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Como ler KAFKA? [E qualquer outro livro ficcional!]

Como ler KAFKA? [E qualquer outro livro ficcional!]

Vou explicar o porquê de a premissa de o Gregor Samsa ter se transformado em um inseto monstruoso, para mim, não ser uma premissa mágica muito interessante. Certo, então tudo bem que ela falou aqui para ela, né? Ela vai explicar por que para ela não é interessante, vai dar os motivos dela. Tá, este aqui é um vídeo muito mais heurístico do que argumentativo, então tem que levar isso em conta. Eu vou usar o livro do Chesterton, *Ortodoxia*, para a gente conversar sobre isso, então vai ser interessante. Mas é justamente porque ela vai usar o *Ortodoxia*, do Chesterton, que também é um dos meus favoritos, que a gente vai descer a lenha nela aqui. É por causa disso, entendeu? Não é porque ela não gostou, é porque ela usou o Chesterton. Mas ela falou aqui, né? "Não gosto", não é nem que eu odeie a obra pela obra, é mais pelo fã-clube, né? Não somos desse fã-clube, não somos. Somos do fã-clube mais chato ainda. Qual é o fã-clube chato? É o chato vazio. A gente é o chato fundamentado, é o chato com substância, entendeu? É esse tipo de chato que a gente é.

Um pouquinho aqui com spoiler, certo? Porque é um livro de cem páginas, então, se você não quiser spoiler, vai lá, lê e depois volta e assiste ao vídeo. A gente tem esse Gregor Samsa, que é um caixeiro viajante, um jovem na casa dos 20 anos, mais ou menos, que tem um emprego muito bom. Esse emprego é o responsável por sustentar toda a família. Eles parecem ter uma condição de vida bacana, moram em um grande apartamento, têm duas funcionárias — um emprego muito bem remunerado. Ela mesma vai rebater essa parte do emprego muito bom, mas é só para deixar claro: é um emprego bem remunerado, com uma cozinheira e uma faxineira, uma empregada doméstica, e eles vivem disso, só com o salário que o Gregor tira como caixeiro viajante.

O Gregor odeia esse emprego, está lá só para terminar de pagar uma dívida que o pai provavelmente fez com o chefe dele quando a empresa do pai faliu há uns cinco anos atrás. Por isso que eu disse que é bem remunerado, entendeu? Ele fala "um emprego muito bom", está falando nesse sentido. E, num belo dia de sol, como eu disse, o Gregor acorda e se vê transformado em um inseto monstruoso. O que acontece depois que ele vira um inseto monstruoso? Ele não liga. Ele simplesmente continua a pensar como ele pensaria se tivesse acordado como um ser humano qualquer. Notem, né? O cara virou um inseto, ele percebe isso, sabe disso e não liga; ele age como se tudo estivesse normal. Para ela, isso não é extraordinário, o fantástico *achsensprung* está muito longe. Mas enfim, só para vocês irem vendo, né?

Vamos lá, vamos voltar aqui. Ele pensa que perdeu o trem para ir trabalhar, pensa: "Que saco, meu Deus, agora vão vir aqui me encher o saco porque eu perdi o trem, e tem vários anos que eu trabalho nessa empresa, mas com certeza, sem nenhuma explicação, vão vir aqui me aporrinhar". Enquanto isso, ele está lá vendo que tem agora umas perninhas de inseto — não fica muito claro que inseto é —, tem uma casca grossa, não consegue se virar, não consegue sair da cama. E, nesse meio tempo, a mãe bate lá para perguntar por que ele não foi trabalhar, o pai também bate lá para perguntar por que ele não foi trabalhar, e percebe-se que ele não consegue nem se comunicar mais com a família porque está com a voz de inseto. Então, o livro todo é estranho, certo? O livro todo parte dessa premissa de que o cara virou um baratão e pronto.

Isso é o que eu não consigo entender, cara. Ela fala assim: "O livro todo é estranho", né? E ao mesmo tempo, o que que tem? Não consigo entender isso, velho, não consigo entender. Uma parada que é estranha e normal, um bagulho que não é inesperado e é estranho, não é justamente o oposto? Alguma coisa que é estranha e que causa espanto, né? O espanto no sentido aristotélico mesmo, né? O espanto que é de onde nasce a filosofia. Entendi, ela se espantou com a obra, ela só não entendeu, só não conseguiu entender o que era aquilo que a espantava, e ela não quis ir atrás, achou que não tinha mais nada. Mas enfim, vamos continuar aqui. Na verdade, ela tentou ir atrás, tentou, mas acho que ela não conseguiu chegar onde queria chegar.

Só que o que é mais interessante: ele realmente virou um inseto, não é que ele está se sentindo como um inseto e tal. Porque, quando abre a porta assim e o gerente da firma vai lá conferir por que ele não foi trabalhar… Tanto que esse povo da firma em que ele trabalha é insuportável: o cara faltou um dia e mandaram o gerente ir lá ver o que tinha acontecido com o cara! Quando ele abre a porta — sabe o que ela não percebe aqui, velho? Eu acho que ela não percebeu, acabou não percebendo até porque ela estava concentrada em falar a parada —, mas enfim, é mais fácil para a gente que está vendo o vídeo… Como é a terceira vez que vejo este vídeo, eu percebi agora que a raiva com que ela descreve o personagem do gerente, mais a fábrica, né, o diretor da fábrica que manda um gerente para lá falar com o Gregor, a raiva com que ela descreve é a mesma que o Gregor manifesta nas primeiras páginas. O Kafka conseguiu fazer com que ela sentisse a mesma raiva que o Gregor sentiu, porque ele fica argumentando, fica falando: "Pô, um dia direto, eu sou bom, um dia eu falto e eles mandam um cara na minha casa, pô", entendeu?

Tipo assim: "Ô, Panda, hum. Eu tinha comentado uma coisa antes lá com o Lisboa que é o seguinte: ó, talvez a Débora, pelo menos até aqui, né — eu não vi esse vídeo, então até aqui pelo menos ela leu certo, até aí ela sentiu certo o livro, mas ela não queria gostar do livro porque ela teve um problema com o *plot*". Eu tinha comentado lá com o Lisboa que o *plot* não é necessariamente bom em si mesmo ou por si só; tem muito *plot* aí que, se você explicar para a pessoa, a pessoa fala: "É isso? É sobre isso?". Às vezes, o que é interessante não é o *plot*, é o que vai ser construído a partir do *plot*. Inclusive, o fato de ele nunca explicar por que o cara vira um insetão faz parte da história, faz parte do *plot* justamente porque ele podia explicar, né? Qual é o *plot* do livro? Tem um fulano que acorda um dia lá e está metamorfoseado em um inseto. Tá, você pode fazer mil livros com esse *plot*; o dele é nesse caso em que você não liga, não investiga o motivo de ele ter se transformado. E a Débora não gostou do *plot* e não entendeu que o Kafka também não está nem aí para o *plot* em si, ele quer escrever certas coisas sobre isso. É como se alguém perguntasse: "O que significa o porquê de ele ter virado?". Não, não é isso, eu não tenho que virar nada, eu estou falando sobre outra coisa. No livro, você tem que prestar atenção em outra coisa. Lá, isso aqui é o argumento que eu tenho para dizer o que eu quero dizer, né? E a Débora, por não ter gostado do *plot*, não está ouvindo o que ele tem para dizer no livro.

Sim, você vê que ela teve a sensação correta, ouve, mas não ouve o que o livro tem para dizer, porque tem coisa às vezes que o autor não percebe que põe; tem coisa que o autor só percebe depois. Às vezes, o autor relê e fala: "Caraca, tem isso aqui, né?". Sim, o texto está dizendo certas coisas que ela conseguiu sentir, ou seja, o Kafka conseguiu pegar ela, mas ela não está lendo o livro direito. Ela está sentindo o que é para sentir, mas não quer encarar o livro como se fosse isso, não quer encarar o livro porque não gostou do *plot*.

O que é um absurdo, assim. E aqui, olha só, ela pode não gostar do *plot*, ela pode não gostar, pode até falar: "Tá, o *plot* é esse aqui, eu não gostei", e beleza. Só que o que que está, velho? E assim, isso aqui não é um contraargumento, é mais um aviso, um conselho geral assim, um conselho que eu dou até para mim mesmo — isso aqui também é… lembrei de mim, né? "Se você não consegue investigar seriamente, com rigor, aquilo que você não gosta, você está muito ferrado, cara, porque você nunca vai entender como pensam e como se sentem os seus adversários; vai ser incapaz de entender nunca, nunca, nunca você vai conseguir".

Imagina, Lucas, tu leu o primeiro livro de *O Capital*, não foi? Li. Imagina tu ler e falar, tipo: "Não gosto das ideias dele", e ficar focando nisso, não focar, tipo, no que ele estava dizendo. Você não vai ler o livro, você vai ler e não vai entender, porque tudo o que você vai conseguir pensar é: "Ah, eu não gosto". Aí ele fica falando de misturar coisa aqui, de botar casacos com palhas de feno, enfim: "Não gosto, não gosto, chato, muito repetitivo, não gosto, não gosto". Aí, quando você vai falar mal do Marx porque você discorda dele, porque disseram algumas coisas e você acreditou, foi ler e não prestou atenção, você fala: "É isso mesmo, é isso mesmo!", até falarem merda e você fala: "É isso mesmo!", e você cai junto, entendeu? E você cai junto.

Este livro aqui eu li por causa da faculdade, que é *A Porta dos Infernos*, do Lídia Jorge. Ele lançou em 2008, mas esta edição aqui é de 2013, enfim, lançou em 2008, escritor contemporâneo, está vivo aí lançando livro. Eu achei esse livro terrível, mas eu consegui… eu fiquei cinco horas na frente da câmera, um vídeo de três, outro de duas horas, tentando analisar, tentando trazer coisas, tentando trazer o máximo que dava, né? Enfim, e eu vi que eu não estava conseguindo fazer direito. O que que eu fiz? Eu falei: "Cara, eu vou ter que reler esse livro no futuro, ou sei lá, não vou analisar, vou deixar para lá", não sei, porque eu não consigo, não estou conseguindo, sabe? E eu estava com tanto desgosto disso aqui que eu não estava conseguindo fazer, sabe? Aí eu falei: "Vou deixar para lá, vou ler de cabeça mais fresca mais para frente", entendeu? Ela fez um vídeo de cabeça quente, fez um vídeo falando de um autor muito importante, um autor muito impactante. Como eu disse, cara, para a Áustria inteira você tem na poesia o Rilke e na prosa o Kafka. Claro, tem mais escritor, obviamente, não tem só esses dois, mas eles são os dois grandes das duas modalidades de escrita. E ela virou, sabe? Ela virou e fez o vídeo cuspindo, velho, cuspindo na cara do maluco! É como se fosse um gringo fazer um vídeo cuspindo na cara do Machado de Assis, velho. Tu pode falar que não gosta, beleza. Agora, tu usar isso de motor para descer a lenha? Pô, cara, aí… E assim, até agora vocês não viram nada, tá? Vocês acham que o que foi até agora foi meio absurdo? Enfim, vocês não viram nada, bicho, vocês não viram nada.