Vocês conseguiram entender essa história? Basicamente, um resumão do resumão: são duas crianças que, cada uma em um lugar, acabam indo em busca de alguma coisa que você não consegue entender exatamente o que é, porque a linguagem do conto é extremamente simbólica. Tudo o que ele faz é simbólico: dá um passo, ergue a mão, tem metida simbologia de novo. Então você fica meio assim: "Cara, do que ele está falando aqui?". É um símbolo atrás do outro, assim, você fica meio perdido.
Essas duas crianças se encontram, depois a jornada delas se distancia de novo, elas vão, e aquilo vai passando muito tempo, muito tempo, muito tempo. Cada um dos dois se encontra lá no finalzinho, depois consegue acessar esse país das sombras aí, e ali é uma grande alegoria sobre a morte dos dois. Eles passam uma vida inteira, só que, assim, é claro, é simbólico ali, né, é uma fantasia, então eles são extremamente velhos já, mas eles ainda parecem jovens. Inclusive, lá pelo finalzinho, tem uma frase assim que o autor fala sobre palavras que somente crianças ou muito velhos são capazes de entender. É exatamente assim que eles falam: palavras que somente crianças ou pessoas muito velhas conseguem entender. E, no caso, são eles dois já: eles são ainda crianças, mas são extremamente velhos.
Tudo o que eles faziam demorava para caramba para acontecer, né? É igual a essa parte que ele falou: a menina está dando uma olhadinha no que o cara do fogo lá está fazendo — acho que é do fogo, né? —, e ela está só olhando assim; quando ela vai ver, passaram-se sete anos já. E toda hora acontece isso. Ah, então eles têm essa jornada assim, tentando, sei lá, de autoconhecimento, sei lá do que que é, o que que pode significar isso na cabeça do MacDonald lá, e de amadurecimento. Mas, no fim das contas, eles chegam lá no final, e o jeito de alcançarem o que quer que deveria ser alcançado — cada um tem uma jornada específica, que também não fica muito clara o que que é — é morrendo. Eles alcançam isso morrendo, só que ele não descreve nunca como uma morte, ele não chama isso de morte em momento nenhum. Você entende que é isso que está acontecendo: eles são libertos dessa vida pela vida ou pela morte. Como é que fica isso aqui, hein?
Essa outra vida, depois dessa vida aqui, assim, é uma grande alegoria, talvez sobre amadurecimento, sobre autoconhecimento, sobre a vida cristã. Falei um pouco sobre isso com o Panda, né, sobre como a gente descobre a duras penas — aqui os cristãos vão entender bem sobre isso — que a vida não fica mais gostosinha quando você vira cristão, quando você descobre as coisas; ela fica um pouco pior, na verdade, ela fica mais penosa. A gente vai descobrindo que as coisas não vão melhorar, mas você fica patinando ali, tentando descobrir como fazer as coisas melhorarem para você, como você mesmo adquirir conhecimento suficiente para as coisas não ficarem piores. Mas é tudo ladeira abaixo, não é, Panda? Tudo ladeira abaixo! Mas você vai naquela, você está agarrado naquele ig, como o menino está agarrado na chave ali, não larga, né? Fica todo esse tempo, não abre mão da chave, vai até o final nessa jornada dele.
Inclusive, é interessante aqui falar sobre a chave do menino, que ele é o garoto que segura a chave. E aí a avó, para convencer a garota de ir com o menino, fala assim: "Uma menina que vai com o menino que tem a chave está em boas mãos". Isso me lembra uma conversa que a gente teve anteriormente, bem anterior a ele até me recomendar esse conto, que foi da questão do magistério. O magistério sempre foi exercido por homens, né, e não por mulheres, enfim. E aí me pareceu isso, tipo… Justamente por isso, eu acho que talvez seja por isso que eu tenha pensado também na questão da Bíblia, né? Você tem o instrumento ali da fé e tal, que normalmente é usado, né, ele é mais — e não exatamente monopolizado, porque é uma chave só, né, é uma chave que sempre é reposta, mas enfim —, você tem… parece que tem um papel masculino que está ligado a segurar a chave: é ele que encontra a chave, enfim, é ele que fica com a chave, e ela confia nele, ela dá as mãos para ele e confia nele. Me lembrou um pouquinho isso.
Mas, como você disse mesmo, é saber, né? É tudo muito pitoresco, é tudo… Você falou "simbolístico", eu usei "pitoresco" — é tudo muito pintado assim, é visual e tal, mas é hermético, você não consegue penetrar aquilo. Você fica: "Caraca, velho, não sei o que é isso, porra, uma fada que saiu do peixe assado, não sei o que é isso, não tenho ideia, porra", entendeu? Para um cristão, para um cristão fica mais fácil, principalmente quando você chega no finalzinho lá.
O finalzinho eu achei bem escrito, achei bonitinho o jeito que ele escreve. Tem a frase final lá que é assim: "Eles estavam no arco-íris, bem longe sobre o oceano e a terra. Eles conseguiam ver, através de suas paredes transparentes, a terra debaixo de seus pés. Escadas ao lado de escadas acabavam juntas, e seres maravilhosos de todas as idades subiam junto com eles. Eles subiam, sabiam que estavam subindo para o lugar de onde viam as sombras".
E a essa altura, acredito que eles já devem ter chegado lá. Pouco antes, ele fala deles como jovens e sábios, né? Sábios e jovens como nunca, não lembro como é que ele descreve, eu acho bonitinha aquela frase também. Mas, no fim das contas, é uma verborragia danada ali, né? Muita enrolação para falar pouca coisa, mas ele tem ali todo o símbolo da morte e da ressurreição dos dois e tal, só que ele descreve isso de outro jeito, né, bem para criança mesmo. Ele dizia que não, né? Ele dizia que era fantasia para adultos: "Não, não, eu não escrevo livros infantis, eu escrevo livros para todas as crianças, tenham elas 5, 50 ou 75 anos". Essa questão de você ter que ser criança ou muito velho para entender coisas que só pessoas muito velhas ou crianças entendem, isso é legal para caramba, cara. Só que, assim, ele desenvolveu isso legal na história, quer dizer, ele desenvolveu muito, mas muito mal, né?