Muitas pessoas criticam a *Poética* de Aristóteles argumentando que a obra defende a criação de personagens planos, superficiais e sem profundidade. No entanto, uma análise detalhada do texto aristotélico revela uma compreensão muito mais complexa e rica sobre a construção de figuras dramáticas e dilemas humanos.
Será que é verdade que na *Poética* a gente só consegue encontrar a ideia da criação de personagens que a gente chamaria hoje de mornos, personagens sem graça, personagens que alguns vão chamar de 2D? Há várias maneiras de você designar o que seria um personagem ruim, sem profundidade hoje. E essa é uma crítica bem frequente contra a *Poética*. Mas será que é isso mesmo? O que você me diz? De maneira alguma. Isso foi o que me contaram na faculdade. Não vou contar anedota aqui para fazer a live um pouco mais rápida do que a outra vez, mas não, não é isso.
E, semelhante ao que a gente fez na outra live, eu separei trechos aqui para ajudar a gente, até porque bateu uma semana daqui para lá, estava estudando outras coisas. Vamos lá, Capítulo 14. Vamos ver o que que ele fala sobre personagens, embora ele fale em outros capítulos também, tá, gente? Vejamos pois: que situações parecem inspirar temor ou compaixão? Necessariamente, ações deste tipo passam-se entre amigos ou entre inimigos, ou então entre pessoas que não são nem uma coisa nem outra.
Quando passam entre inimigos, nada nos seus atos ou intenções inspira compaixão, mas apenas temor; e o mesmo acontece quando se trata de pessoas que não são nem amigas nem inimigas. Mas, se o sofrimento ocorre entre amigos ou pessoas de família — como, por exemplo, se alguém mata, tenta matar ou faz qualquer coisa do tipo contra seu próprio irmão, pai, mãe ou vice-versa —, então pode haver temor e compaixão. O crime pode ser cometido com o conhecimento e consciência do protagonista; também pode ainda ser cometido sem que o protagonista tenha conhecimento suficiente do que faz, vindo só depois a aprender a relação de parentesco; a amizade também pode, por ignorância, tentar cometer o crime e, no último instante, descobrir a verdade e resignar-se. Mas o pior caso é aquele em que o protagonista tem pleno conhecimento do que faz e de contra quem faz e, quando chega a hora, desiste; isso é repugnante e nem um pouco trágico.
Vamos comentar isso aqui rapidinho, cara. Quantas vezes você já não viu um personagem, ou num filme, ou num livro mais moderno — nem às vezes pode ser o clássico mesmo —, em que o personagem simplesmente desiste? Opa, vira para trás e vira para trás, tá? Quantas vezes tem um autor que eu gosto muito e muita gente também gosta, que, apesar de fazer isso… quer dizer, não é nem apesar, mas ele faz isso de maneira que funciona, porque o negócio dele não é catarse, é outra parada? Os personagens de Dostoiévski são assim: você não sabe o que eles querem, eles são tipo "tô aqui" e do nada ele "opa, não, não quero mais", aí vai e faz o exato oposto do que ele tava falando. São personagens contraditórios, mas cuja contradição é algo inefável até para eles, algo que sequer eles compreendem ou o narrador compreende. Aí realmente fica complicado isso acontecer.
Não é o caso, por exemplo, do que acontece com a Emma Bovary. A Emma Bovary, o narrador conta para gente que, quando ela estava no convento, ela tinha contato com umas paradas meio românticas ali, os romances românticos, e ela tenta viver uma vida que é o oposto daquilo como o convento disse para ela que tinha que viver, mas surgiam uns garotões assim e acabavam por seduzi-la, e ela caía. Mas você entende por que ela cai naquilo, você entende por que acontece; ela não é contraditória, você entende que aquilo é o sonho dela, pô, o sonho dela desde pequena. Agora, personagem de Dostoiévski, por exemplo, isso não acontece — e não significa que a história do Dostoiévski seja ruim, é porque ele está querendo falar sobre outra coisa, o negócio dele não é catarse, é outra parada.
Mas, se você quiser causar catarse, Aristóteles fala aqui: pô, tu vai botar dois inimigos para se matar, tu só vai no máximo ter medo do pavor, ou o temor quando ele trata disso no sentido de pavor, de até de nojo também, tipo "caraca, cortou a cabeça, matou", tipo a Medéia. A Medéia matou as crianças, os filhos dela. Você pensa: "Que isso?". Mas se fosse tipo assim: "Ah, ela matou não sei quem, duas crianças queriam matar ela", você fala "é terrível, mas tá, não tem compasão". São dois assassinos, esse ganhou, pronto. Que compaixão que eu vou sentir, pô? Agora, ela matar os próprios filhos, a dificuldade que ela tem de fazer isso, de ficar falando o tempo todo "ah, o que que eu faço para vingar meu marido, eu vou acabar com os filhos dele que ele ama", e depois "ah, não posso fazer", enfim, saca?
E também tem a questão desses personagens serem afetados sempre de fora. Isso que é interessantíssimo: eles sempre são pegos de fora, cara, sempre de fora. Sempre tem que ter uma razão externa confrontando aquilo de que são convictos. Eles têm um caráter muito forte, eles expressam… é como se a alma deles estivesse falando pela boca no teatro grego, ou mesmo na *Ilíada*, na *Odisseia* e outros cantos, enfim. Eles falam, é a alma deles falando por eles. Eles não escondem o que pensam; podem se esconder dos outros, mas ao menos para o público eles não escondem. E aí você sabe exatamente o que eles querem. Só que, quando vem uma razão suficiente para mudar aquilo, você entende que, se fosse você ali, você mudava também.
Então, quando eles mudam, é por uma razão suficiente para mudar, e não porque é conveniente para a história, ou porque é verossímil que alguém mude porque a gente muda de opinião o tempo todo do nada. A gente do nada um dia fala "não tô mais a fim, não", pô, e muda, saca? Muda, mas com coisas pesadas, coisas importantes ninguém muda de opinião fácil assim. Não, pô, quando é, sei lá, a questão da sua religião, ou da tua vida financeira, do casamento… ninguém, tipo, num dia, olha para os filhos, olha para a esposa e fala "quer saber, agora eu quero curtir a vida louca, cansei de casamento, não quero mais não, acabou". Não é assim, não, pô, não é desse jeito, entendeu? Não é assim que funciona, só gente maluca que faz isso.
Mas, enfim, eu acho que respondido, está ótimo: os personagens não são mornos, são personagens que são confrontados com dilemas gigantescos e se constroem em cima disso, em cima desses dilemas que a gente tem que enfrentar. Ele dá até certas instruções para fazer isso, na verdade; ele fala — a gente conversou sobre criação de personagem ontem, eu acho, sei lá. Na *Poética*, para quem não sabe — vou falar isso várias vezes durante a live, eu acho —, a gente está preparando a longo prazo, na verdade eu não sei para quando, um curso de escrita baseado na *Poética*. Então a gente está conversando bastante sobre isso, é um assunto que não sai do nosso repertório semanal. E o Aristóteles, durante o livro todo, vai dando o que a gente pode chamar de dicas de como fazer bons personagens, personagens profundos — a gente chamaria de outra maneira hoje —, personagens impactantes, personagens com que o seu leitor se identifique, que se envolva e tal. Existe isso muito na *Poética*, muito mesmo.