Esse vídeo aqui é um pouco mais pesado, tá? Deixa eu contar uma coisa absurda. Depois vocês vão entender por que esse vídeo está nesse canal aqui.
Eu vi uma notícia de que uma mãe matou o próprio filho num surto ideológico altruísta para poupar o filho da crueldade do mundo, dessa pobreza do mundo e tal. E eu descobri isso aí vendo o próprio vídeo da mulher em questão explicando, dando a justificativa do que ela fez. E, puxa vida, eu achei essa história tão triste, tão, tão horrível, principalmente triste, que eu levei algumas horas assim para conseguir me recuperar. Eu realmente fiquei nervoso pensando nisso, pensando, por exemplo, se eu fosse vizinho dessa mulher. E eu fiquei nesse estado assim, de choque. Eu ficava lembrando disso horrorizado, com raiva mesmo, por três dias, até que eu resolvi escrever esse texto que eu estou usando como base para o vídeo.
O que é que eu fiz, né? Eu decidi tentar analisar o que exatamente me fez ficar tanto tempo triste com essa história, tão triste com essa história. E aí, como resultado, eu acabei fazendo esse ensaio, resolvi fazer esse ensaio investigando a questão toda do ponto de vista do *storytelling*. E, para ser bem sincero, por que eu fiz isso? Eu fiz isso porque eu pensei assim, né: quem sabe essa abstração sobre a tristeza, sobre como as histórias conseguem impactar o leitor, deixar o leitor triste… talvez fazer essa abstração, foi o que eu pensei, pudesse aliviar esse rastro que essa notícia deixou em mim naqueles dias. Porque o que eu pensei foi o seguinte: ficções, às vezes mais até do que a realidade, conseguem deixar a gente bastante triste, né? Será que analisar esse *plot*, essa notícia trágica, horrível, como ficção… será que isso é suficiente? Ou seja, se eu analisar isso do ponto de vista narrativo, será que é suficiente para amenizar esse ato grotesco dessa mulher?
Eu vou até explicar um pouco melhor. Olha só: será que mesmo nesse formato aqui de ensaio, vendo toda a ilusão dramática se dissolver, será que isso vai ser o bastante para amenizar a raiva que eu fiquei, a tristeza que eu fiquei ouvindo a história? Será que entender a mecânica da dor faz com que a dor diminua? Eu estou falando isso porque, se você já viu algum outro vídeo aqui no canal, você sabe que eu fiz um vídeo inteiro sobre escrita terapêutica. É um dos melhores vídeos aqui do canal, eu recomendo muito que você assista. Nesse vídeo eu falo sobre como transformar as suas dores, os seus traumas, em histórias muito impactantes para outras pessoas. Mas enfim, aqui o contexto é outro, né? E foi pensando nisso aqui que eu lembrei daquela desgraçada lá de Lajeado e eu tive uma ideia.
A mãe estaciona o carro numa rua secundária. Não é um lugar exatamente isolado, é só um trecho onde as casas parecem mais cansadas. A menininha está no banco de trás. Ela está bem bonitinha, presa com o cinto na cadeirinha, balançando os pés. E a mãe fala bem baixo, como mãe. Ela fala com aquela doçura treinada, como se estivesse explicando uma regra doméstica muito simples. E ela diz para a criança, com esse tom de voz, que as duas vão dormir juntas. Para confortar a menina, ela diz que vai ser rápido, mas a menina então pergunta sobre o pai. A mãe simplesmente não consegue disfarçar aquele sorriso sumindo do rosto e responde alguma coisa vaga que a criança simplesmente aceita porque não entende direito. Ela ajeita o cabelo da filha, aperta melhor o cinto, confere se as portas estão bem trancadas. Uma mãe cuidadosa, alguém diria. E, antes de continuar, claro, um batonzinho, por que não? Afinal, ela pretende filmar toda a cena.
O próximo movimento é ligar a câmera, porque registrar é justamente o ponto-chave aqui. Ela não é profissional. O enquadramento sai meio torto, com o rosto cortado pela metade, apesar de que a filha parece inteira — inteira, mas pequena demais para caber naquela história. E, filmando, ela diz: "Filha, o que é que a gente vai fazer?". E a menininha de dois aninhos olha para a câmera com aquele desconforto notável, e é a própria mãe que continua: "A gente vai se matar, filha? Sim". A menininha diz: "Sim". O "sim" perturbador que você vai ver num vídeo. Você está vendo isso, não está? É claro que a menina de dois anos não está concordando com a mãe. Ela nem sabe o que está falando, ela nem sequer podia compreender aquele maldito plano. A criança só ama a mãe. E, porque ela ama a mãe, ela assume que, o que quer que seja que vai acontecer, só pode ser algo bom para as duas. Como uma menininha de dois anos, ela está simplesmente atendendo a uma voz conhecida — uma voz diabólica, mas na qual, até ali, ela aprendeu a confiar.
Quando eu lembrei dessa notícia — a mãe, o plano, a menina de dois anos no banco de trás que concordou em morrer sem entender o que era isso —, eu já comecei a me sentir triste a partir do final da história que eu já conhecia. Entende isso? Eu fiquei triste a partir do final, eu fiquei triste pelo que estava sendo construído. Foi aquela tristeza que faz a gente parar o que está fazendo, parar de ler, parar de prestar atenção por um momento, olhar para longe, respirar fundo. A tristeza, só a tristeza.
E aí eu percebi que, nesse ensaio, a minha busca deveria ser pelo seguinte: tentar descobrir como construir a tristeza sem o sentimentalismo, sem adjetivos carregados, sem tentar explicar a dor, deixando a tristeza simplesmente no silêncio entre as ações. Você já pensou nisso? Quão bem desenvolvido você acha que tem que ser o pano de fundo para que a sensação de tristeza seja forte no leitor? Nesse caso específico, apesar de um relato superbreve, a gente vê que tem muito subtexto, muitas lacunas que a gente vai tentando preencher imaginativamente, junto com uma incerteza que vai agravando essa sensação — a incerteza sobre o desfecho da história.
E a mãe sorri satisfeita para a câmera. "Dá tchau para o papai", ela fala. A menina balança a cabeça. "Não quero", ela fala. E ela diz firme, só que a mãe insiste. Ela está se esforçando ali para manter aquele sorriso sem-vergonha para a câmera. "É a última vez que ele vai te ver. Fala tchau. Tchau, papai. Adeus. Até nunca mais." A menina repete: "Não quero". Só que agora ela repete mais baixo. E a cena é tão difícil… A menina fala olhando para baixo. E tem aquele meio segundo da criança fazendo um beicinho típico de criancinha. Corta o coração da gente. Você percebe o peso desse instante aqui? A mãe tem forças para decidir tudo, menos isso. Ela pode falar pela menina, pode conduzir o carro para onde ela quiser, mas ela não consegue arrancar essa despedida.
A tristeza não surge aqui no "sim" dito antes pela menininha. Quando a menininha diz "sim" para a mãe que perguntou: "Vamos se matar? Vamos se matar, Camille? Sim". O "sim" da menina de dois anos entrega para a gente o absurdo e entrega a ira — uma ira com a qual a gente vai ter que lidar dali para a frente, todas as vezes que a gente se lembrar. Mas não foi o "sim" que entregou para a gente a tristeza, foi aquele "não". Foi a menina dizer: "Não, não quero. Não vou dizer adeus para o papai". "Diz: 'Pai, tchau. Última vez que tu me vê, pai'". "Não quero". É esse "não" que traz aquele início da tristeza para qualquer pessoa que esteja assistindo àquele vídeo.
"Vamos se matar, filha? Sim." Uma resposta chorosa, e beleza. Agora nós temos um vídeo pronto e enviado ao pai, que dias antes havia terminado o relacionamento com essa mãe. E como é a continuação? A BR-386 supermovimentada, com caminhões, carros. A vida normal de uma segunda-feira em pleno Vale do Taquari. A mãe dirige aquele Fiat Uno com o sol da tarde batendo forte no para-brisa sujo, e no banco de trás a menina de dois aninhos, que segura o seu coelhinho — aquele coelhinho que já olha para a menina com os nossos olhos arregalados: o que é que vai acontecer? E, quando a menininha menos espera, o carro simplesmente, no momento certo, segundo a mãe, acelera. A colisão vem como um trovão seco, frente contra frente. Primeiro com uma carreta, depois com um Hyundai batendo na traseira. E é isso. O carro bate, a mulher sobrevive, ainda que em estado grave, e a menina sai com escoriações leves. E quando a gente soube da notícia, a menina já está nos braços do pai dela. Graças a Deus. A gente respira aliviado, e ainda assim aquele nó estranhamente não sai da garganta. Um dia ela vai crescer. Ela vai crescer e alguém vai ter que explicar para ela o que é que aconteceu naquele dia.
Agora veja: a Anelise dos jornais — a que sobreviveu e foi presa, aquela mulher —, ela nos causa no mínimo um desprezo e sei lá o que mais. Mas existe uma pior: uma outra Anelise que conseguiu, aquela da nossa abstração. Essa outra Anelise causa o mesmo tipo de tristeza, mas ela também causa um tipo de medo — um medo que eu desconfio que só pais e mães podem ter nessa hora. É aquele medo que a gente encontra porque, nessa versão, os bombeiros chegaram e encontraram duas vítimas fatais. Olha só: a tragédia por si só provoca tristeza, mas ela já não era esperada? Eu acredito, sim, que emoções fortes possam nascer do implícito, daquele gesto mínimo, talvez daquilo que a gente não esperava. Aqui, no entanto, não foi o contrário? Quando você começou a ouvir essa história, você já não esperava a tragédia? Você certamente estava esperando o pior. E, no entanto, a história real não teve a tragédia. A tragédia foi ela começar a acontecer.
Quando eu comecei a contar a história, você certamente já estava esperando o pior. E não só por saber do teor desse ensaio, que era um ensaio sobre como construir a tristeza, sobre tentar entender o mecanismo da dor; você começou a projetar a tragédia no final da história pela própria premissa inicial, não foi isso? E nessa conclusão terrível que você tomou ao longo da narrativa, antes de chegar no final, eu imagino que você tenha pensado também em muitos detalhes sensoriais. O som da freada, o vidro estilhaçando, o cheiro de borracha queimada, o sangue no chão… mas tem coisa que a gente não consegue descrever. Como é que a gente faz para descrever o que aconteceu dentro da cabeça da menininha de dois anos quando o carro capotou na nossa versão um pouco mais violenta? E, antes disso, quando a menininha de dois anos, sentada no banco de trás do carro, balançando as perninhas, sentiu o cinto apertar o corpo dela — aquele corpinho pequenininho sendo pressionado em um segundo, trazendo aquele medo que ela ainda nem sabia que existia, porque aos dois anos ela simplesmente não sabe o que é o medo da morte.
A versão mais pesada é essa em que a menina nem sequer gritou. Ela só apertou o coelhinho contra o peito e se lembrou do papai. A mãe, no último segundo consciente, pensou: "Agora ele vai ter o que merece. Agora ele vai sentir o que eu senti." E o pai, depois recebendo aquele vídeo, o último vídeo… como é que ele viveria depois disso? E veja: eu estou contando aqui no seco, sem lágrimas nas frases, sem muito floreio. E, mesmo assim, o que é que você me diz? A tristeza chegou? Ou será que eu preciso descrever aqui o cheiro da gasolina misturado com o leite azedo que a menina derrubou no banco? Aquele coelho de pano coberto de poeira que foi arremessado para fora do carro no asfalto, olhando com aqueles olhos espantados para a mãe? Será que é isso que eu preciso? Que sensação ruim!
E o pai acabaria vendo o vídeo horas depois, quando tudo já estivesse resolvido. Ou nem tudo, porque ele assistiria àquele momento em que a filha diz "não quero", pausaria, reassistiria e faria isso tantas vezes que a sua vida provavelmente passaria a girar em torno disso por muito tempo. E tem mais: o pai ainda teria que enfrentar o silêncio da casa, o cheiro de talco persistente, o berço vazio. Você pensou nisso? Mas isso é sentimentalismo, não é? Então, não sei. A tristeza que eu buscava de fato não está no berço; ela está no pai, mas está no pai quando ele olha para o berço.
Será que você está comigo quando eu digo que a tragédia não está no acidente, mas no pedido da mãe e, pior ainda, na criança assentindo ao pedido sem saber do que se tratava? Mas enfim, me desculpe. Eu não sei quão triste essa história aqui, principalmente a abstração que a gente fez, poderia ser triste para outra pessoa. Eu só sei que, por hora, ela vai ficar aqui no meio de um monte de outras coisas para algumas poucas pessoas que quiserem encarar isso aqui até o final. E eu não sei se o meu plano inicial funcionou. Até mais.