A partir do título, o vídeo propõe uma investigação sobre a infância de H. P. Lovecraft, buscando entender quais experiências moldaram o futuro mestre do terror cósmico. O autor da narração, Lucas Rosalém, combina informações de uma biografia reconhecida com suas próprias reflexões, revelando detalhes pouco conhecidos da vida do escritor antes de se tornar um mito da literatura de horror.
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H. P. Lovecraft é conhecido como o pai do terror cósmico, mas há quem o considere o maior escritor desse gênero mais amplo, o terror em geral. A grande pergunta que o vídeo pretende responder é: como ele chegou a esse ponto? Por quais experiências passou para se tornar o mito que conhecemos? E por que parecia tão fácil para Lovecraft criar histórias aterrorizantes?
Lucas Rosalém apresenta o canal Universo Antares, onde está sendo montada uma playlist que pretende analisar todas as obras de Lovecraft, poéticas ou em prosa. Até o momento, o canal conta com três vídeos: um sobre a primeira obra poética de Lovecraft, escrita aos seis ou sete anos, e dois sobre os primeiros contos em prosa. Foi a recomendação do especialista em Lovecraft, Ryan, que levou Rosalém a ler uma biografia do autor e a pausar a playlist para produzir este vídeo sobre os primeiros seis ou sete anos de vida de Lovecraft, um período marcado por acontecimentos muito pesados.
A primeira curiosidade surge logo ao nascimento de Lovecraft. Seus pais foram morar com uma poetisa amiga da mãe, que possuía vários cachorros cujos nomes eram de poetas. Essa convivência provavelmente facilitou o contato precoce de Lovecraft com a literatura. O biógrafo cita um trecho da própria escrita de Lovecraft aos dois anos: “Já era muito falante e conhecedor do alfabeto, lia em meus caderninhos e livros infantis. Era completamente louco por métrica. Não sabia ler, porém repetia qualquer poema em sua devida cadência. Mamãe Ganso era o meu clássico favorito e a senorita Guine me fazia repetir continuamente partes dele. Não que a minha execução fosse digna de nota, mas minha idade dotava minha performance de algo único.” Essa passagem demonstra a influência da poetisa, que insistia em apresentar obras poéticas e ficcionais ao menino, além de apresentá‑lo a figuras literárias da época, como Oliver Wendell Holmes.
Desde a infância, Lovecraft já era versado nas lendas da Bíblia, que ele chamava de “as lendas da Bíblia”. Assim, ainda pequeno, ele estava em contato com grandes nomes da literatura e com o livro que seria fundamental para a cultura ocidental.
As viagens que o pai realizava a negócios também marcaram a infância de Lovecraft. Elas começaram quando ele tinha cerca de dois anos, mas foram interrompidas quando o pai adoeceu. O pai foi internado após apresentar sintomas de distúrbios mentais, doença da qual Lovecraft se lembrava vividamente. Essa enfermidade durou cinco anos, dos dois aos sete anos de idade. Durante esse período, o avô de Lovecraft tornou‑se o centro de seu universo. O biógrafo relata: “O avô curou seu neto do medo do escuro, desafiando‑o, aos cinco anos, a atravessar uma sequência de quartos escuros da Angel Street. Ele lhe escrevia cartas enquanto viajava a trabalho e contava contos fantásticos improvisados ao menino.” Essa influência avó‑avô ajudou a moldar o medo e a imaginação do futuro escritor.
O biógrafo também afirma que Lovecraft começou a ler aos quatro anos, tendo como um dos primeiros livros “Contos de Fadas dos Irmãos Grimm”. No ano seguinte, ele descobriu “As Mil e Uma Noites”, obra que teve efeito imediato sobre seu desenvolvimento estético. O comentário do autor da biografia explica que, embora o livro não seja de terror, ele contém elementos que antecipam a paisagem imaginativa de Lovecraft: criptas, tumbas, grutas, cidades desertas e outros cenários que mais tarde apareceriam em seus contos.
A descoberta decisiva foi a “Balada do Velho Marinheiro”, ilustrada por Gustave Doré, que Lovecraft encontrou na casa de um amigo da família aos seis anos. As imagens de um navio fantasma, um esqueleto lançando dados, serpentes em decomposição e anjos e demônios distorcidos deixaram uma marca profunda: “Um mar repleto de serpentes em decomposição e o fogo da morte dançando no negrume do ar… Grupos de anjos e demônios, formas enlouquecidas, moribundas, homens mortos erguendo‑se de sua putrefação”. Essa obra continha tudo o que poderia influenciar um futuro autor de horror.
Um acontecimento pessoal igualmente significativo foi a morte, em 26 de janeiro de 1896, da avó materna de Lovecraft. O biógrafo explica que o luto dos familiares gerou um efeito profundo no menino: “A morte da minha avó afundou a minha casa em sombras, das quais ela nunca emergiu. Os trajes negros de minha mãe e tias me assustavam a ponto de eu pregar pedaços de pano claro ou papel em suas vestes para alívio.” Lovecraft descreve, ainda criança, a primeira alegria reprimida, o surgimento de pesadelos habitados por “criaturas da noite”, termo que ele próprio inventou. Ele recorda desenhá‑las ao acordar e relata que, nos sonhos, elas o faziam girar pelo espaço a velocidade louca, empurrando‑o com tridentes. Quinze anos depois, ainda lembrava desse medo: “Era a minha prece nos idos de 1896, todas as noites, ficar acordado e evitar as criaturas da noite.” Uma carta posterior descreve essas criaturas como “seres negros, duros, sem pelos, com caudas farpadas e asas de morcego, mas sem rosto”, já distintas dos vampiros ou lobisomens tradicionais, e introduzindo a ideia de uma vítima passiva diante de forças incompreensíveis e infinitamente maiores.
A partir dos seis anos, Lovecraft também desenvolveu um intenso interesse pela Antiguidade clássica. Ele relata: “Fui arrebatado pelos mitos gregos, mesmo em sua forma germanizada.” Nesse mesmo período, começou a escrever. Em suas próprias palavras: “Minhas primeiras tentativas de versificação, datadas dos meus seis anos, assumiram a forma de baladas cruéis com rimas internas, cantando feitos de deuses e heróis.” As primeiras obras poéticas, da maioria perdidas, incluem “O Poema de Ulisses (ou a Odisseia)”, datado de 1897, já analisado no canal.
A situação familiar piorou quando, aos sete anos, o pai de Lovecraft morreu após cinco anos de internação. Os sintomas descritos – demência, deterioração intelectual, paranoia, fantasias persecutórias e depressão com ideias niilistas – lembram o quadro de uma doença neurodegenerativa que culminou em paralisia geral. Essa perda precoce coincide com o surgimento do primeiro conto de terror de Lovecraft, analisado no terceiro vídeo da playlist, sugerindo que o trauma influenciou profundamente sua escrita.
Para concluir, o biógrafo destaca outra influência decisiva: Edgar Allan Poe. Ele escreve: “Deparei‑me com Edgar Allan Poe. Perdi o prumo e, aos oito anos, vi o céu azul de Argos e da Sicília obscurecido pelas exalações miasmáticas da tumba.” Essa descoberta marcaria o próximo passo da evolução de Lovecraft rumo ao horror cósmico.
O vídeo encerra convidando o público a se inscrever no canal para acompanhar a sequência, prometendo analisar o conto que, possivelmente, foi inspirado por Poe no próximo episódio. Até a próxima.