que essa pessoa vai fazer? Ela vai falar só a verdade, mas vai pegar trezentos momentos ruins da sua vida e colocar só uns cinco momentos bons, para tentar construir um personagem meio cinzento, um cinza bem escuro. O autor faz um recorte biográfico onde narra apenas aquelas coisas ruins que o cara fez ao longo de trinta anos. Quem é o personagem construído ali? Ele é um lixo.
Nesse sentido, pode parecer um estereótipo. Quando você descreve um estereótipo, você não está fazendo outra coisa a não ser um recorte de um personagem. É mais ou menos esse o estilo de escrita de Tolstoi nesse livro, que é bem realista. Quando ele descreve as coisas boas, ele não deixa de conectá-las com coisas ruins também; e quando ele descreve as coisas ruins, ele se aprofunda nelas. As coisas boas são sempre conectadas com algum aspecto negativo. Por isso, embora dê a impressão de que ele está apenas malhando os personagens — como se todo mundo ali fosse contra o lado ruim —, a construção é mais complexa.
A mesma coisa acontece com o Guérassim. O Guérassim tem apenas um ponto falho: ele não fala de maneira tão aberta com o patrão porque foi ensinado a falar assim. Ele fala com o Ivan Ilitch de uma maneira conveniente. O único momento em que ele foge disso é na França, por assim dizer, que é quando ele usa o tratamento informal, o "tu". Na Europa, falar com alguém usando "tu" pode ser mal visto em certas situações de hierarquia; o correto seria usar uma forma mais respeitosa, como um "vós" ou um tratamento polido. Num dado momento, o Guérassim tutoria o Ivan Ilitch, mas o Ivan deixa passar porque gosta tanto dele que isso não é nem grandes coisas. Quem aponta isso é o narrador, que diz que o Guérassim se excedeu e tutoriou o patrão. Mas os probleminhas do Guérassim são só esses dois pequenininhos.
A parte magnífica do Guérassim é descrita com muita frequência. O Capítulo 9 inteiro é basicamente sobre ele. Há um momento que explica muito bem quem é o Guérassim: quando ele tenta esconder um sorrisão porque estava bem demais com a vida. Ele pensa: "Não posso chegar aqui tão feliz, o cara está morrendo, isso vai fazer o Ivan Ilitch se sentir desconfortável". Então ele tenta chegar com a serenidade adequada à ocasião. Ele não chega neutro, fingindo que nada está acontecendo, mas ele reduz a alegria de viver dele para não ofender o moribundo.
O diferencial do Guérassim é que ele tem as mesmas qualidades físicas dos outros — o vigor da idade, é jovem, musculoso, forte, trabalha bem —, mas ele não finge que nada está acontecendo. Ele e o filho de Ivan Ilitch são as duas únicas pessoas na história que não são presas da má-fé — má-fé no sentido sartriano (quem quiser entender melhor o conceito, pode ir direto para o segundo capítulo de *O Ser e o Nada* e pular o primeiro). A má-fé é justamente fingir que nada está acontecendo e tentar enganar a si mesmo. É o que a esposa faz: ela sente mais do que todos os outros, parece, mas fica tentando se enganar o tempo todo.
Por isso, o momento em que a esposa chora é relatado de forma muito rápida — "e ela chorou, e caíram lágrimas", uma frase curta —, mas o momento em que ela é chata, infernal, falsa e dissimulada ocupa um parágrafo inteiro, aparecendo com muito mais frequência. As coisas boas nos personagens, tirando o Guérassim e o menino, são rápidas, breves e pouco frequentes. Se você não prestar muita atenção, vai achar que todo mundo ali é um estereótipo, que todo mundo é do mal, um inferno e nojento.