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Por que sua história parece medíocre (e como resolver)

Por que sua história parece medíocre (e como resolver)

Imagine que você é produtor de cinema e dois roteiros novos chegam para você avaliar. A primeira sinopse é essa: uma criança é sequestrada e seu pai parte para resgatá-la. Segunda sinopse: arquivista descobre que todos os documentos históricos do país estão sendo lentamente reescritos durante a noite e que as mudanças passam despercebidas por todos, menos por ele.

Agora me diga, olhando para essas duas premissas, qual você diria que seria a obra mais interessante, a obra mais impactante, a melhor história? E eu não preciso ser um gênio para achar que você escolheu a segunda opção, porque eu também escolhi. Eu acho que todo mundo escolheria. E realmente, do ponto de vista da premissa, a segunda história é mais interessante.

O problema é que mesmo com uma premissa super inteligente, original, provocativa, você ainda pode ter uma obra medíocre e genérica. E por outro lado, se você tiver uma premissa muito simples, você ainda pode ter uma história super empolgante que cative o leitor, uma história que seja especial para um monte de gente. E isso faz a gente pensar, o que é que faz uma história ser uma boa história?

E tudo bem se você tiver pensando aí que essa é uma daquelas perguntas ingênuas e super repetidas que todo mundo tenta responder com as suas próprias opiniões e ninguém chega a lugar nenhum, e talvez seja inútil mesmo, mas eu não consegui parar de pensar sobre isso porque nos últimos dias eu conversei com dois amigos escritores a esse respeito e é sobre isso que eu vou falar nesse vídeo.

O meu nome é Lucas Rosalei. Nesse canal a gente fala sobre teoria literária e escrita criativa, inclusive com alguns vídeos de dicas muito criativas, como você pode conferir aqui no canal. E hoje eu quero te provar por A mais B que qualquer premissa, por mais fraca que ela pareça, pode se tornar uma história muito legal e o contrário também é verdadeiro. Então, sem enrolação, vamos começar por essa pergunta aí, né? O que é que faz de uma história uma boa história?

E veja, a princípio parece fazer sentido mesmo que uma grande ideia vire uma boa história. Mas é só você pensar um pouco, porque nesse caso, então, todo livro, todo filme com uma boa premissa deveria ser bom também. E não é isso que a gente vê no mundo real. Todo mundo consegue pensar em dezenas de ideias brilhantes, de premissas muito interessantes que, na verdade, se transformaram em histórias bem medíocres.

E tudo bem, você pode dar um passo adiante e dizer o seguinte: "Não, não são as boas premissas que dão boas histórias, são os bons roteiros com base nas premissas". Então, a ideia seria mais ou menos assim: não importa qual história você conta, mas quais eventos você escolhe narrar. Mas será que é isso mesmo? E olha, faz sentido também, tá? Porque é o seguinte: com uma mesma premissa você consegue fazer trilhões de histórias, não é verdade? Quantas histórias não daria pra gente escrever sobre um pai que vai em resgate de um filho que foi raptado?

Então, realmente, ainda que você tenha uma excelente premissa, ela não é o suficiente para você ter uma boa história. Você no mínimo precisa de um roteiro específico, de um plot específico. Mas aí você teria que dar um passo à frente e dizer o seguinte, até porque, né, um bom diretor não pode estragar um roteiro brilhante, certo? Errado. Na verdade, roteiros brilhantes são estragados com muito mais frequência. Eu acho que até com mais facilidade, o que, na minha opinião, acontece porque quando você tem um roteiro brilhante, as exigências que se impõem sobre os escritores ou roteiristas são muito maiores também.

Enfim, o meu ponto aqui é o seguinte: boas ideias não fazem boas histórias, mas bons roteiros também não são suficientes. Inclusive, se existe um gênero que prova que ideias sozinhas não bastam, é o gênero biográfico. Porque pensa comigo: numa história biográfica, seja para um livro ou para um filme, a ideia já está dada, mas os fatos também já existem. Você só precisa escolher quais desses fatos você vai narrar.

E aí você pode pensar o seguinte: "Ué, mas se a vida que a pessoa escolheu para narrar for interessante, o filme não vai ser automaticamente interessante também?" Então, meu jovem, uma história verídica interessante não necessariamente vira uma narrativa interessante. Deixa eu te dar um exemplo aqui que eu considero matador. Pensa na Segunda Guerra. Quantos filmes existem sobre a Segunda Guerra? E a segunda pergunta é: quantos filmes você se lembra sobre a Segunda Guerra? Tem um bilhão de filmes sobre a Segunda Guerra, mas você provavelmente assistiu só um ou dois, se lembra só de um ou dois, ou pelo menos só gostou de um ou dois?

De qualquer forma, o fato é que, apesar de tantos filmes sobre isso, pouquíssimos deles são conhecidos, são lembrados. E aqui eu já quero dar a primeira dica do porquê isso acontece e que é algo muito importante para você considerar quando for escrever as suas histórias. Mesmo que você considere que os eventos da Segunda Guerra foram interessantes, a pergunta é: esses eventos foram interessantes de que ponto de vista?

Tá, deixa eu ser bem claro aqui. Obviamente você entende que se a Segunda Guerra for contada do ponto de vista do presidente dos Estados Unidos, a história vai ter um drama completamente diferente de uma versão que conta pela ótica de um pai que perdeu a filha, por exemplo. E não te parece que por esse ângulo super estreito, específico, seria onde toda aquela brutalidade da guerra se revelaria com muito mais força do que qualquer panorama da guerra do ponto de vista militar ou estatal? Pensa um pouco sobre isso antes de decidir por qual ponto de vista você vai contar suas histórias.

Mas agora deixa eu te dar um exemplo mais concreto. E se a gente analisasse dois filmes biográficos exatamente sobre a mesma pessoa, com os mesmos eventos e tudo? Eu tô falando aqui sobre dois filmes do Steve Jobs, o filme *Jobs* de 2013 e o *Steve Jobs* de 2015, que são completamente diferentes. O primeiro filme de 2013 segue uma estrutura cronológica tradicional e a gente vai avançando pela vida do Jobs de evento em evento e o drama vem propriamente dos marcos biográficos em si. Ou seja, esse é um filme que se apoia exclusivamente nas reviravoltas dos eventos que ele escolheu narrar.

Mas o segundo filme, por outro lado, em vez de contar a vida do Jobs, ele interpreta essa vida, ele dramatiza, ele escolhe um ponto de vista específico, um tom, uma tese a partir da qual ele vai construir o personagem. Para você ter uma ideia, olha só a estrutura desse filme. O roteiro inteiro se desenrola em cima de três partes longas e as três são ambientadas nos 40 minutos que antecederam três grandes lançamentos de produto. Então é basicamente o seguinte: sempre que vai ter um lançamento, cerca de 40 minutos antes, acontece um problema com Steve Jobs, uma discussão, um confronto e todo o drama do filme gira em torno desses conflitos recorrentes com as mesmas cinco pessoas ao longo do tempo. E são esses momentos que vão ser usados como lentes pra gente entender a personalidade e o caráter do Jobs.

O próprio escritor do roteiro comentou que algumas pessoas ficaram surpresas com o fato de não ser um filme biográfico típico, com aquele tipo de narrativa que vai do berço ao túmulo narrando os grandes eventos da vida da pessoa. E o argumento que ele deu para ter feito isso é a chave do que a gente tá discutindo aqui. Ele disse que não inventou nem distorceu fatos sobre Jobs, com uma única exceção: Jobs não teve esses confrontos com as mesmas cinco pessoas 40 minutos antes de cada lançamento. Essa parte do filme é claramente uma construção do escritor.

E por que que ele fez isso? Bom, é meio óbvio, né? Grava isso na sua cabeça: ele fez isso porque storytelling não é jornalismo. Contar só os fatos de uma história não é contar bem a história. Só os fatos não contam a história de um jeito envolvente, cativante, empolgante, gerando expectativas. Você entende o que eu quero dizer?

E tem uma outra questão muito importante que eu não falei aqui ainda, que é a segunda parte desse vídeo. Tem um livro muito importante sobre como escrever histórias chamado *A anatomia da história*, do John Truby, que muita gente considera a Bíblia do roteiro. E nesse livro a gente encontra um conceito muito interessante que é o Princípio de Design, onde ele diz basicamente o seguinte: "Suponha que você seja um escritor querendo mostrar o funcionamento íntimo da máfia americana, assim como já fizeram centenas de roteiristas e romancistas. Se você for realmente bom, pode chegar a este princípio de design: usar a estratégia clássica do conto de fadas, mostrando como o caçula de três irmãos se torna o novo rei". E nesse caso, você teria nada menos do que o livro e depois o filme *O Poderoso Chefão*. Você tá me entendendo?

Olha só, a história de *O Poderoso Chefão*, ela não é boa simplesmente porque ela fala da máfia americana por dentro. Ela é boa porque o escritor identificou uma outra história muito mais forte em termos subjetivos que ele poderia usar como ponto de vista.

O que exatamente torna o segundo filme do Jobs realmente bom? Quando a gente compara os dois filmes, a gente vê que no primeiro a vida inteira dele é mostrada de uma forma até um tanto corrida para poder enfatizar quais foram os grandes eventos da vida do Steve Jobs. Mas o segundo filme se concentra em pouquíssimos momentos, em momentos-chave, que são aqueles intervalos antes de cada grande lançamento. E é através desses momentos que a gente vê coisas mais profundas, como por exemplo, a evolução do relacionamento do Steve Jobs com a filha dele.

Agora, raciocina comigo aqui: se você parar para pensar na biografia do Steve Jobs, sequer vai passar pela sua cabeça a relação que ele tinha com a filha — dificilmente, né? Porque à primeira vista nem parece fazer sentido que saber da relação entre pai e filha do Steve Jobs tenha algum impacto grande nessa jornada que ele teve durante a vida para se tornar esse grande empresário.

Porém, porém, esse conflito dele com a filha sempre esteve lá. O que o roteirista do segundo filme fez foi enxergar que essa era a verdadeira história, a história que ele queria contar. Aquele filme não é um filme sobre o fundador da Apple, é uma história sobre a relação entre pai e filha contada dentro desse invólucro de um filme sobre o fundador da Apple. Você entendeu?

E essa é a mesma situação lá com o livro de *O Poderoso Chefão*. Uma história por si só não carrega um significado pronto. Uma boa história vai conter essas tensões escondidas no seu interior. Então o que torna um escritor realmente bom é se ele consegue enxergar qual é a melhor tensão a partir daquela premissa para depois pensar sobre qual é o roteiro que melhor vai construir esse personagem. Isso é o que bons escritores fazem.

E não, eu não tô sendo reducionista aqui. Uma boa história, um bom livro, ele precisa de uma boa comunicação com o público-alvo, portanto, ele precisa de uma boa linguagem, o que inclui um bom estilo. A leitura vai ser mais agradável se o escritor for bien treinado nas técnicas narrativas sobre diálogo, sobre construção de cenário. Mas essas são questões meramente técnicas que qualquer pessoa consegue aprender e até uma IA consegue reproduzir.

Pensa um pouco: por que que a IA consegue reproduzir essas ferramentas? Porque são coisas técnicas. Qual é a diferencial dos escritores bons? Eu tô falando aqui dos bons contadores de história, mesmo que a escrita deles não seja aquela coisa, até porque uma boa revisão resolve esse problema. Os bons escritores têm como diferencial que eles conseguem captar coisas subjetivas. Eles conseguem olhar por detrás das histórias, das experiências e interpretar a vida dos personagens de forma que isso abre um espaço para o leitor se conectar com aquela obra da sua própria maneira. O ChatGPT não tem amigos, ele não teve avó, ele não tem vizinhos. O ChatGPT só conhece as relações humanas em números. Você entende a diferença?

E pesquisando aqui para este vídeo, eu encontrei uma coisa curiosa. Tem um filme chamado *Feitiço do Tempo*, estrelado pelo Bill Murray, que teve uma premissa bem simples: um meteorologista cínico fica preso em um loop temporal, revivendo o mesmo dia infinitamente. Só isso. Mas, exatamente por esse filme ter essa estrutura simbólica aberta, diferentes grupos passaram a interpretar o filme segundo as suas próprias traduções filosóficas ou religiosas.

Eu tava vendo aqui que o próprio diretor do filme contou que na semana de lançamento apareceram alguns judeus na frente de um certo cinema lá carregando cartazes, questionando a vida medíocre de certas pessoas que vivem os dias todos iguais e tal. Por outro lado, a galera do ioga andava dizendo que o filme representava exatamente o que eles pregavam. E você acha que foi só isso? Padres católicos escreveram que esse filme expressava inteiramente a sua filosofia. E teve também a comunidade psiquiátrica que disse que o filme era claramente uma metáfora da psicanálise, porque supostamente a gente revisitaria sempre as mesmas histórias, revivendo os mesmos padrões, e o objetivo da psicanálise seria romper com isso.

O filme na tela era sempre o mesmo, mas ele não foi o mesmo para cada pessoa que assistiu. Isso acontece com todas as histórias boas. Cada pessoa projeta algo diferente sobre as histórias. E realmente, talvez seja isso que faz de uma história uma boa história, uma história gostosa de ler, uma história impactante pra gente. Então não é a premissa, não é um bom roteiro, não é o domínio técnico por si só, mas a tensão que o escritor consegue enxergar e destacar de dentro da história.

Como última frase marcante aqui, última frase forte desse vídeo para você decorar, pense no seguinte: o que importa numa história não é o que ela conta, mas o que significa.

E bom, se você quer realmente sentar e aprender a mecânica disso, aprender a como pegar qualquer premissa básica e construir uma história com um núcleo forte emocional, se inscreve aqui no canal, porque entre os próximos vídeos vai entrar justamente uma aula sobre como construir uma história a partir de qualquer premissa. Enfim, o meu interesse aqui é fazer você aí do outro lado se tornar um escritor melhor. Então, deixa o seu like, manda esse vídeo para aquele seu amigo interessado em escrita, e até a próxima.