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Victor Hugo e o horror da realidade

Victor Hugo e o horror da realidade: prisão e chuva

No vídeo intitulado “Victor Hugo e o horror da realidade”, o autor analisa uma passagem angustiante de uma obra de Victor Hugo, descrevendo a sensação de aprisionamento e a brutalidade das condições dos condenados.

A frase “a porta do túmulo não se abre pelo lado de dentro” aparece como um eco de consolação para o personagem, que percebe que, mesmo morto, não há saída. Ele tem uma visão – um pesadelo acordado – em que tenta fugir da cela, chega à porta e não consegue abri‑la. Essa impossibilidade remete à ideia de que o túmulo não se abre por dentro, como se já estivesse morto.

Em seguida, a cena se desloca para uma festa barulhenta, onde o guarda leva o personagem para assistir ao que vai acontecer. Eles vão colocar ferros nos “forçados”, os prisioneiros que trabalham forçadamente nas galeras. Todos se reúnem na janela para observar, inclusive ele, enquanto narram a troca de correntes e o início de uma chuva. Um velhinho comenta que aquilo “não estava nos planos”. De repente, os presos ficam nus e a chuva começa a cair sobre eles.

Esse ritual de humilhação tem paralelos históricos: quando os homens eram enviados às galeras, eram despidos, obrigados a remar nus, numa situação degradante que combinava o cheiro do banco de madeira com a exposição ao clima. A cena, inicialmente cômica, torna‑se triste quando a chuva aumenta e os prisioneiros, acorrentados ao pescoço, não conseguem se proteger. Eles tentam colocar as roupas, mas as correntes impedem qualquer movimento; ficam ali, tremendo, enquanto a água escorre sobre seus corpos.

A sociedade representada pelos policiais, médicos, coordenadores e padres observa, mas ninguém se dispõe a entrar na chuva para tirá‑los dali. O autor imagina que, embora o livro não mencione, os guardas evitam a chuva para não adoecer ou perder o emprego. Assim, os condenados permanecem acorrentados, incapazes de se vestir ou de fugir, aguardando que a tempestade termine. Essa situação gera profunda compaixão: “Fiquei com pena, são pessoas horríveis, mas não conseguem nem sair da chuva”.

Enquanto isso, na janela, alguém reconhece o condenado entre os demais. Os guardas, em fila, levam os prisioneiros ainda encharcados, passando próximo à cela do personagem. Ele ouve o rangido das correntes no chão, o riso dos que zombam dele, e passa a enxergá‑los como demônios que escalam as paredes e invadem sua sala. Consumido pelo medo, ele corre para a porta, tenta abri‑la e, ao lembrar que “a porta do túmulo não se abre por dentro”, desmaia.

Mais tarde, na enfermaria, ele acorda ao ouvir gritos e barulhos. Olha pela janela e vê os forçados ainda na chuva. Ao sair, declara: “Infelizmente eu não estava doente”.